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Contra a Tisica – publicada irregularmente entre 1902 e 1914 e dirigida por Clemente
Ferreira – foram preenchidas com a reprodução de memorandos expedidos pela Liga
Paulista e encaminhados ao presidente do estado e aos responsáveis pelos hospitais


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paulistas, exigindo a instalação de sanatórios, a criação de pavilhões exclusivos para os
pacientes fimatosos nas Santas Casas e a organização de serviços de desinfecção das
residências onde existiam tuberculosos.
Paralelamente a isto, a Liga Paulista manteve um contínuo trabalho de divulga-
ção dos princípios higiênicos que afastavam o perigo do contágio tísico. O Dr. Ferreira
fez publicar dezenas de panfletos educativos e cartazes que visavam a orientar a popu-
lação sobre a infecção, reservando para a elite intelectual contínuas palestras e confe-
rências, nas quais eram discutidos os princípios clínicos e terapêuticos que orientavam
a tisiologia européia.
Neste contexto, é fácil perceber que a seleção dos palestristas e dos temas
abordados era uma tarefa exclusiva do diretor da instituição. A análise das palestras
publicadas na Defesa Contra a Tisica deixa claro que alguns tópicos foram praticamen-
te abolidos das discussões, tais como as pálidas medidas oficiais contra a enfermidade
e também o papel desempenhado pela miséria econômica, pela prostituição e pelo alco-
olismo na disseminação da tuberculose.
Até mesmo os recursos terapêuticos empregados pela medicina só ganhavam
foro de discussão mediante a aprovação de Clemente Ferreira. No transcorrer da primei-
ra década do século XX, o tisiologista era acirrado defensor das propriedades curativas
e preventivas da Tuberculina de Koch, não sendo por acaso que muitas das reuniões
públicas promovidas pela Liga Paulista versaram sobre o tema. Como exemplo, tem-se a
série de palestras proferidas pelo clínico carioca Oliveira Botelho (1910), as quais foram
amplamente divulgadas pela associação ferreiriana, inclusive porque reproduziam fiel-
mente as idéias esposadas pelo presidente da instituição.
Mesmo contando com as idiossincrasias de seu diretor e com o prosseguimento
dos choques entre este e a administração sanitária estadual, a Liga Paulista Contra a
Tuberculose conseguiu inaugurar e manter um conjunto de dispositivos que se trans-
formaram em órgãos modelares da luta brasileira contra a tísica.
Na seqüência de suas atividades, a Liga instalou, em 1904, o primeiro dispensário
destinado ao atendimento dos fimatosos pobres, no contexto nacional. Pouco depois,
foi criada a Obra de Preservação dos Filhos dos Tuberculosos Pobres, movimento
apoiado pelas damas da sociedade paulista e que tinha como objetivo patrocinar a
construção de um albergue para os filhos dos infectados, resultando no estabelecimen-
to de um preventório infantil na cidade de Bragança Paulista. Na década de 20, coube
ainda à Liga a construção e manutenção do Sanatório São Luiz que, localizado no
município de Piracicaba, funcionou por apenas um lustro, sendo desativado, em 1931,
devido à insuficiência de verbas.
Na sucessão das tarefas, a associação ferreiriana fez de tudo um pouco: educa-
ção sanitária, vigilância dos ‘grupos de risco’, testes com as drogas anunciadas como
curativa dos pulmões, formação de tisiologistas, cirurgias torácicas, assistência clínica
e amparo social. Neste contexto, nem sempre a sociedade paulistana percebeu com
bons olhos as atividades desenvolvidas pela Liga, especialmente no que se referia ao
funcionamento do ambulatório para tuberculosos em um prédio alugado e localizado na
rua Líbero Badaró, no coração da Paulicéia.


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Movido pelos protestos dos ocupantes sadios do edifício que abrigava o posto
de atendimento aos fimatosos, Clemente Ferreira conseguiu doações suficientes para
construir um prédio próprio para acomodar todas as atividades desempenhadas pela
Liga, em um terreno localizado na parcela inicial da rua da Consolação. Imediatamente,
os moradores da área, motivados pela tisiofobia reinante, organizaram um movimento
contrário à transferência da unidade de tratamento dos tuberculosos para as proximida-
des da Vila Buarque e da Santa Cecília, situação que exigiu a interferência de várias
comissões que passaram atestados nos quais declaravam que o dispensário não repre-
sentava perigo contagioso para os moradores daquela parte da cidade.
Mas, tudo o que vinha sendo feito em favor dos pectários ainda era pouco para
conter o avanço da Peste Branca no estado de São Paulo. Apesar dos esforços coordena-
dos pela Liga e ainda a entrada em funcionamento do Sanatório Vicentina Aranha – inau-
gurado em 1924, em São José dos Campos –, no encerramento da década de 20, a tubercu-
lose estava amplamente disseminada na região, especialmente na cidade de São Paulo.
Na capital bandeirante, onde a notificação clínica dos óbitos era muito mais
freqüente que no resto do estado, os índices de morte pela consunção apresentavam-
se altos e estáveis, sendo que no primeiro ano do século passado a taxa de mortalidade
pela tísica era de 86,7 por 100 mil habitantes, enquanto em 1929, o mesmo índice assina-
lava 79,6 (Mascarenhas, 1953).
Neste último momento, Clemente Ferreira denunciou as dificuldades de sobrevi-
vência da Liga Paulista, informando que a elite local pouco contribuía com donativos
para a luta contra a moléstia consuntiva. Na ausência da generosidade dos ‘ricos’, o
clínico disse ter encontrado apoio junto aos ‘mais humildes’, os quais patrocinavam as
atividades da Liga mediante a aquisição dos ‘selos sanitários’, instituídos no Brasil
pelo próprio Dr. Ferreira, no início da década de 20, pouco tempo depois de terem
aparecido na Europa.
Confessando que era “transparente a pouca sympathia que desperta a cruzada
contra o inimigo mais temeroso da raça humana”, o tisiologista levantou sua voz segui-
damente  para acusar a negligencia governamental frente à moléstia que corrói os
pulmões. No Relatório da Liga Paulista contra a Tuberculose, Ferreira (1931:3) assim
expôs a questão que tanto o torturava:
Por seu turno a acção official tem sido até aqui por demais apagada, para não
dizer nulla, e entretanto indispensavel se faz uma campanha de tão grande porte,
no manejo de um problema de tanta complexidade e polymorphismo, a assistên-
cia financeira efficaz do Poder Publico, pois, como já affirmou Calmette, a solu-
ção do problema da tuberculose é uma questão de dinheiro.


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