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O N
ASCIMENTO
 
DOS
 S
ANATÓRIOS
A era sanatorial de atendimento aos fimatosos abriu-se no ano de 1854, quando
o médico tuberculoso Hermann Brehmer inaugurou a primeira instituição especializada
no tratamento de pectários, localizada nas montanhas da Silésia. Alguns anos depois,
o clínico Peter Dettweiler instalou outra casa de saúde em Falkstein, nas montanhas
Taurus, para tratar de si próprio e de outros infectados.
A premissa que orientou Brehmer e Dettweiler para a retomada da antiga proposta
de ‘cura nas alturas’ residia na suposição segundo a qual inexistia casos de tísica entre os
habitantes das montanhas. Em conseqüência, os médicos alemães concluíram que a tu-
berculose era resultado da circulação precária do sangue no coração e nos pulmões,
sendo que a permanência dos consuntivos nas regiões altas revitalizaria as funções
orgânicas em geral e, em especial dos pulmões, viabilizando a cura dos contaminados.
Inicialmente, Brehmer e Dettweiler prescreveram exercícios físicos vigorosos
para os seus pacientes, tentando estimular mais ainda o funcionamento do trato respi-
ratório. Mas, pouco tempo depois de instituída, esta orientação teve de ser abandona-
da, porque os facultativos perceberam que tal prática favorecia a ocorrência de
hemoptises, debilitando ainda mais os pacientes pulmonares.
O desdobramento do conhecimento clínico-epidemiológico sobre a tísica associado
à disseminação de sanatórios nas regiões de altitude de toda a Europa permitiram que, no
final do século XIX, ganhassem força os movimentos oficiais de combate à Peste Branca.


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Se a Inglaterra foi o berço da concepção segundo a qual a doença poderia ser
limitada por meio da atuação dos dispensários, o modelo germânico chamou mais a
atenção, já que o governo alemão dirigiu desde 1892 a instalação de uma rede sanatorial,
custeada pelos fundos criados pelos trabalhadores. Em conseqüência, vários países
europeus centraram recursos na campanha pela criação de casas de saúde franqueadas
ao proletariado, alegando que a tísica fazia grande número de vítimas entre os extratos
mais pobres da população. Sob a ameaça de que a própria espécie humana corria risco
de extinção pela Peste Branca, médicos e leigos se irmanaram, cobrando urgentes medi-
das oficiais contra o alastramento da infecção.
Neste contexto, as concepções vigentes desde o final do século passado instru-
íram entendimentos alarmantes sobre a Peste Branca e suas vítimas. A moléstia expan-
dia-se em definição, concretizando-se ao mesmo tempo como causa e produto dos
desarranjos que feriam o tecido coletivo.
O eugenista italiano Attillio Cevidalli, por exemplo, foi um dos intelectuais que,
ao estudar os tísicos internados nas prisões e nos hospícios, inverteu a ordem dos
fatores, concluindo que a toxina tuberculosa fazia com que os fimatosos agissem contra
os valores básicos da sociedade e que, portanto, eram encarcerados nas cadeias e nos
manicômios. Prosseguindo em seus ensinamentos, o intelectual italiano ganhou segui-
dores ao pontificar a urgência do combate à moléstia, explicando que a redução do
grupo de infectados – ou o enclausuramento dos pectários – repercutiria no ambiente
social, fazendo diminuir o número de atentados contra a ordem pública (Cevidalli, 1928).
As ciências sociais norte-americanas também caminharam nessa mesma linha de
raciocínio. Em um dos principais textbooks publicados nas primeiras décadas do século
XX, Alfred Queen e Delbert Mann (1925), sociólogos da Universidade de Chicago,
faziam coro às idéias de Cevidalli, acrescentando que o indivíduo contraía a infecção
pulmonar devido ao desregramento da vida cotidiana – inclusive pela aversão ao traba-
lho – sendo que a tuberculose apresentava-se como último recurso aos que buscavam
fugir de seus compromissos com a sociedade.
A partir destas constatações, a intervenção no problema representado pela
Peste Branca tornou-se um ‘dever social’ de todos os cidadãos, favorecendo as críticas
aos governos nacionais que se mostravam apáticos frente à ameaça sanitária. Na Fran-
ça, onde a luta contra a moléstia tardou a ganhar impulso, inúmeras foram as vozes que
reclamaram contra a inexistência de sanatórios destinados ao atendimento dos conta-
minados mais carentes. Por isso, no ano de 1902, um médico socialista aconselhava a
França a seguir o exemplo germânico, cobrando do Estado e da burguesia a ‘obra
patriótica’ de criação de sanatórios populares (Boureilli, 1901).
O resultado destas campanhas ativadas nacionalmente consistiu na criação de
uma rede de casas de saúde especializadas no continente europeu. A partir de então, os
sanatórios transformaram-se no ambiente próprio dos consuntivos e no espaço
constitutivo do saber tisiológico.
Os enfermos, por sua vez, mantinham uma atitude contraditória em relação a
estes nosocômios. Espaços organizados para a cura da tuberculose, os sanatórios
também representavam a exclusão do cotidiano dos sadios.


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Nas primeiras décadas do século XX, Thomas Mann, que acompanhou a espo-
sa tísica durante seguidos internamentos em sanatórios suíços, e Paul Gadene, ele
próprio tuberculoso, dentre outros, foram escritores que conviveram intimamente com
a moléstia, denunciando os padecimentos dos contaminados isolados nos hospitais
das montanhas. Isto porque a concepção segundo a qual os fimatosos eram crivados
de vícios produzidos ou pelo menos exponenciados pela ação bacilar, impunha que a
clínica administrasse idealisticamente os sanatórios segundo o modelo gerenciador da
vida em caserna.
Em nome da preservação da raça, como queria o Dr. Banu (1939), ou da defesa
moral, como advogava o Dr. Tartarin (1902), o diretor apropriado de uma casa de saúde
era o que tivesse longa experiência como médico militar e o melhor dos pacientes era o
soldado tuberculoso, pois um sabia ditar ordens e o outro obedecer rigorosamente as
normas impostas pelos seus superiores.
A apologia da robustez física como indício da saúde moral e física, por contras-
te, situou a magreza corpórea e a fragilidade física como símbolos da doença e do
comprometimento moral. A redefinição médica e social do tuberculoso, na segunda
metade do século XIX, favoreceu a marginalização do infectado, sinalizando o isola-
mento sanatorial como destino último dos enfermos do peito. Neste contexto, ganhou
aceitação ampla a ‘identidade virtual’ negativa e assustadora atribuída aos tísicos. Tal
fenômeno não só permitiu a multiplicação dos tratamentos estigmatizadores impostos
aos consuntivos, mas também abriu novas oportunidades para reiteração dos valores e
dos comportamentos ‘saudáveis’ que deveriam reger a sociedade moderna.
No encerramento do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, a Peste
Branca e seus tributários dispunham de explicações biológicas e sociais que, guardan-
do coerência, mostravam-se complementares. Estabeleciam-se assim os meandros pos-
síveis da história dos infectados. Uma história que teve desdobramentos inclusive no
contexto brasileiro.

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