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Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra e que Victor Hugo dramatizou por
meio da criação literária em Os Miseráveis.
Os motivos que permitiram a alteração dos posicionamentos coletivos sobre os
pectários são pouco claros, mas pode-se pensar que neste período os casos de tísica
tornaram-se bem menos freqüentes nos círculos burgueses da Europa. As taxas de
mortalidade pela moléstia apontam uma significativa queda, pois, se no ano de 1838 a
tuberculose cobrou 4 vidas em cada mil britânicos, tal índice caiu para 2,7 em 1860 e para
1,3 na virada de século.
A pouca eficiência dos recursos médico-terapêuticos disponíveis há 150 anos
faz com que algumas explicações sejam tentadas para justificar o decréscimo relativo de
óbitos e possivelmente da mortalidade produzida pela tísica: o afastamento dos
infectados dos núcleos urbanos maiores, a eventual mutação da estrutura bioquímica
do agente causal e a redução do número médio de componentes da família inglesa são
elementos analisados pelos estudiosos, mas que pouco têm contribuído para o enten-
dimento do fenômeno.
A hipótese que atualmente se aventa com maior intensidade – apesar de também
não ser conclusiva – aponta para o aumento da resistência orgânica individual como
evento limitador da legião de infectados. Isto porque houve seguidas melhorias nas
condições materiais de vida dos agrupamentos proletários da Inglaterra, principalmen-
te após a organização de uma vasta rede distribuidora de gêneros alimentícios, fato que
implicou o rebaixamento dos preços e, por óbvio, no maior consumo de alimentos pelas
camadas de trabalhadores urbanos (McKeown, 1977 e 1990).
Sob nova circunstância, elaboravam-se padrões inéditos para o século XIX: a
saúde e a abundância de gorduras transformaram-se em moda e culto. O casal coroado
britânico tornou-se o novo paradigma de corpo e de moralidade que foi reproduzido
nos lares burgueses da Europa da segunda parte da centúria. A rainha Vitória e seu
consorte Alberto eram corpulentos, e nos momentos de apresentação pública, mostra-
vam-se alegres, ágeis, enérgicos e moralmente equilibrados.
À saúde do corpo e do espírito somava-se o gosto pela fartura de alimentação
pesada, não faltando na mesa real uma grande variedade de peixes, guisados e assados,
além de inúmeras sobremesas e vinhos. Refletindo a nova proposta, Jean Renoir e Édouard
Manet, dentre outros, serviram-se de modelos robustos, até mesmo beirando a obesida-
de, para retratar as novas concepções estéticas e clínicas preconizadas naquele período.


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Em continuidade, a medicina pública buscou enquadrar a tísica no conjunto de
‘moléstias sociais’, definindo-a como Peste Branca e com isto fazendo lembrar as taxas
alarmantes de morbidade e de mortalidade produzidas pela doença no contexto das
camadas mais pobres da população.
Complementando a proposta clínica, os higienistas compuseram novas estraté-
gias de intervenção no cotidiano coletivo, sem no entanto abandonar os pressupostos
fantasiosos que pairavam sobre o comportamento infectado. Neste contexto, definiu-
se o julgamento moral dos fimatosos, tornando a vida privada dos enfermos um espetá-
culo que atraía o interesse coletivo. A literatura, associada à medicina, continuou a
ocupar páginas e mais páginas para revelar a intimidade dos pectários que, segundo
a tessitura murgeriana, caracterizavam-se psicologicamente pelo amálgama de “senti-
mentos maldosos e instintos ferozes” (Murger, 1936:170-171).
Ainda no momento inaugural desta nova etapa de verificação da vida consuntiva,
outro enredo de tendência ficcional que ganhou ampla aceitação foi A Dama das Ca-
mélias, de Dumas Filho (1977). Isto se deveu ao fato da obra ter reunido todos os
estereótipos organizados em torno do personagem tuberculoso, especulando sobre a
trajetória existencial de uma conhecida cortesã francesa, opções que garantiram o su-
cesso editorial do texto, publicado no ano de 1852.
O impulso inicial para a composição deste romance deveu-se ao encontro do
escritor com a cortesã Marie Dupleiss, cujo nome de batismo era Alphonsine Plessis.
Alphonsine era uma camponesa da Normandia que, em conseqüência da miséria que
assolava a região, assumiu a prostituição como estratégia de sobrevivência. Nessa
condição, conheceu e contraiu matrimônio com um inglês de posses, porém, enviu-
vou em pouco tempo. Endinheirada, Marie Dupleiss rumou para a capital dos france-
ses, onde passou a levar uma vida faustosa, ganhando destaque no ambiente metro-
politano e tornando-se presença obrigatória nas reuniões sociais que agitavam o
cenário parisiense.
Já diagnosticada como consuntiva, Mme. Dupleiss conheceu Dumas Filho,
mantendo um consórcio amoroso que se estendeu por alguns meses. Rompido o relaci-
onamento, o escritor retirou-se para a Espanha, enquanto a amante permaneceu na
‘cidade-mãe do escândalo’, onde faleceu em 1847, aos 23 anos de idade. O velório,
assim como o leilão dos bens deixados pela morta, constituíram-se em acontecimentos
sociais concorridíssimos, impressionando o viajante Charles Dickens que registrou a
emoção despertada pelos eventos, os quais o fizeram concluir que a Dama das Camélias
era uma espécie de heroína nacional, comparável a Joana D’Arc.
De regresso a Paris, Dumas Filho soube do óbito de sua ex-companheira, escre-
vendo o livro que anunciava tratar de uma ‘história verdadeira’, testemunho de uma
geração na qual a ‘ciência do bem e do mal’ estava definitivamente consolidada. Para
alcançar estes objetivos, o autor tingiu a figura da pectária Marguerite Gauthier com as
cores de uma mulher bela, sedutora e voluptuosa que, pela vida de orgias, tornou-se
escrava da doença do peito.
Apaixonada pelo ingênuo Armand, nem mesmo as tentativas de recuperação
física e moral patrocinadas pelo amante surtiram os efeitos desejados. A reclusão no
território campestre e o descanso prolongado foram inúteis, pois a enfermidade progre-


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dia e a ‘febre de desejos’ conduziu a pectária novamente a Paris. Ali, Mme. Gauthier foi
rejeitada pelos seus antigos companheiros de ‘devassidão’, pois os novos comporta-
mentos instruíam que ‘no seu mundo não há amigos se não houver saúde’.
No território da literatura, pela primeira vez aflorava o repúdio declarado ao
tuberculoso, o que fazia deste um ser desprezado e que por isso deveria empenhar-se
na recuperação da saúde, como em certo momento confidenciou a Dama das Camélias:


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