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A A
DMINISTRAÇÃO
 T
ISIO
-
SANITÁRIA
 
EM
 S
ÃO
 P
AULO
Os sucessivos interventores indicados por Vargas para comandar a administra-
ção pública paulista, espelhando o direcionamento federal, assumiram a tutela da soci-
edade, fazendo a apologia de que o Estado constituía-se na única instância com legiti-
midade e capacidade suficientes para garantir a concretização dos interesses coletivos.
A influência federal no território bandeirante assentou-se na produção de uma
copiosa legislação que pretendia garantir o controle das decisões tomadas nas múlti-
plas esferas da burocracia regional. A área da Higiene Pública foi, de imediato, um dos
setores mais visados pela administração ‘revolucionária’, sobretudo porque a reforma
sanitária realizada em 1925 conferiu autonomia ao sistema regional de saúde, instituin-
do os Centros de Saúde e os localizando como ‘eixo central’ do movimento preventivista
e de tratamento dos enfermos no estado de São Paulo.
Um dos resultados da orientação assumida pelas autoridades paulistas impos-
tas por Getúlio Vargas constituiu-se numa série de reformas que atingiram o Serviço
Sanitário entre os anos de 1930 e 1931. Em conseqüência, o esquema higienista entrou
em colapso, isolando o Instituto Butantan do organograma da Saúde Pública e, mais do
que isto, reduzindo as atividades dos Centros de Saúde, que se transformaram em
dispensários subordinados à Inspetoria de Higiene e Assistência à Infância.
A decisão oficial de ampliar o corpo de funcionários estaduais da saúde, sem
contudo haver um planejamento adequado, frutificou em um verdadeiro caos, favore-
cendo a duplicidade de tarefas, a elevação dos custos dos serviços e, pior do que tudo
isto, anulando as ações preventivistas em favor da medicina curativa.
A reorganização do aparelhamento sanitário bandeirante implicou inclusive na
constituição de novos setores médicos e administrativos que deveriam responsabili-
zar-se, direta ou indiretamente, pela assistência aos fimatosos. Assim, ainda em feverei-
ro de 1931, foi criada a Seção de Profilaxia da Tuberculose, a qual deveria prestar
atendimento dispensarial aos tísicos, realizando a tarefa que, antes do ‘Golpe de 30’,
estava programada para ser implementada pelos Centros de Saúde.


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Mais ainda, a carência de pessoal especializado nos serviços exigidos pela tísica
levou a Secretaria de Educação e Saúde Pública – criada no âmbito das reformas – a
tornar oficiais os cursos oferecidos pelo Instituto de Higiene que tinham como meta
a qualificação de técnicos de laboratório e de radiografia. No ano de 1932, o mesmo
Instituto foi autorizado a instalar em suas dependências um gabinete de radiologia,
abrindo oportunidade para que o paulistano obtivesse gratuitamente a Carteira de
Saúde, documento instituído como elemento imprescindível para a colocação no merca-
do formal de trabalho, segundo uma lei sancionada no mês de abril daquele mesmo ano.
A proposta centralizadora da administração varguista resultou também na desa-
propriação do dispensário da Liga Paulista Contra a Tuberculose, mediante um proces-
so legal que tramitou por três anos, encerrando-se a favor do Estado apenas em setem-
bro de 1934. Acredita-se que este fato constituiu-se em mais um episódio da longa série
de confrontos entre o médico Clemente Ferreira e as autoridades estaduais e federais.
Toleradas com certa benevolência no período anterior ao golpe de Vargas, as
palavras ferreirianas sobre a ausência governamental no combate à Peste Branca foram
entendidas como peças subversivas pelos interventores federais, desaguando no con-
fisco do dispensário especializado e no afastamento do Dr. Ferreira do cargo de funcioná-
rio do Serviço Sanitário. Iniciou-se assim o declínio da influência e a marginalização do
diretor da Liga Paulista Contra a Tuberculose, entidade que perdeu poder no mesmo
passo que seu idealizador.
As tentativas reconciliatórias da administração pública com o diretor da Liga
Paulista somente ocorreram alguns anos depois, quando o governador Armando de
Salles Oliveira buscou homenagear o clínico, rebatizando o dispensário encampado
com o nome de seu fundador, aproveitando a solenidade para indicar para a direção do
órgão o médico Antonio Tisi Neto, amigo e principal discípulo do Dr. Ferreira. Na
mesma oportunidade, o Serviço Sanitário alardeou que o centro de atendimento dos
fimatosos seria transformado em um instituto de pesquisa da Peste Branca, função que,
aliás, já vinha sendo desenvolvida pelo dispensário desde o início de suas atividades.
O alijamento do tisiologista Clemente Ferreira do comando das ações anti-tuber-
culose inscreveu-se no contexto centralizador, policialesco e pouco tolerante às críticas
que ganhou dimensões maiores a partir da guerra paulista de 1932. Apesar disso, são
constantes as vozes que tentam buscar outras explicações para a apropriação oficial do
até então único dispensário filantrópico do estado de São Paulo.
Segundo esta vertente de entendimento, o confisco governamental deve ser
creditado aos elevados custos exigidos pela assistência aos consuntivos, sendo o
Estado a instância melhor capacitada para dispor de recursos de alta monta. Em coerên-
cia com este enunciado, tem-se apregoado que o Dr. Ferreira foi poupado – e não
punido – pela administração pública que, solidária com as múltiplas atividades desem-
penhadas por este especialista, buscou liberá-lo da árdua tarefa de angariar os fundos
necessários para o funcionamento do dispensário.
Excluído das discussões oficiais, mesmo assim Clemente Ferreira continuou a
cobrar do Estado participação efetiva nas campanhas centradas na infecção pulmonar.
No ano de 1935, durante uma solenidade em que compareceram inúmeras autoridades
da administração pública, assim se pronunciou o tisiologista:

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