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A ‘L
ITERATURA
 T
UBERCULOSA

Um dos primeiros escritores nacionais a romper – pelo menos em parte – com a
visão romântica sobre os adoentados do peito foi Machado de Assis (1957).
Assumidamente evitando a incorporação de personagens tísicos em suas criações, nas
raras oportunidades que Machado discorreu sobre o tipo consuntivo, tratou logo de
decretar-lhe a morte, como ocorreu com a tuberculosa Maria Luísa, no conto A causa
secreta, publicado em 1896.
Definida como a “velha dama insaciável, que chupa a vida tôda, até deixar um
bagaço de ossos” (1957:112), a tísica aflorou como um mal associado à malignidade
imputada ao homem moderno. Machado de Assis evitou divagar sobre os sentimen-
tos íntimos que animavam o comportamento da infectada, mas o mesmo não ocorreu
em relação ao marido da personagem que, apresentado como sádico, comprazia-se em
amputar e lançar à fogueira animais vivos. Na continuidade do texto, o escritor deixou
claro que a moléstia pulmonar ramificou em uma criatura “nervosa e frágil”, incapaz de
suportar a perversidade do esposo.
Nas três décadas e meia que se seguiram à publicação do conto machadiano,
nenhum outro literato situou o personagem tísico como vítima dos descalabros dos
sadios dos pulmões. Os sucessores de Machado de Assis fugiram das considerações
filosóficas de Quincas Borba para, em seu lugar, entronizarem o seu oposto, Borba
Sangue, o personagem médico criado pelo também médico Neves-Manta (1930).
O novo paradigma explicador das tramas existenciais dos infectados foi pouco
a pouco sendo construído neste intervalo de tempo, centrando suas conclusões na
filha mais cara do positivismo clínico, a endocrinologia. Motivado pelo novo braço
da medicina, que reduzira o corpo humano a um ‘armário de glândulas’, Borba Sangue
não teve dúvidas ao pontificar: “a vida é um processo de experimentação. De equilibrio
physio-glandular. De tendente equidade sociogenica. Domina-te! Corrige-te!” (Ne-
ves-Manta, 1930:109).
A obediência a este enunciado determinou que a comunidade dos ficcionistas
emprestasse vigor próprio ao pressuposto hipocrático que localizava o tuberculoso no
círculo vicioso que, inaugurado pela perversão dos costumes, conduzia à tísica, sendo
a enfermidade então responsabilizada pelo aprofundamento da degradação dos senti-
dos e pela ampliação das tendências pervertidas. Por isso, os murgerianos Mimi e
Rodolphe parecem inocentes demais se comparados aos pectários apresentados pela
literatura brasileira. No contexto nacional, os personagens tuberculosos foram excessi-
vamente diabolizados, conferindo uma identidade própria e aterrorizadora a um grande
número de peças ficcionais compostas nas três primeiras décadas deste século.


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Espelhando esta tendência, no final do século XIX, o maranhense Coelho Netto
(1924) produziu um conto onde o elemento tísico ganhou sentido na figura de Isidro,
jovem burguês que, enviado a Portugal para graduar-se em Direito, aproveitou-se da
ausência paterna para entregar-se à bebida, ao ópio e às orgias, encontrando abrigo
carinhoso nos braços de uma linda cigana. Frágil do físico desde o nascimento, todos
os exageros comprados a peso de ouro só poderiam levá-lo a um desfecho único: a
hemoptise anunciadora da tuberculose.
Obrigado a retornar ao Brasil, pouco tempo Isidro permaneceu na cidade do Rio
de Janeiro, sendo enviado pelo médico da família para o clima seco e fresco do sul da
Bahia. Uma vez mais distanciado dos progenitores, o enfermo entregou-se à vida des-
regrada, agora não por vontade própria, mas sim em conseqüência da ‘febre tuberculosa’
que acreditava-se deformar os mecanismos do corpo e da mente, produzindo a deprava-
ção do comportamento.
Amasiado com uma mulata sensual, Isidro ao mesmo tempo infectou e engravidou
a amante que rapidamente caminhou para o óbito. Concomitantemente à piora do estado
da saúde do viajante, a tísica impunha ao seu súdito todas as suas marcas, inclusive o
misticismo, levando-o a encontrar a morte no altar de uma capela sertaneja.
Nas linhas do conto assinado por Coelho Netto foram associados os principais
estigmas atribuídos aos doentes do peito: vida dissipada, irresponsabilidade social,
egocentrismo, hipersexualidade e ‘loucura mística’. A partir de então, foram estes os
temas explorados pela imaginação dos escritores nacionais que, iniciantes ou não,
encontraram na exposição da pretensa trajetória de vida tuberculosa a garantia do
sucesso editorial, oferecendo farto material que sugeria o funcionamento íntimo dos
segredos que pontuavam a privacidade dos infectados.
Assim ocorreu com o estreante Théo-Filho (1923:62-123) que, no ano de 1910,
obteve os primeiros reconhecimentos da crítica e dos leitores ao discorrer sobre a vida
privada de alguns tipos cariocas, na coletânea intitulada Dona Dolorosa. Apresentada
por Silvio Romero como uma obra que expunha “a vida como ella é na sua largueza
ordinaria”, o conto que empresta nome ao volume centra a narrativa na descrição da
atormentada Cecília, amasiada com o jornalista Julião, por sua vez um fracassado aluno
da Faculdade de Medicina carioca.
Logo após efetivar a vida em comum, Julião passou a se torturar com a aparente
frigidez sexual da companheira, ex-lésbica, que nos momentos iniciais da união com o
jornalista limitava-se a realizar suas “satisfações mórbidas (...) pela imaginação, no vicio
solitario”. Inquirida insistentemente pelo amante, Cecília confessou sua tara: o êxtase
sexual só era alcançado se arrancasse e bebesse o sangue do corpo do companheiro.
Feita a confissão, a mulher que os amigos apelidaram de Dona Dolorosa passou a apre-
sentar um “monstruoso appetite genesico” e também inusitado apego religioso, já que
até o sangue divino, estilizado no santo crucifixo, estimulava o prazer da ‘desregrada’.
Atormentado pela conduta da amásia, Julião recorreu aos alfarrábios que lhe
restaram do curso de medicina para, em um momento de desespero, lançar suas suspei-
tas sobre a companheira: “Tenho nojo de ti. (...) Tens então lama nas veias, em vez de
sangue! ... És um monstro... com certeza filha de monstros...”.


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Ato contínuo, o ‘macho inútil’ completou a sua insultuosa análise:“cobrindo de
defeitos à mãe della, a todos os seus antepassados cheios de mazellas no sangue e nos
nervos, talvez syphliticos, com certeza alcoolicos, quem sabe se não tysicos! Que
familia torpe! E elle que se deitara com um trapo daquella dymnastia!”
A trama se desenrola fazendo do jornalista um detetive que, no final das investiga-
ções, descobriu uma série de fatos sobre o pretérito de Dona Dolorosa, coerente com as
suas desconfianças: a mãe de Cecília era uma decadente e tuberculosa prostituta do
Mangue, que vendia o corpo para sustentar o marido beberrão. Cecília havia sido gerada
em um momento de embriaguez do casal, às vistas dos freqüentadores da casa de meretrí-
cio, nascendo menina fraca, marcada ela também pelo comprometimento pulmonar.
A aberração do comportamento da tísica Cecília foi apresentada como fruto
natural da herança biológica familiar e da condição infectada. Para uma personagem
assim tão carregada de estigmas, não restavam outras possibilidades senão o manicô-
mio ou o necrotério. Théo-Filho optou pela segunda alternativa, fazendo a ‘impudica
Dona Dolorosa’ suicidar-se, não sem antes uma vez mais entregar-se à ‘maldição de
Onan’, com os olhos voltados para as chagas do filho crucificado de Deus, lembrando
o desfecho que a francesa Jane de La Vaudère dera ao seu livro intitulado Os Androgynos.
A morte ou o hospício. Estes eram os caminhos que a literatura escolhera para
os personagens fimatosos, selando a impossibilidade dos tuberculosos permanecerem
no convívio com os sadios. Algumas vezes os escritores cruzavam as opções, como fez
Pedro de Castro Canto e Mello, escritor que alcançou relativo sucesso com textos
moralistas, tornando-se literatura recomendada para os alunos adolescentes dos inter-
natos religiosos.
Em Almas em Delirio, editado em 1912, Canto e Mello incorporou a teoria médica
segundo a qual a doença de Koch e a loucura eram patologias associadas, compondo
o que ele próprio classificou como sendo um ‘estudo psicológico’. Advogado de pro-
fissão, o escritor justificou o embasamento clínico de sua obra pelo fato de ter encontra-
do incentivo e orientação junto ao Dr. Franco da Rocha, diretor do então denominado
Hospício dos Alienados do Juqueri, a quem o autor dedicou o livro.


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