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Voltei para casa às quatro horas, jantei com bastante apetite. Essa saída fez-me
bem. E se eu me curasse? Como o aspecto da vida e da felicidade dos outros faz
desejar viver aqueles que, na véspera, na solidão de sua alma e na sombra de
seu quarto de doentes, desejavam morrer depressa. (Dumas Filho, 1977:201)
A esperança de restabelecimento da saúde foi apenas um sonho para a cortesã
arrependida. A corrupção do corpo seria o castigo para a vida dissipada. A morte da
enferma foi despojada de qualquer aura redentora, para ser revelada como algo som-
brio, aterrorizador, até mesmo repugnante: “Os olhos eram apenas dois buracos, os
lábios tinham desaparecido e os dentes brancos cerravam-se uns contra os outros. Os
longos cabelos negros e secos estavam colados às temporas e velavam em parte as
cavidades verdes das faces” (1977:42).
Os medos despertados pela enfermidade e a adequação da tísica como doença
dos miseráveis faziam com que a elite negasse a presença da moléstia em seu meio
social. Quando a mortal enfermidade invadia os lares burgueses, o fato era protegido
pelo absoluto sigilo familiar, sendo raros os infectados que viam alguma positividade
na experiência de vida com a tuberculose.
Em 1882, enquanto Robert Koch exigia segredo absoluto sobre a sua condição
pectária, a jovem pintora Marie Bashkirtseff (1943:326) desviava-se da regra,
confidenciando em seu Diário: “esta posição de condenada, ou cousa que o valha,
diverte-me (...) há nisto um certo encanto. É antes de tudo, uma novidade”.
A partir da segunda metade do século XIX, as celebrações byronianas perderam
força, permitindo que a doença dos pulmões fosse assumida como experiência com
sentido único: a degradação do enfermo.
Para clarear este novo posicionamento, os irmãos Edmond e Jules Goncourt
(1982) fizeram-se alunos da faculdade de medicina de Paris para ganhar conhecimentos
que resultaram no romance Madame Gervaisais, lançado a público em 1869.
Empenhados na composição de uma ‘sociologia dos tísicos’, os escritores abra-
çaram as teorias clínicas vigentes, conferindo-lhes lastro por meio da observação de-
morada de uma série de fimatosos isolados tanto nas enfermarias hospitalares quanto
no recinto doméstico. Como resultado, surgiu uma obra que beira o registro biográfico,
pois declaradamente inspirada no curso da vida da infectada Nephtalie de Courmont,
tia dos irmãos Goncourt.
A descrição dos efeitos nefastos da tuberculose sobre o corpo e a persona-
lidade de Mme. Gervaisais é intensa e assustadora, ocupando quase que o total das
páginas do texto goncourtiano. Transferindo-se de Paris para Roma, a consuntiva
foi pouco a pouco sendo despojada da beleza corporal, tornando-se uma mulher
abatida e feia.


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Os ‘efeitos morais’ da moléstia que a consumia eram múltiplos: anti-clerical,
assumiu a vida mística e dependente de uma relação sado-masoquista com diversos
pregadores jesuítas; pudorosa, revelou-se facilmente excitável no sexo, até mesmo com
o nu das estátuas expostas nos museus e, mãe sempre devotada, abandonou o próprio
filho, entregando-se a um egoísmo desmesurado, renunciando às relações sociais e à
riqueza herdada do esposo.
O definhamento físico e a ruína moral da pectária foram explicadas pelos Goncourt
como resultado da ação destrutiva promovida pela consunção. As dificuldades respira-
tórias, segundo os escritores, causavam uma semi-asfixia que intoxicava os pulmões e
afetava o funcionamento do cérebro que, impedido de funcionar plenamente, gerava
excitação sexual e ‘loucura religiosa’. Em continuidade, os estragos cerebrais condena-
ram a consuntiva, que contava com 40 anos de idade, a voltar a um estado mental
infantil, fazendo-a comportar-se como uma criança de 12 anos.
As teses animadoras da trama assinada pelos Goncourt revelam a transposição
para a literatura do ideário que a comunidade médica européia vinha articulando sobre
o comportamento fimatoso, conferindo a Madame Gervaisais a dupla função de instru-
mento justificador e ao mesmo tempo popularizador dos enunciados clínicos. Nesta
circunstância, a medicina ensinava que o tuberculoso era um tipo limite de vida, defen-
dendo a condição pervertida dos doentes do peito.
A transparência da pele, a ausência de pilosidade, o surgimento de mamilos
pronunciados nos homens e a inversão sexual feminina foram alguns outros elemen-
tos registrados nas conclusões das pesquisas especializadas, remetendo os contami-
nados para o território das ambigüidades onde o masculino e o feminino, o adulto e o
infantil, o ingênuo e o perverso, enfim, onde todos os opostos se combinavam diabo-
licamente, resultando na nova e assustadora imagem ajustada aos personagens
consuntivos (Grellet, 1983).
O caráter enigmático emprestado aos tuberculosos orientava os ensinamentos
médicos e os devaneios ficcionais. Tanto uns quanto outros deixaram-se fascinar pelas
pretensas aberrações perpetradas pelos tísicos, exigindo que facultativos e escritores
se lançassem vorazmente na exploração das perversidades dos contaminados, dando
especial ênfase ao comportamento sexual dos enfraquecidos do peito.
Perseguindo este intento, o Dr. Fonssagrives (1880) reuniu a autoridade docen-
te da escola médica de Montpellier com o prestígio de autor de inúmeras obras
fundamentadoras da medicina pulmonar para estender-se na observação das atitudes
sexuais dos fimatosos. Ao prescrever a necessidade de rígida “higiene moral” dos
adoentados, o clínico acrescentou que os tísicos, por se sentirem próximos da morte,
apresentam um exagerado “apetite genésico”, cabendo aos clínicos inibir tal tendência
por meio de medicamentos e dietas especiais.
A alegada anormalidade venérea dos tísicos assegurou a existência de toda uma
vertente literária que garantia o sucesso de venda de livros na exploração dos compor-
tamentos sexuais condenados pela moral vitoriana. A escritora que se ocultava sob o
pseudônimo de Jane de la Vaudère (s.d.) foi uma das autoras que assumiu o tema,
produzindo ‘composições eróticas’ povoadas de personagens tuberculosos homosse-


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xuais e sodomitas. Em um de seus livros, a trama se encerra com uma libertina infectada
esvaindo-se em hemoptise, mas mesmo assim reservando seus últimos instantes de
vida para presenciar e bendizer o coito anal de um casal que adotou como discípulos e
que, pela licenciosidade do ato praticado, foi presenteado com todos os bens acumula-
dos pela valetudinária.
A consunção e seus tributários transformaram-se na grande metáfora de tudo o
que era considerado ameaçador, horripilante, nojento. Exemplo disto é uma série de
livros publicada em Portugal no início do século passado e que tinha como título geral
Tuberculose Social, onde, no décimo volume da coleção, o autor combateu a
obrigatoriedade do celibato sacerdotal. Neste ensaio declaradamente anarquista e por-
tanto anti-clerical, os estigmas sobre os pectários não foram colocados de lado, sendo
que o enredo da obra constitui-se na história de um padre infectado que se deixou
dominar pelos seus impulsos exageradamente eróticos, pervertendo e contaminando
várias de suas inocentes fiéis (Gallis, 1903).



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