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da Rua do Valongo, Debret retratou um grupo de negros abatidos, apáticos e macérrimos,
elementos que permitiram a um tisiologista reconhecer que tais personagens apresenta-
vam traços típicos de infecção pelo bacilo de Koch.
A continuidade dos estragos atribuídos à moléstia pulmonar passou a chamar a
atenção das autoridades públicas, especialmente após o estabelecimento da família real
portuguesa no Rio de Janeiro. A doença que tanto os leigos quanto os clínicos deno-
minavam de ‘fraqueza do peito’, ‘chaga nos bofes’ e ‘sangue pela boca’ aumentava o
número de seus tributários, exigindo respostas dos especialistas na saúde urbana.
O médico Francisco de Mello Franco (1829) foi um dos primeiros esculápios que
examinou a ‘febre héctica’ no contexto nacional, assinalando que o morbus anualmente
roubava um significativo número de vidas da população brasileira. Reproduzindo os
ensinamentos ministrados pela medicina européia do tempo, o Dr. Mello Franco
(1829:113) confundia a tuberculose com a febre resultante da infecção, concluindo que
o melhor tratamento disponível para o pectário baseava-se no quinino, no ópio e tam-
bém em sucessivas sangrias, pois o clínico acreditava que “no sangue possa existir a
principal causa excitante da febre”.
As dificuldades hipocráticas em limitar o avanço da tísica no terreno da Corte
fazia com que os doentes recorressem a uma multiplicidade de remédios, na tentativa de
recuperar a saúde. Além das sangrias que eram praticadas, inclusive pelos cirurgiões
negros que trabalhavam nas calçadas, os cariocas faziam uso de alguns elementos da


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flora nativa, como por exemplo, chás preparados com folhas de goiabeira, jataí e cipó-
chumbo, ingerindo também grandes quantidades de mocotó e de leite de cabra e de
jumenta, como reconstituintes pulmonares.
A procura pelas enfermarias hospitalares era evitada, não só devido ao medo
que os recintos nosocomiais inspiravam naquele período, mas sobretudo pela escassez
de leitos, fato que ditava a demora na obtenção de assistência médica. Quando a chance
aparecia, os fimatosos eram instalados em camas avizinhadas aos catres das vítimas de
outras patologias, favorecendo o mortal intercâmbio de moléstias que geralmente leva-
vam a óbito os hóspedes das casas de saúde. Por isso, em 1840, a Santa Casa do Rio de
Janeiro estabeleceu uma enfermaria exclusiva para o atendimento dos doentes do peito,
originando-se daí o interesse pela construção de um hospital relativamente afastado do
centro urbano e destinado a receber unicamente os pacientes tuberculosos.
Somente em 1886 foi que as autoridades sanitárias do Império buscaram seguir,
pelo menos parcialmente, o modelo preconizado na Europa, fazendo entrar em atividade o
primeiro nosocômio especializado na assistência aos tísicos, localizado no subúrbio de
Cascadura. A vida do hospital, porém, prolongou-se por apenas duas décadas, momento
em que a unidade foi desativada, alegando-se a escassez de donativos públicos e priva-
dos como motivo causador da suspensão das atividades médicas (Ribeiro, 1956).
De qualquer forma, a partir de meados do século XIX, praticamente todas as
famílias cariocas contavam com pelo menos um de seus membros assaltado pela corrupção
do peito. Espelhando os receios produzidos pela ampla disseminação da moléstia, o
clínico João Vicente Torres Homem (1882) ocupou muitas de suas preleções na Faculda-
de de Medicina do Rio de Janeiro com a análise dos danos individuais e coletivos
causados pela tísica.
Quando o Dr. Torres Homem publicou a síntese dos cursos que havia ministrado
nas duas décadas anteriores, o médico enfatizou que nunca a tuberculose havia feito
tantas vítimas no território brasileiro quanto naquele período, declarando ainda que a
Peste Branca se transformara no principal flagelo sanitário que ameaçava os habitantes
da capital do Império.
O interesse em esclarecer os elementos determinantes do mal consuntivo leva-
ram o catedrático da academia médica a buscar apoio nas doutrinas vitalista e miasmática
vigentes no início da centúria para ensinar que o clima quente e úmido do Rio de Janeiro
mancomunava-se com os mecanismos da hereditariedade, com o alcoolismo e com o
aleitamento mercenário para propiciar a rápida expansão do reino da tísica. Neste enca-
minhamento de idéias, o Dr. Torres Homem mostrou-se pouco convencido das recentes
descobertas microbianas, observando que “Entre o povo brazileiro, principalmente nas
camadas sociais menos esclarecidas, está enraizada a opinião de que a phthisica pulmo-
nar é muito contagiosa” (Torres Homem, 1882:358).
O pressuposto da fimatose configurar-se como moléstia disseminada de um
indivíduo para outro era indicado como elemento próprio da cultura tradicional dos
povos ibéricos. Entretanto, a multiplicação dos debates realizados na Europa acerca da
validade das propostas pastorianas parece que plantou uma semente de dúvida nas
exposições do professor de Clínica Médica que, tocado pela indecisão, buscou conci-
liar seus posicionamentos com alguns pontos da inovadora medicina de Pasteur:


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Quem sabe se o ar expirado pelo phthisico não contem parcellas nocivas, que,
sendo absorvidas pelos pulmões de um individuo são, podem n’elles provocar
um trabalho inflammatorio lento e gradualmente destruidor! Quem sabe se o
suor do phthisico em contacto com a pelle de quem está bom é absorvido pouco
a pouco e serve de vehiculo á diathese tuberculosa! Quem sabe se este mesmo
suor, transformado em vapor aquoso pela evaporação, não entra no organismo
de quem convive com o doente, por meio da inhalação pulmonar! (Torres Ho-
mem, 1882,: 359-361, v. 1)
Pouco mais de uma década depois da publicação do texto das aulas ministradas
pelo Dr. Torres Homem, a comunidade médica nacional revelava-se ainda pouco resolu-
ta em aceitar os pressupostos microbianos. Repetindo o movimento que ocorria em
escala mundial, a escola médica do Rio de Janeiro postava-se como guardiã incondici-
onal da tradição hipocrática, sendo que, no ano de 1894, raros eram os lentes daquela
faculdade que assumiam a tuberculose como enfermidade de caráter infecto-contagio-
so. Os lentes mais arrojados expressavam cautela, pontificando que a Peste Branca era
causada tanto pela inflamação dos tecidos quanto pela ação bacilar, conseguindo com
isso mostrarem-se inteirados dos recentes debates que vinham agitando a medicina
positivista européia e, ao mesmo tempo, fugirem do confronto com os decanos da
clínica e da Saúde Pública nacionais (Freitas, 1940).
No resto do país, o mesmo clima de indecisão bafejava as exposições
especializadas. Em São Paulo, por exemplo, o cirurgião Luiz Philippe Jardim (1894),
diretor do Hospital Militar, ensinava que a consunção era fruto da determinante heredi-
tária e também do contágio. Ainda segundo o Dr. Jardim, o principal meio de infecção
era o intercurso sexual, alegando que suas experiências apontavam para as mucosas
genito-urinárias como o principal reservatório do bacilo identificado por Koch.



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