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O T
EMPO
 
DAS
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IAGENS
Rejeitados pelo mundo dos sadios e atormentados pela doença que corrói, mui-
tos tuberculosos acomodaram-se às prescrições médicas, rumando para longas e su-
cessivas viagens que prometiam a recuperação da saúde. Desde os fins do século
XVIII, os clínicos passaram a reiterar com insistência a necessidade dos pectários
mudarem de ares, indicando os climas quentes da Europa meridional como propícios
para o tratamento dos pulmões, acompanhando de perto as instruções preconizadas
pela medicina greco-romana.
No lado ocidental do continente, regiões que há muito vinham sendo visitadas
pelos fimatosos consistiam no extremo sul da Península Ibérica, nas ilhas Baleares e nas
praias banhadas pelo mar Tirreno. A constância das peregrinações de consuntivos
para estas áreas fomentou o repúdio aos doentes com os pulmões corroídos, tornando
os locais de cura pioneiros na elaboração de códigos sanitários que limitavam a liberda-
de dos contaminados.
Quando Chopin teve a sua saúde pulmonar comprometida, os médicos lhe reco-
mendaram o afastamento do inverno rigoroso, prescrevendo uma temporada na ilha de
Majorca, convenientemente situada a pouca distância do continente europeu e prote-
gida pelo clima mediterrânico. Por isto, em 1839, George Sand conduziu o compositor
para a ‘ilha encantada’, apostando na melhora da saúde do seu companheiro.
Entretanto, a estada em Valdemosa revelou-se constrangedora, fazendo com
que tudo se tornasse difícil, desde a compra de leite de cabra até a locação de um
imóvel minimamente confortável, pois os majorquinos nutriam verdadeiro horror aos
visitantes infectados. Como Chopin piorasse da saúde, o regresso à França tornou-
se medida urgente, situação que uma vez mais denunciou a intensidade da aceitação
da teoria contagionista pelos ibéricos. O transporte do enfermo até a cidade de Barce-
lona foi oneroso, inclusive porque George Sand foi obrigada a cobrir os custos da


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cama ocupada pelo músico, pois logo depois de usado, o leito foi lançado à fogueira,
como medida preventiva (Sand, 1984).
O fato dos ilhéus acreditarem no perigo contagioso foi julgado pela escritora
como fruto da superstição típica de um ‘povo bárbaro’. Entretanto, o repúdio aos
doentes pulmonares foi observado inclusive em Nápoles, quando o compositor tísico
Nicolò Paganini foi severamente perseguido pelas autoridades, ao tentar estabelecer
residência naquela cidade . Em Roma, René de Chateaubriand também registrou a mes-
ma situação, pois ao se encarregar da venda dos móveis utilizados por uma amiga
tuberculosa, não encontrou comprador, sendo obrigado a queimar a maior parte das
peças, por ordem da milícia local (Grellet, 1983).
O temor inspirado pela moléstia ganhou novos espaços, limitando a ‘febre do
judeu errante’ que animava a constante troca de moradia pelos personagens fimatosos.
Mesmo assim, nos Estados Unidos, muitos dos pioneiros que no decorrer do século
XIX desempenharam a tarefa de expansão das fronteiras americanas, eram tísicos que
procuravam territórios apropriados para o tratamento da saúde. As regiões do Colorado,
Utah, Texas, Novo México, Arizona, Kansas, Nevada, Oklahoma e Califórnia foram
áreas de concentração de infectados, sendo que a cidade de Los Angeles foi designada
como a  ‘capital nacional dos consuntivos’, por volta de 1880.
Espelhando as mudanças das atitudes coletivas em relação aos tuberculosos,
no término do século XIX tomou corpo um movimento que visava à aprovação de uma
lei que exigiria que todos os cidadãos norte-americanos contaminados pela doença
utilizassem um sino pendurado no pescoço, para assim alertar os sadios sobre o estado
deteriorado de seus pulmões (Jones, 1967).
A força da tradição incitava os fimatosos a empreenderem sucessivas viagens,
apesar do surgimento de leis sanitárias que tentavam inibir o trânsito dos tuberculosos.
No século XX, as informações registradas nas correspondências e diários dos tísicos
Katherine Mansfield e Franz Kafka, e em seus respectivos diários, denunciam a rejeição
ao isolamento por parte dos enfermos, que, em continuidade, preferiam buscar trata-
mento da saúde em variados pontos da Europa, residindo em pensões e hotéis baratos.
Persistia também o fascínio pelos longos períodos de retiro nas costas do Mediterrâ-
neo, sendo que Monte Carlo, Mônaco e a Riviera Francesa se constituíram nos últimos
redutos de liberdade dos infectados que dispunham de algum amparo econômico.
Um dos exemplos mais extremados da ânsia de recuperar a saúde por meio de
contínuas mudanças de ambiente geográfico é encontrado na trajetória da vida
tuberculosa do poeta António Nobre (1982). Diagnosticada a infecção no ano de 1894,
o autor de  abandonou Portugal para buscar socorro clínico na Suíça, alternando
períodos de tratamento em Davos-Platz e Clavadel.
Receando piora de saúde, o poeta sonhou instalar-se nas ilhas Canárias, mas em
vez disto, percorreu a Itália e, na seqüência, regressou à Suíça, vivendo alguns meses
em Genebra e Lausane. Pouco tempo demorou para o tuberculoso novamente pôr-se em
marcha, retornando a Portugal, onde vagou por várias regiões em busca de auxílio
econômico, sendo expulso de hotéis que não aceitavam hóspedes consuntivos, perse-
guindo médicos e charlatães que acenavam com drogas miraculosas, ocultando de
quase todos os amigos a verdadeira enfermidade que o minava.


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Desencantado, António Nobre novamente desejou viajar, escolhendo a África
do Sul como alvo, mas indo para Nova Yorque e, com isto, aproveitando as benesses do
“Dr. Oceano (...) o melhor médico do mundo” (Nobre, 1982:197). Porém, a permanência
na América do Norte foi breve, rumando o poeta para a ilha da Madeira, onde, pela vez
única, sentiu-se melhor, porque em companhia de outros tísicos lusitanos.
Sob a desculpa do rigor do clima insular, o poeta estabeleceu-se novamente na
Suíça e de lá partiu para Londres e Paris e, em continuidade, uma vez mais buscou
abrigo nos sanatórios e nas pensões suíças. Praticamente abandonado pelos parentes
mais próximos, sem dinheiro e desesperançado, Nobre valeu-se de sua pátria como
refúgio derradeiro, falecendo logo depois. Corria o ano de 1900 e com ele os ‘males de
Anto’ chegaram a termo.
A persistência pela vida em movimento adotada por uma vasta legião de infectados
manteve-se ativa mesmo durante a era em que predominou o isolamento hospitalar como
forma de tratamento e segregação dos tuberculosos. A consulta a vários guias de via-
gem revela que os editores destas obras assinalavam meticulosamente as estações de
cura, informando os preços cobrados pelos hotéis, pensões e sanatórios que acolhiam
enfermos, assim como as farmácias e os médicos dispostos a atender os tísicos. Sob o
pretexto de desfrutar férias longe do abrigo doméstico, parece que se tornou comum os
infectados ocultarem as temporadas passadas nas estações climatoterápicas, anunci-
ando o retiro como simples período de descanso da agitação metropolitana.


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