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Almas em Delirio foi anunciada como uma ‘história verdadeira’, tendo como
personagem central um major do Exército, acobertado pelo pseudônimo de Rogério
Duarte. Após ganhar distinção como herói nacional pela atuação na guerra do Paraguai
e na Revolta dos Mucker, o militar contraiu casamento com Carolina, moça interiorana e
rica, desejosa dos prazeres oferecidos pela metrópole.
Ambiciosa e egoísta, a mulher impôs ao marido uma ‘comunhão satânica’, exi-
gindo que Rogério empenhasse todos os seus bens na aquisição de roupas, jóias,
perfumes e em festas elegantes. Exaurido economicamente, o militar pouco a pouco se
viu despojado de tudo, até da galhardia de herói nacional. Desgostoso pela ‘má escolha
da consorte’, Rogério passou a ausentar-se do lar, varando noites nas tavernas e nos
bordéis, até se tornar alcoólatra e toxicômano, recorrendo insistentemente ao parati, ao
clorofórmio e ao ópio para minimizar os desgostos da vida.
A partir deste ponto, o leitor fica em dúvida sobre a veracidade dos fatos, já que
a trama foi narrada na primeira pessoa do singular. Entre a alucinação e a realidade


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cerraram-se tênues cortinas que direcionam Rogério para a insanidade mental e para a
tuberculose. Alucinado pela idéia de que Carolina o traía com o clínico encarregado de
seu tratamento, o militar tenta assassinar o facultativo, sendo tomado em seguida por
‘agulhadas no peito’ e, na seqüência, pela hemoptise.
O manicômio configurou-se como o caminho imediato de isolamento, sendo que
o doente permanece pouco tempo no hospício, até mostrar-se livre dos delírios. Porém,
a devastadora tísica o obrigou a estabelecer moradia em Campos do Jordão, onde
esperou a morte pôr termo às suas angústias. Ocorrido o óbito, os jornais paulistanos
seguiram o protocolo, registrando falecimento do herói nacional como resultado de
‘antigos padecimentos’.
Nessa trajetória, o major Rogério Duarte não foi apresentado como vítima de um
casamento infeliz. Diferentemente da machadiana Maria Luísa, o personagem criado
por Canto e Mello (1912:15) foi responsabilizado pelo ‘inferno’ em que se transformou
sua vida, mensagem que desponta na introdução do ‘depoimento’ do frustrado herói
militar: “Quando não tenha outro merecimento, servirá [o texto] ao menos de lição e de
exemplo àquelles que sendo, como eu, talhados para o bem, se tornam, por sua culpa,
enormemente desgraçados”.
A fantasia literária mostrava-se insaciável na exposição pública das aberrações
pretensamente produzidas pelo bacilo tuberculoso. A percepção distorcida da realida-
de e a exaltação egocêntrica que animavam os figurantes consuntivos tinham como
desdobramento novas versões ficcionais que declaravam-se instrumentos dissecadores
da vida privada dos contaminados.
Este caminho de fácil exploração motivou também o desconhecido escritor Elias
Cecilio, perene ausente das avaliações literárias sobre as primeiras décadas deste sécu-
lo. No seu livro Demonios e Semideuses, lançado no ano de 1933, a tuberculose dirige
as ações de Aulo Santerre, um homem rico e de destaque no mundo dos esportes, que
se apaixonou por uma pectária que escondeu até à morte a sua condição enfermiça.
Infectado, Aulo descobriu-se doente logo após tomar ciência da causa do re-
pentino falecimento da amada. Em resposta à sua tragédia, o enfermo resolveu vingar-
se do mundo, empenhando o resto da sua vida na disseminação do bacilo de Koch. Para
atingir este objetivo, o ‘perverso Aulo’ passou a promover contínuas festas que dege-
neravam em bacanais regados pelo absinto e pela morfina, exigindo nestes encontros
que todos os presentes bebessem de um mesmo cálice, previamente contaminado pelo
germe da morte. Próximo do fim, o consuntivo ocupou seus derradeiros instantes de
vida locupletando-se de sua própria maldade, feliz porque havia ‘marcado’ todos os
seus parceiros de devassidão.
As cenas de pretenso realismo sobre a conduta corrompida dos tísicos encon-
trou verificação maior em uma extensa passagem de um livro apresentado como coletâ-
nea de ‘crônicas policiais’ e intitulado Noites de Plantão, sendo seu autor o delegado
paulistano Amando Caiuby (1923).
Nesta obra, destaca-se o drama que envolveu Leopoldo e Olivia, um casal do
interior paulista que perdeu todos os seus bens na busca da cura da doença pulmonar
que minava Leopoldo. Moradores em Mogi-Guaçú, a miséria econômica e a tísica impu-


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seram a transferência do casal para a cidade de São Paulo, onde o tuberculoso esperava
encontrar assistência médica patrocinada pela filantropia.
Leopoldo, no entanto, teve seu internamento hospitalar rejeitado pela Santa
Casa, sendo obrigado a alugar um quarto num cortiço localizado no bairro operário do
Brás. Na habitação coletiva, o doente logo selou inimizade com o senhorio, não só
porque atrasava o aluguel, mas também porque sua tosse contínua amedrontava os
demais inquilinos. Em resposta aos reclamos, o consuntivo esfaqueou um dos vizi-
nhos, sendo encaminhado à chefatura da polícia.
Na delegacia central, Leopoldo foi acometido por uma violenta hemoptise, sensi-
bilizando o delegado que não só o perdoou como ainda forneceu dinheiro suficiente para
o casal mudar a residência para Campos do Jordão. Na estação de cura, o infectado
deixou-se dominar pela ‘tara consunptiva’, mostrando-se enciumado pelos olhares cobi-
çosos que os sadios lançavam sobre Olivia. Ao perceber a proximidade da morte, o
‘egoísmo’ e a ‘distorção dos sentidos’ impostos pela tísica fizeram o doente fingir-se
recuperado, para assim contaminar a acompanhante, pois, tomado também pela ‘febre de
sensualidade’, Leopoldo forçou a esposa a lhe conceder íntimos ‘agrados e carinhos’.
Atingido o lúgubre propósito, o fimatoso dominado pelo ‘cérebro doentio’,
confessou à companheira:


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