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A
S
 R
AÍZES
 
DA
 P
RÁTICA
 E
DUCATIVA
 
EM
 S
AÚDE
A partir de meados do século XIX, a medicina européia intensificou a busca de
apoios nas técnicas pedagógicas, visando, com isso, a traçar estratégias de convenci-
mento individual e coletivo sobre a urgência de reorganização da vida no contexto da
cidade industrializada. A necessidade de construção de um ‘ser’ coerente com a
modernidade e ao mesmo tempo avesso aos quistos de devassidão instalados nas
cidades ensejou o florescimento do discurso educador em saúde. Assim, ganhou ex-
pressão uma multiplicidade de mensagens que, no mesmo compasso que bendizia a
metrópole industrial, também confidenciava a nostalgia frente ao esmaecimento dos
amparos comunitários e do zeloso moralismo garantidos pela tradição.
Como prática discursiva centrada na problemática dos grandes centros urba-
nos, o ensinamento higienista buscou impor, valorativamente, os conselhos que outro-
ra eram ministrados pelos pais, padres e professores. Em nome da ‘verdade científica’,
a medicina reclamava o direito de comando exclusivo das ações que tinham como


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objetivo estabelecer e divulgar as regras sanitárias que deveriam reger o comportamen-
to individual e garantir o bom funcionamento da existência coletiva.
O manual que ensinava a cuidar da saúde assinado pelo médico Paul Good
(1923) talvez seja o melhor exemplo deste posicionamento que falava dos ‘novos tem-
pos’ com os olhos temerosos e melancólicos de um mundo que se transformava rapida-
mente. Traduzido em quinze idiomas, o texto do Dr. Good pretendia chamar a atenção
dos jovens proletários para o perigo das enfermidades que poluíam as áreas urbanas,
ensinando-lhes que as disposições higienistas eram produtos genuinamente deriva-
dos das leis morais.
A identificação da saúde do corpo com a correção do espírito colocava em foco a
opção individual de encaminhamento da vida, abrindo oportunidade para a conclusão de
que somente aqueles que cediam ao ócio, aos vícios e às tentações sensuais é que se
tornavam fáceis presas do conjunto de patologias que sangrava o terreno metropolitano.
O fato da tuberculose ser considerada ‘doença social’ – e, portanto, limitada
pelo regramento moral – determinou que a ampla disseminação da Peste Branca fosse
tomada como argumento incentivador dos primeiros movimentos de educação em saú-
de. Como resultado, tanto nos Estados Unidos quanto na França, a ameaça tísica sus-
citou a criação de departamentos especializados na então chamada ‘educação sanitá-
ria’, a partir do ano que marcou o encerramento da Primeira Guerra Mundial.
No Brasil, o acompanhamento das tendências internacionais na reorganização
dos serviços de Higiene Pública ocorrida após o advento da República estabeleceu como
obrigação exclusiva do diretor do Instituto Sanitário Federal a tarefa orientadora da popu-
lação, limitando este compromisso às quadras definidas pelas crises epidêmicas.
Foi somente no ano de 1921, por meio de uma nova reforma do setor saúde, que
o país passou a contar com um órgão denominado Serviço de Educação e Propaganda
Sanitária, encarregado de elaborar material didático destinado a instruir os cidadãos
sobre os meios de evitar as pequenas e as grandes patologias que assolavam as áreas
de concentração humana.
Consultas aos arquivos desta repartição demonstram que ela cumpriu acanha-
damente seus objetivos, pelo menos no transcorrer da primeira década de funciona-
mento. Isso porque o Serviço de Educação e Propaganda Sanitária restringiu-se qua-
se que exclusivamente a traduzir e editar as mensagens elaboradas no exterior, sem ao
menos tentar adaptá-las à problemática brasileira, repetindo os folhetos preparados
pela Comissão Rockefeller e pela Cruz Vermelha e distribuídos na Europa a partir do
ano de 1919.



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