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Optamos por manter a grafia original dos textos e documentos citados.


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As (In)Certezas da Medicina
O enquadramento institucional das questões suscitadas pelo Grande Mal
afetou diretamente a comunidade médica nacional que, ao mesmo tempo em que
buscava expandir o leque de privilégios que lhe era concedido por Vargas, também
compunha forças para garantir relativa autonomia em relação às contínuas interven-
ções dos setores oficiais.
A década de 30, neste sentido, contextualizou o nascimento e a consolidação de
várias entidades representativas dos profissionais da saúde, destacando-se a carioca
Federação Brasileira de Tuberculose e, em São Paulo, o início de funcionamento da
Associação Paulista de Medicina e da Associação Paulista de Homeopatia, além de
outras congregações de clínicos que, atuando em nível regional, expressavam as diver-
sas especialidades hipocráticas.
Os tisiologistas que praticavam no terreno bandeirante mantiveram-se avessos
à organização de um órgão representativo próprio, cedendo à proposta agremiativa
somente em novembro de 1949, quando foi criada a Sociedade Paulista de Tisiologia. O
prestígio acumulado por esses especialistas, entretanto, ensejou que desde o início da
década de 30 fosse reconhecida a existência de uma comunidade que foi usualmente
definida como ‘escola paulista de tisiologia’, considerada por vários pesquisadores
como a mais eficiente equipe de clínicos e cirurgiões voltada para as tarefas de preven-
ção e de tratamento da tuberculose, em todo o país.
Apesar de a maioria das unidades sanatoriais do estado localizarem-se nos
municípios de Campos do Jordão e São José dos Campos, era na cidade de São Paulo
que se situavam os dois principais núcleos paulistas de ensino, pesquisa e tratamento
cirúrgico dos consuntivos, sendo o Instituto Clemente Ferreira e o Hospital-Sanatório
São Luiz Gonzaga os postos fomentadores das mais importantes ações estaduais con-
tra a Peste Branca.
Se as atividades do Instituto fundado pelo Dr. Ferreira encontravam-se em fran-
ca decadência desde o instante em que a entidade fora estatizada, o mesmo não se pode
falar do Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga que, desempenhando as funções de
sanatório de isolamento e de nosocômio especializado no tratamento dos pectários,
concretizou-se como instituto pioneiro no contexto médico nacional. Inaugurado nos
primeiros dias da chamada ‘Revolução de 32’ e mantido pela Irmandade de Misericórdia
da Santa Casa de São Paulo, o Hospital do Jaçanã – como ficou também conhecida esta


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casa de saúde – localizava-se no limite norte do município, ocupando as antigas insta-
lações do Leprosário do Guapira.
A condição de este sanatório estar filiado administrativamente à Santa Casa e
também atuar como campo de ensino permitiu que o hospital especializado contasse
com um quadro clínico altamente qualificado, atraindo médicos de todo o país, unidos
pelo interesse de treinamento na área tisiológica. Como um dos principais centros de
referência nacional para o tratamento da Peste Branca, o Sanatório do Jaçanã formou
uma elite de especialistas que iria ocupar posições dirigentes não só nas casas de saúde
voltadas para o atendimento dos fimatosos, mas também nos novos postos de tratamento
dos pectários que foram instalados em São Paulo, inclusive no Hospital-Sanatório do
Mandaquí e no setor de doenças pulmonares da Escola Paulista de Medicina.
Nesse contexto, foi-se firmando o espírito corporativo que colocou em contato
os tisiologistas do estado de São Paulo e de todo o Brasil. A consolidação do ensino
médico sobre a tuberculose em São Paulo e no Rio de Janeiro permitiu que se tornasse
regra a cobrança do diploma de especialista a todo clínico que se propusesse a assistir
doentes do peito. Caso tal documento não fosse apresentado, o facultativo ‘infrator’
era denunciado como intruso que, no mais das vezes, relegava a segundo plano o
compromisso de assistência aos infectados pelo bacilo de Koch, em favor dos ganhos
pecuniários resultantes do atendimento aos pacientes consuntivos.
A determinação exclusivista passou a alimentar os discursos da corporação dos
tisiólogos. As acusações movidas contra os clínicos gerais, especialmente os atuantes
nos ambientes interioranos, tornaram-se corriqueiras, havendo denúncias que tais
esculápios omitiam o estado contaminado de seus pacientes endinheirados para assim
lucrarem com o alongamento da série de consultas realizadas pelo enfermo.
Na seqüência, os especialistas foram a público por meio de artigos estampados
na Revista Paulista de Tisiologia e na Revista Brasileira de Tuberculose para alertar a
sociedade sobre a precariedade dos conhecimentos de seus colegas não iniciados nos
segredos da tísica, apresentando-os como tão despreparados para o diagnóstico e
tratamento da doença pulmonar que muitos deles nem mesmo sabiam distinguir um
aparelho de Raio X de outros instrumentos utilizados pela medicina.


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