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A P
ROPOSTA
 A
SSISTENCIAL
 P
AULISTA
Coube ao estado de São Paulo a função inauguradora do movimento social de
combate à tuberculose. A condição de área mais rica do país somou-se ao fato da terra
bandeirante conviver com a moléstia do peito desde o início da ocupação da capitania,
quando a ‘peste de priorizes’ tornou-se doença comum nos redutos indígenas, manten-
do-se como algoz constante da gente paulista.
O incremento da imigração européia para a ‘terra do café’ deu nova dimensão à
ameaça tísica. Por isso, no ano de 1887, o inspetor-geral da Higiene da Província chamou a
atenção para o número de doentes pulmonares que existiam em São Paulo, informando que
estes procuravam a terra bandeirante pela fama terapêutica dos ares locais (Arruda, 1936).


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A tuberculose se apoderava a passos largos da ‘metrópole do café’, fazendo
mais de quinhentos óbitos notificados no último qüinqüênio do século passado. Neste
contexto, o higienista Emílio Ribas – diretor do Serviço Sanitário estadual entre os anos
de 1898 e 1917 – mostrou-se sensível ao avanço da Peste Branca, convidando o clínico
carioca Clemente Ferreira para transferir-se para a cidade de São Paulo e aqui iniciar a
primeira campanha nacional contra a moléstia de Koch.
Os motivos que levaram o Dr. Ribas a escolher Clemente Ferreira para a tarefa em
questão deveu-se provavelmente ao interesse demonstrado pelo médico carioca
em combater a Peste Branca. O Dr. Ferreira havia se graduado em medicina no Rio de
Janeiro, apresentando, em 1882, uma tese sobre a ‘phthisica pulmonar’, mas pouco
depois mudou o rumo de sua especialização, dedicando-se à área que mais tarde ganha-
ria a denominação de pediatria.
Na seqüência, o médico recém-formado encontrou colocação como assistente
da clínica de moléstias infantis da Policlínica da antiga Corte, sendo que, ainda na
década de 80 do século XIX, o Dr. Ferreira assinou um ensaio que analisava as qualida-
des climatoterápicas de Campos do Jordão e as possibilidades de organização da luta
contra a moléstia pulmonar, fato que certamente despertou a atenção do diretor da
Higiene paulista.
O facultativo estabeleceu residência em São Paulo em 1896, ocupando a função
de ‘médico de crianças’ e, dois anos depois, o cargo de direção do consultório de
lactantes do Serviço Sanitário estadual. Paralelamente, o clínico carioca foi incumbido
de sensibilizar seus pares e os principais representantes da elite regional para a organi-
zação de um entidade filantrópica de combate à peste consuntiva.
Fruto dos esforços conjugados do funcionário e do diretor-geral da Saúde Pú-
blica, no mês de julho de 1899, surgiu a Associação Paulista de Sanatórios Populares
para Tuberculosos, a qual teve Clemente Ferreira como único presidente, desde a sua
fundação até 1945, quando o patrono dos tisiologistas de São Paulo, muito adoentado,
afastou-se da administração da entidade.
Os objetivos iniciais desta instituição seguiam de perto as propostas expressas
na carta de fundação da Verein für Volksheilstätten, sediada em Munique. Com isso, o
Dr. Ferreira buscou reproduzir no contexto nacional a experiência germânica, empe-
nhando os primeiros anos de vida da Associação no levantamento de recursos sufici-
entes para a construção de um sanatório popular em Campos do Jordão, de um
dispensário na cidade de São Paulo e ainda para a organização de um movimento
educativo e de prevenção ao contágio fimatoso.
Apesar dos esforços do Dr. Ferreira para que a entidade contra a tísica cum-
prisse seu programa de ação, em pouco tempo a luta contra a Peste Branca deixou de
ser novidade, fazendo com que as doações filantrópicas se tornassem cada vez mais
escassas. A disponibilidade de recursos extremamente limitados exigiu que, já no
primeiro ano do  século passado, a Associação corrigisse seus compromissos,
centrando seus trabalhos no estabelecimento de um dispensário especializado, o
qual deveria seguir a pluralidade de ações preconizada pelo médico e nobre escocês
Robert Philip, idealizador dos primeiros postos de atendimento à parcela do proletari-
ado atingida pelo bacilo consuntivo.


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Na série de alterações, a partir de 1903, a organização ferreiriana foi rebatizada
com a designação de Liga Paulista Contra a Tuberculose, a qual adotou os serviços
dispensariais como eixo central da assistência aos infectados. Apesar disso, a concep-
ção que estipulava o isolamento dos consuntivos em recintos sanatoriais manteve-se
como ideal máximo da instituição, permanecendo como matéria crítica no relacionamen-
to da Liga com a administração pública estadual.
Nesta seqüência das atividades, a Liga Paulista Contra a Tuberculose rompeu
relações com o Serviço Sanitário, colocando em campos opostos os diretores de ambos
os órgãos. Atraído para São Paulo para atuar junto à administração da Saúde Pública, o
Dr. Ferreira mostrou-se sempre reticente em reconhecer o apoio que o Dr. Ribas oferecia
à Liga, alijando o nome da instituição governamental dos relatórios, palestras e artigos
que publicava sobre os esforços regionais contra a disseminação da Peste Branca.
Apesar da pouca clareza dos motivos que alimentaram o conflito entre os dois
esculápios, suspeita-se que a continuidade de atritos deveu-se principalmente à pre-
tensão personalista do ‘médico de crianças’. Desde o surgimento da Associação, o
clínico levantou a bandeira da campanha que visava a construir um sanatório popular
em Campos do Jordão, o qual deveria ser financiado pelo governo estadual, mas ficar
subordinado ao movimento filantrópico e não ao Serviço Sanitário.
Emílio Ribas, por sua vez, opôs-se a essa proposta, designando dois de seus
mais fiéis assessores para a elaboração de um projeto relativo ao estabelecimento de
uma casa de saúde especializada no estado de São Paulo. O resultado foi a publicação,
no ano de 1899, de um extenso documento assinado pelos médicos Victor Godinho e
Guilherme Alvaro em cuja página de apresentação o Dr. Ribas advogava que o Brasil
deveria imitar o exemplo dos países em que o gerenciamento da luta contra a tuberculo-
se era encargo exclusivo da alta direção do Serviço Sanitário.
No relatório publicado pela Saúde Pública, informava-se que a tísica era
responsável por não menos que 7% dos óbitos notificados no estado de São Paulo,
taxa que tenderia a se ampliar caso nada fosse feito para limitar a disseminação da
doença pulmonar. Alegando que a infecção consuntiva era moléstia facilmente
curável, os Drs. Godinho e Alvaro acrescentaram que a administração estadual
deveria instalar em regime de urgência um nosocômio especializado em Campos do
Jordão, não só porque o clima das montanhas era indicado para o tratamento dos
fimatosos, mas também porque o local era de difícil acesso, protegendo os sadios
contra a contaminação bacilar.
Nas conclusões desse estudo, entretanto, os higienistas confessaram-se des-
crentes da necessária agilidade oficial em custear a construção e o funcionamento de
um sanatório na Serra da Mantiqueira. Por isso, depois de preencher quase uma cente-
na de páginas onde o hospital para tuberculosos constituía-se principal tema, os médi-
cos do Serviço Sanitário surpreenderam ao concluir que: “O phthisico póde curar-se em
sua casa, desde que a transforme em um pequeno Sanatorio, ou desde que faça e use
nella tudo o que teria de fazer e usar no Sanatorio”(1899:98).
A intromissão dos inspetores sanitários oficiais nos debates sobre a constru-
ção de uma casa de saúde para os tísicos paulistas parece que desagradou o Dr. Ferreira,
que insistia que a luta contra a tuberculose deveria ser comandada exclusivamente pela


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Liga que dirigia. Em conseqüência, o tisiologista respondeu à proposta oficial por meio
da composição de um outro relatório, datado do ano de 1900.
Nesse documento, parece que Clemente Ferreira tentou definir as áreas de influência
da Liga Paulista contra a Tuberculose e do Serviço Sanitário: apesar de reclamar a paternida-
de da idéia de instalação de um hospital em Campos do Jordão, o Dr. Ferreira abriu mão desta
iniciativa, atribuindo ao Estado a tarefa de erguimento e administração do nosocômio,
exigindo em troca a construção de uma estrada de ferro que ligasse a estação de cura das
montanhas com o Vale do Paraíba. A Liga, por sua vez, ficaria com o compromisso de
patrocinar os serviços dispensariais na cidade de São Paulo, assim como levar avante o
projeto de criação de um orfanato para os filhos dos consuntivos e também estudar a
possibilidade de estabelecimento de um sanatório nas cercanias da capital paulista.
Mesmo que cada palavra assinada pelo clínico deixasse a impressão que o
médico buscava se reconciliar com a Saúde Pública estadual, o Dr. Ferreira não se furtou
de criticar uma vez mais seus superiores do Serviço Sanitário, respondendo à proposta
oferecida, no ano anterior, pela instituição oficial:



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