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Administração Sanitária e
Tuberculose no Brasil
A presença da tuberculose no Brasil persiste ainda como tema repleto de dúvi-
das quanto a sua origem. Os poucos estudiosos que pesquisaram o pretérito sanitário
nacional parecem convergir para uma visão paradisíaca sobre o perfil epidemiológico
das populações pré-cabralinas, repetindo as observações registradas pelos primeiros
visitantes da colônia. A partir disso, a historiografia consagrou a versão de que, antes
da chegada dos europeus, os agrupamentos indígenas desfrutavam de saúde perfeita,
sendo assolados por raras patologias, todas elas de pouco risco para a vida.
Em continuidade, os médicos Afranio Peixoto, Lourival Ribeiro e Lycurgo San-
tos Filho, dentre outros, negam a existência da tísica junto às populações primitivas da
América e em especial entre as tribos brasileiras, no momento que antecedeu ao contato
com os conquistadores brancos. O antropólogo Thales de Azevedo (1941) talvez tenha
sido o único pesquisador brasileiro a destoar dessa tendência, lançando dúvidas sobre
a inexistência da consunção entre os indígenas no período anterior ao ano de 1500 sem,
contudo, chegar a qualquer conclusão mais conseqüente.
A proposta de uma América edênica, entretanto, tem sido contrariada por inú-
meros estudiosos estrangeiros. Aristides Moll (1969) defende a tese que coloca a tu-
berculose como moléstia conhecida pelos autóctones americanos muito antes de 1492,
assinalando que os Incas haviam batizado a letal enfermidade com o nome de chaki
onkoy. Outro pesquisador, o francês Mirko Grmek (1983), também aponta para a presen-
ça da tísica no ‘Novo Mundo’ no período que antecedeu a invasão européia. Com base
em dados oferecidos pela paleopatologia, Grmek assinala que a infecção pulmonar
apresentava-se como evento corriqueiro nos centros urbanos pré-colombianos, fazen-
do poucas vítimas nos agrupamentos de tamanho reduzido e que mantinham escassos
contatos com as tribos maiores.
O certo, porém, é que a moléstia firmou-se como uma das principais causas de
óbitos entre os indígenas a partir do século XVI, fenômeno que sugere a pouca intimi-
dade grupal com o bacilo de Koch. A provável condição de virgin soil para a moléstia
consuntiva – isto é, de comunidade cuja história biológica não incluía a tuberculose –
fez com que os índios se tornassem vítimas indefesas da Peste Branca, resultando no
desaparecimento de inúmeras organizações tribais e, na continuidade, situando a tísica
como uma das principais marcas da epidemiologia continental.


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No contexto colonial brasileiro, salienta-se que os primeiros sacerdotes que
aqui aportaram vieram não só para trabalhar por ‘Deus e Sua Majestade’, mas também
para tratar da saúde comprometida pelo mal consuntivo. Não faltam afirmações de que
os padres fimatosos Manoel da Nóbrega e José de Anchieta tenham sido os primeiros
disseminadores da doença entre os índios, contribuindo para o decréscimo populacional
entre os tupis-guaranis catequizados.
Em agosto de 1557, o jesuíta Manoel da Nóbrega escrevia aos seus superiores
pedindo novos apóstolos para atuarem na Terra de Santa Cruz, invocando seu estado
de saúde como motivo do rogo:
a mim devem-me já de ter por morto, porque ao presente fiquo deitando muito
sangue polla boca. O medico de quá hora diz que hé vea quebrada, ora que hé do
peito, hora que pode ser da cabeça: seja donde for, eu o que mais sinto hé ver a
febre ir-me gastando pouco a pouco. (Leite, 1957:404)
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A recorrência ao africano escravizado permitiu que um novo grupo provavel-
mente não tuberculinizado chegasse ao Brasil, sendo que os negros, em pouco tempo,
tornaram-se as principais vítimas da fatal tísica. As condições de vida e de trabalho
impostas aos cativos favoreceram a disseminação da moléstia entre os africanos e seus
descendentes brasileiros, induzindo vários pesquisadores a pontificarem que a tuber-
culose imperava  entre os negros pelas características próprias da biologia racial.
Outros estudiosos, entretanto, preferem creditar o alastramento da fimatose
entre os negros ao excesso de trabalho, à dieta alimentar precária, ao alcoolismo e
também ao consumo de maconha (Santos Filho, 1977). No século XIX, a consunção
continuou a se alastrar entre a comunidade escravizada. Na pintura intitulada Mercado



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