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Referências Bibliográficas .................................................................... 237


7
Prefácio
M
AIS
 
QUE
 P
REFÁCIO

UM
 R
ECONHECIMENTO
Aristóteles dizia que o espanto é uma boa fonte de saber. O livro de Claudio
Bertolli Filho, neste sentido, garante essa afirmativa. Valendo-se de uma incrível vari-
edade de documentos, usando-os de maneira fluida e esperta, a construção do texto
retraça uma história complexa e provocante, rica em detalhes e integral nas explica-
ções. Pesquisa, paixão e tenacidade fazem deste texto um elogio à competência.
Sem dúvida, é uma história tecida sob as luzes da Antropologia ou talvez um
texto de Antropologia alimentado pela perspectiva histórica e que foi originalmente
defendido como tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Hoje desbastada dos
andaimes acadêmicos, o que era mais um teste profissional virou livro de interesse
amplíssimo. Como um repertório de referências abertas à Antropologia e à História,
além de comprometido com Sociologia, Estudos Biomédicos e Científicos, Cultura
Popular e de Massa e ainda com a Crítica Literária, este livro aponta para paradoxos
que não se encerram no simplista chavão ‘multidisciplinar’. A erudição na matéria
convocou saberes de outras especialidades para compor uma História/Antropologia atu-
alizada em termos de síntese e formulação de um objeto senão novo, pouco estudado.
A leitura fácil enreda níveis de entendimento que arrolam debates cruciais da
Historiografia contemporânea. O texto aborda os limites da ação do Estado e das Ciên-
cias Médicas na parte que lhes cabe na construção da doença e do doente, a fragilidade
das ‘instituições totais’, o acaso como acidente marginal às programações dos profissi-
onais da saúde. Fala também de crenças religiosas, de solidão e desencanto com as
instituições. Os fios coloridos desenrolados de linhagens múltiplas tecem um pano de
fundo que cobre a organização de classe, os dilemas políticos, a precariedade dos sis-
temas urbanos brasileiros e a importação de padrões estrangeiros contrastada com um
certo localismo resistente aos modelos de tratamento e cura.
Talvez a operação mais difícil cumprida pelo autor esteja no equilíbrio entre o
caráter universal da doença, bem como de sua repercussão global, e os limites do
tratamento do assunto em âmbito nacional brasileiro que, a todo custo, busca apre-
sentar-se como moderno, afinado com as propostas articuladas pela Medicina e pela
Administração Sanitária formuladas nos centros europeus e norte-americanos e, ao
mesmo tempo, empreender a difícil tarefa de conferir uma dimensão nacional a tudo
que se referia à tuberculose e ao tuberculoso. Não menos sofisticado e pertinente é o
cuidado em perpassar o progresso historiográfico calcado na superação da Nova


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História, da História das Mentalidades e mesmo a fragilidade da História da Vida
Privada. Renovando a noção de História Projeto, o autor avança para a História da
Vida Íntima e para a Antropologia de Geertz e assim estabelece os vínculos entre
pontas opostas do mesmo novelo: as estruturas do Estado e as pessoas, individual-
mente. O macro histórico contendo o mínimo, individual, ou o micro justificado na
estrutura macro funcionam como a realização da proposta de Deleuze em associar o
‘acorde/acordo’ pleno de satisfação no conjunto de relações infinitamente pequenas
que se integram na cadeia explicativa dos fatos, das pessoas e da sociedade. Explica-
ções da vida e da morte de uma legião de infectados, assim como das tentativas
médicas e políticas de se defrontar com um desafio que colocava em aberto uma
sociedade, uma cultura e todo um tempo.
A sedução do texto chega a ser perversa. Mesclando personagens da vida cotidi-
ana, populares anônimos ordinários, com figuras de destaque do mundo político, artístico
e científico, vemo-nos, todos familiarizados com nomes, datas, eventos, lugares. Não há
como negar o duplo movimento que se exerce durante a leitura deste livro. Caminhando
pela senda da lógica narrativa – inteligente, instruída e rápida – evocamos, naturalmente,
a memória e assim procedemos a um exercício de lembrança e rememorações que nos
joga dramaticamente para a cena dos acontecimentos. E perguntamos: afinal, de quem é
esta História? Da tuberculose, do Brasil, dos meus ou seus antepassados familiares?
É preciso dizer ainda que o tema poderia ser enquadrado no âmbito do que tem
se reconhecido como ‘História Social da Saúde’. Vale, no entanto, notar que a área
médica ou de estudos biomédicos tem proposto um procedimento especular para a
análise dos fenômenos sociais: a apropriação dos problemas de saúde como uma forma
de contemplar o sistema político em sua expressão maior.
Nesse sentido, como já o fez antes Claudio Bertolli Filho ao ver a gripe espa-
nhola, aponta para os fatores culturais que levam a uma naturalização de aspectos gené-
ricos e os efeitos sociais dessa reversão esculpem uma nova imagem dos possíveis
históricos. O mais notável é que nessa operação não se perde de vista o enquadramento
historiográfico e conjuntural do problema. Com a tuberculose, fenômeno tão planetá-
rio, o cuidado com o tema implicou na recuperação de seus registros de raiz, desde a
remota Antigüidade até as manifestações mais graves, endêmicas ou epidêmicas, e sua
instalação como ponto de conflito entre o político e corpo social contemporâneo.
A utilização dos Prontuários Médicos, em meio a um universo de outros docu-
mentos, indica o teor social dos registros que dimensionam tanto o sofrimento do paci-
ente como as mediações que desumanizavam o doente, no caso, o turberculoso no
Brasil. A conjugação das fontes documentais permitiu que o alinhavo do texto se desse
sobretudo pelo prisma cultural. Fala-se, portanto, de uma cultura que se desdobra em
nome da tuberculose, instigando profissionais da saúde – muitos deles reunindo a con-
dição de especialistas científicos e tuberculosos – , infectados e a sociedade em geral
repensar suas práticas e inserções no cotidiano sob o amedrontado prisma da Peste
Branca. No alinhavo entre o científico e o político, o público e o privado, o individual
e o coletivo, o autor confere um sentido inovador à trama cultural em sua dimensão
brasileira, desvelando um cenário consistente e esclarecedor da doença, dos doentes e
de todos os envolvidos na tragédia regida pela tuberculose.


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Por fim, é válido testemunhar uma vocação autêntica. Tendo conhecido o autor
como aluno, nos bancos de um curso de História, na graduação, vê-lo transformado em
autoridade é mais que uma emoção de professor. Como historiador, aquilatar o traba-
lho desse estudioso é reconhecer a delícia de ser aprendiz.
José Carlos Sebe Bom Meihy
Professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

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