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A
S
 T
ENTATIVAS
 C
ONGREGADORAS
Desde os primeiros números da Revista, encontram-se artigos assinados pelo
grupo ferreiriano, cujo teor básico constitui-se nos reclamos contra a inoperância go-
vernamental em relação à Peste Branca e também nas denúncias sobre o isolamento do
alto escalão da administração sanitária estadual em relação à maioria dos médicos que
atuavam no setor.
Tornou-se corriqueira a publicação especializada divulgar textos como os subs-
critos por médicos que, embora ocupassem postos no Serviço Sanitário paulista, faziam
do periódico um canal de comunicação com os seus superiores da administração públi-
ca, oferecendo sugestões e reparos às ações que o Estado vinha realizando – ou dei-
xando de realizar – na assistência aos tuberculosos. E isso tudo como se os articulistas
fossem pessoas estranhas ao setor higienista oficial.
Paralelamente à publicação das declarações críticas assinadas pelos facultati-
vos, a tentativa mais significativa da Revista para congregar os tisiologistas de São
Paulo constituiu-se na realização, no decorrer do primeiro semestre de 1935, de um


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amplo inquérito que deveria servir de base para a elaboração de uma proposta paulista
a um possível plano federal contra a tuberculose.
Questionário destinado a ser respondido por todos os especialistas na Peste
Branca que atuavam no estado, de tudo perguntava-se aos clínicos, desde a origem dos
recursos que subsidiariam o plano, até a localização geográfica ideal dos sanatórios a
serem construídos, o critério de triagem dos fimatosos encaminhados para internamento,
os hospitais que deveriam se encarregar das tarefas tisiocirúrgicas e os canais de
treinamento especializado dos profissionais da saúde.
O primeiro médico a responder ao questionário foi Raphael de Paula Souza, que
entre outras funções ocupava o cargo docente no Instituto de Higiene da Universidade
de São Paulo. Segundo este clínico, todas as campanhas contra a enfermidade de Koch
deveriam ser patrocinadas pelos cofres públicos, mas o gerenciamento das ações sani-
tárias ficaria obrigatoriamente a cargo de médicos não comprometidos com os grupos
que se engalfinhavam na arena política. Mais ainda: o Dr. Paula Souza declarou que, no
contexto regional, inexistia uma entidade formalmente direcionada para aprimorar o
conhecimento sobre os mecanismos da fimatose, situação que delegava aos sanatórios
a tarefa de formação e atualização do agrupamento tisiológico.
Na seqüência, inúmeros facultativos atenderam ao inquérito, e algumas das
respostas foram reproduzidas nas páginas do periódico dirigido por Clemente Ferreira.
O empenho da Revista em expor o descontentamento dos médicos em relação ao Esta-
do varguista frutificou, mas também permitiu que clareassem os antagonismos doutri-
nários e os interesses institucionais divergentes que impregnavam os debates sobre a
Peste Branca.
Assim, tem-se como exemplo as sucessivas discussões em torno da prática de
cirurgias torácicas. Para alguns médicos, não só os sanatórios instalados nas estações
de cura de Campos do Jordão e de São José dos Campos – áreas que foram definidas
administrativamente como ‘prefeituras sanitárias’ –, como também os Postos de Higie-
ne espalhados pelo estado estavam plenamente capacitados para proceder às interven-
ções cirúrgicas mais simples.
Lançado o argumento, vários integrantes da equipe médica que atuava no Hos-
pital São Luiz Gonzaga postaram-se energicamente contra a proposta, alegando que a
precariedade das enfermarias sanatoriais e o despreparo dos profissionais alocados na
maior parte dos Postos de Saúde desaconselhavam que as operações fossem realizadas
em outro ambiente que não o próprio Sanatório do Jaçanã.
A tentativa de articulação de um projeto paulista único e de autoria dos especi-
alistas na Peste Branca mostrava-se cada vez mais difícil. Para além dos interesses
institucionais, outros clínicos aproveitaram a oportunidade aberta pelo inquérito para
expor idéias que, pelo momento político, certamente suscitavam constrangimento e
receio entre o agrupamento médico de São Paulo.
Nesta direção, o Dr. Ivan de Souza Lopes, clínico de Campos do Jordão, respon-
deu ao questionário de maneira incisiva e única, criticando tanto os políticos que inter-
feriam no planejamento sanitário quanto os docentes da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo que, segundo este tisiologista, ofereciam um ensino de
péssima qualidade aos seus alunos. O que mais importunou os leitores da Revista,


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porém, foi a manifestação desqualificadora do saber médico como o principal instru-
mento para conter a disseminação do Grande Mal. Lembrando as críticas anarquistas
elaboradas nas décadas anteriores, foi com estas palavras de alerta que o Dr. Souza
Lopes definiu as condicionantes básicas do alastramento da tísica no corpo coletivo:


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