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O problema da tuberculose é, antes de ser um problema médico, um problema
social. Querer resolve-lo por meio de instituições ou de organizações é procurar
desconhecer voluntariamente a verdadeira realidade. Essas instituições só po-
derão fazer ‘prophylaxia directa’, quando a questão é essencialmente de ‘profilaxia
indirecta’, isto é, de combate à miseria, à falta de conforto, à subalimentação, ao
trabalho excessivo. Não se póde, na lucta contra a tuberculose, esquecer, logo, o
aspecto fundamental da questão, numa cumplicidade flagrante com as causas
principaes do flagello. A unica lucta consequente seria, sem duvida alguma a
lucta pela elevação do nivel economico e cultural das populações brasileiras.
(1935:299)
Entre a velha “prophylaxia directa” e a nova “profilaxia indirecta” existia um
abismo desafiador dos cômodos esquemas explicadores da problemática sanitária naci-
onal. Os temores de uma medicina sempre cautelosa em assumir a ‘causação’ social e
coletiva das enfermidades somavam-se aos dispositivos repressores que vigiam no
período getulista, impondo que nenhuma resposta fosse endereçada ao libelo assinado
pelo Dr. Souza Lopes. Perpetuava-se, assim, a definição epidemiológica da Peste Bran-
ca como ‘moléstia social’pelo fato desta patologia estar disseminada amplamente na
trama coletiva, nada mais do que isso.
Sintomaticamente, desde a veiculação das idéias do clínico de Campos do Jordão,
a série dirigida por Clemente Ferreira não mais se reportou ao inquérito, como se jamais
ele tivesse existido. Como muitas outras tentativas corporativas dos anos 30, a propos-
ta de elaboração de um projeto sanitário paralelo ao assumido pelo Estado esvaiu-se em
um silêncio intimidado, legando aos médicos escritores como Amando Fontes e
Ranulpho Prata a tarefa de apresentar a tísica, por meio da ficção, como mortal resultado
das desigualdades sociais que marcavam a sociedade brasileira.
O compromisso grupal que regia os primeiros momentos da publicação espe-
cializada teve seus rumos corrigidos quando a Revista Paulista de Tisiologia con-
venceu-se de que o Estado getulista não se afinava com os pronunciamentos de
crítica à postura governamental. Mesmo que se mantivesse acesa a explicação que
situava a fimatose como flagelo que ‘aniquilava a raça’, ‘devastava a população’ e,
em continuidade, ‘desfalcava o capital humano e empobrecia o país’, as declarações
médicas fugiram das especulações que apontavam a moléstia pulmonar como produ-
to dos desregulamentos da sociedade, fazendo predominar os estudos centrados na
organização das campanhas contra a tuberculose, nas técnicas terapêuticas e nos
assuntos corporativos.
Em decorrência, um dos novos temas utilizados na tentativa de mobilização da
categoria tinha base nos ecos provenientes do estrangeiro. Da França chegavam notí-
cias que asseveravam a desnecessidade do asilamento sanatorial no tratamento dos
pacientes consuntivos.


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Contra tal proposta insurgiram-se os clínicos que atuavam nos sanatórios
paulistas, especialmente o Dr. Manuel Corvello Junior que, na condição de tisiologista
assistente de duas casas de saúde de renome, considerou a idéia absurda. Espelhando
o posicionamento que não era aceito por todos os seus pares, este clínico desqualificou
a possível eficiência do tratamento domiciliar dos infectados, alegando que os detratores
do regime de isolamento hospitalar eram pessoas “má intencionadas” (Corvello Junior,
1936:96) que, indo contra os ensinamentos dos “grandes mestres”, ocultavam interes-
ses escusos que o médico não soube esclarecer quais eram.
As dificuldades encontradas para consolidar os vínculos comunais exigiam que,
periodicamente, fossem lembrados os riscos de infecção inerentes à prática tisiológica.
É digno de nota o empenho do Dr. Xavier do Prado para sensibilizar os ‘bons corações’
em prol da construção de um sanatório exclusivo para o tratamento dos facultativos
contaminados. A urgência de socorro aos ‘companheiros consuntivos’ foi explicada
por meio de palavras tão francas quanto dolorosas: “seja elle medico ou não, o
tuberculoso é sempre despresado, para muitos até um indesejavel” (Prado, 1936:154).
Até mesmo a campanha liderada pelo Dr. Xavier acabou submergindo no
desencontro de idéias entre os membros da corporação. Instalado o debate, a comuni-
dade clínica dividiu-se sobre o local apropriado para a instalação da casa de saúde dos
facultativos, uns apoiando a construção do sanatório nas montanhas jordanenses,
enquanto outros preferiam a periferia paulistana. Como em outros momentos, o conflito
resultou em seguidos desentendimentos que acabaram tornando impraticável a pro-
posta assistencial.
Neste emaranhado de confrontos, foram raras as questões que garantiram uma
certa harmonia entre os tisiólogos. A primeira delas constituiu-se no interesse grupal
para exponenciar a lucratividade da profissão de médico dos tuberculosos. Em um país
onde havia escassez de leitos mesmo para os infectados que contavam com recursos
econômicos, tornou-se freqüente os movimentos que visavam à organização de empre-
sas que, compostas exclusivamente por facultativos, tinham como objetivo a constru-
ção e o funcionamento de sanatórios particulares.
No ano de 1941, por exemplo, ganhou destaque na imprensa médica a movimen-
tação em torno da venda dos últimos lotes de ações do Hospital Santo Antônio S.A.,
um sofisticado nosocômio para tísicos que estava sendo construído na zona norte do
município de São Paulo, em terreno próximo ao do Sanatório do Mandaquí. Anunciado
nas páginas da Revista da especialidade como um “excepcional negócio”, os compra-
dores das ações teriam obrigatoriamente de apresentar o diploma de graduação em
medicina, exigência que alinhou como sócios mais de uma centena de clínicos, encabe-
çados por quatro professores titulares da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo: Celestino Bourroul, Eduardo Monteiro, Rubião Meira e Raphael Penteado
de Barros. No final do documento, os dirigentes do negócio anunciaram aos seus pares
acadêmicos a alta lucratividade da empresa exploradora da tuberculose: “Por ser um
negócio rigorosamente de médicos, deve merecer o seu apoio. Apresenta-se como
ótima oportunidade para nele o Snr. inverter, muito vantajosamente, algumas economi-
as, cuja multiplicação ser insofismável”.


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Outro assunto que favorece uma comunhão entre os médicos adestrados na
doença pulmonar configurou-se na apologia grupal do processo de roentgenfotografia,
aperfeiçoado no ano de 1936 pelo clínico carioca Manoel de Abreu e que foi imediata-
mente rebatizado pelos especialistas com o nome de ‘abreugrafia’. Consistindo em
recurso mais rápido, econômico e eficiente para, por meio do Raio X, revelar as lesões
tuberculosas ainda nos estágios iniciais, a “fotografia do écran fluorescente” foi assu-
mida como contribuição genuinamente nacional para o controle da Peste Branca, sendo
objeto de louvor por toda a medicina brasileira.
Quebrando a regra desmerecedora do que era produzido pelos tisiologistas
cariocas, os médicos de São Paulo mostraram-se sensíveis à campanha liderada pelo
próprio Manoel de Abreu, que propunha a realização de um recenseamento torácico em
escala nacional. Em nome da proteção da saúde coletiva, o cientista requereu ao presi-
dente Vargas a aprovação de leis que obrigassem toda a população a se deixar examinar
dos pulmões, compromisso que permitiria a organização de um cadastro social onde o
Estado saberia quem e quantos eram os consuntivos residentes no país.
Amparado no sucesso de seu invento, coube também ao professor Abreu a
criação de um novo personagem disseminador do bacilo de Koch: o ‘aparentemente
sadio’. A partir de então, não eram só os tipos abatidos, descarnados e ‘promíscuos’
que chamavam a atenção dos sanitaristas, mas também os indivíduos gordos e que
apresentavam boa disposição física. Tanto uns quanto outros poderiam ocultar em
seus corpos o micróbio causador da corrupção pulmonar, sendo por isso conveniente
a averiguação do estado pulmonar de todos os cidadãos (Abreu, 1938:1943).
Imediatamente após a divulgação da proposta do inventor da abreugrafia, os
médicos paulistas somaram-se nos pedidos ao governo estadual para que os cofres
públicos financiassem a aquisição de várias unidades do ‘aparelho revolucionário’.
Segundo um dos requerentes, o novo engenho permitiria o diagnóstico precoce da
infecção, protegendo a sociedade de seus perigosos membros contaminados:



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