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A M
ODERNIZAÇÃO
 
DAS
 R
EPRESENTAÇÕES
A partir dos últimos anos do século XVIII, os escritores românticos adotaram a
consunção e seus tributários como tema recorrente, sendo raras as novelas, as poesias
e as pinturas que deixaram de incorporar os fracos do peito em suas descrições, mesmo
que incidentalmente. Os discípulos de Goethe, Chateaubriand e Byron convergiram
para a imitação de seus ‘mestres’, fazendo proliferar uma multidão de personagens
aflitos e doentios, todos eles guardando semelhança próxima com o vulto depauperado
e sombrio da espanhola Dona Tadea Arias de Enriquez, modelo inspiradora de uma
pintura assinada por Francisco Goya, nos primeiros anos do século XIX.
O predomínio da motivação literária e artística centrada na tísica não pode ser
explicado apenas pela alta taxa de disseminação da enfermidade nos terrenos urbanos
e de industrialização incipiente, representados no início da centúria passada pelas
principais cidades da Inglaterra e da França. É necessário levar em consideração que a
Graveyard School – designação que busca aglutinar os autores e artistas românticos –
apropriou-se da moléstia para melancolicamente anunciar a angústia existencial que se
abatia sobre uma classe de privilegiados que fora ferida de morte no momento que
sucedeu à Revolução Francesa.
Com isto, os escritores românticos encontraram na tuberculose um recurso con-
veniente para negar o mundo concreto e confessar o desencanto da vida social. A
ansiedade da busca de um ‘segundo eu’ rimava com a desilusão produzida por uma
sociedade envolvida pelos ideais de igualdade dos direitos dos cidadãos, favorecendo
as cirurgias introspectivas e de auto-observação. Com isso, o comportamento mórbido
e ensimesmado passou a ser concebido como sinônimo de requinte e delicadeza por um
grupo infelicitado pela ameaça de decadência na hierarquia social.
Mais ainda, os românticos se deixaram enveredar pela tuberculose porque esta
enfermidade se apresentava historicamente marcada por uma aura que passou a ser
concebida como enobrecedora. Definida como ‘febre das almas sensíveis’, a consunção
foi abraçada pelos textos literários como argumento exaltador dos dotes de uma larga
parcela da elite intelectual. O mal dos pulmões foi assumido como cabal comprovação
da sensibilidade e da genialidade que dirigia a existência individual e permitia a compo-
sição dos escritos românticos. A febre dos corpos confundia-se com o fogo das pai-
xões e a exacerbação dos desejos, sendo que o próprio Laennec incriminou as aventu-
ras amorosas intensas ao mesmo tempo como produto e conseqüência do processo
tísico (Hillemand & Gilbrain 1980).
A literatura da primeira metade do século XIX, por isso, afastou-se silenciosa-
mente do padecimento que se abatia sobre os fimatosos pobres que se aglomeravam
nos cortiços e nas fábricas e que encontravam a morte nos becos das grandes cidades
ou nas enfermarias coletivas. Ausentes dos cenários da miséria, os poetas e escritores
românticos conferiram à tuberculose o mágico poder de redefinição positiva da vida.
Com isso, a moléstia foi confinada a uma dimensão mítica da trajetória individual, co-
brando lágrimas compadecidas e solidárias de uma sociedade que, de regra, não acredi-
tava no fatídico contágio.


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Neste encaminhamento, a literatura romântica diferenciou-se dos textos que a
precederam. Isto ocorreu porque, nos momentos anteriores, as moléstias eram geral-
mente registradas literariamente apenas por meio de personagens senis, excetuando-
se os escritos tematizados pelas quadras pestíferas. A consunção permitiu que a
febre, a fraqueza, a hemoptise, o delírio e a morte fossem materializados em existências
jovens, bastando uma contrariedade qualquer para condenar os corpos juvenis à
extinção. Refletindo este posicionamento, em 1826, Shelley explicou a doença e a
morte de seu amigo e também poeta John Keats como resultado das duras críticas que
este recebeu pela publicação de um novo livro de versos. Imediatamente, o escritor
ofendido foi vitimado por sucessivas crises de hemoptise que em poucos dias o
levaram à morte (Dubos, 1952).
A família Brontë constituiu-se no modelo ideal de padecimento físico e senti-
mental que alimentava o paradigma romântico. A persistência avassaladora da tubercu-
lose no clã foi não só entendida como a confirmação da hereditariedade da doença, mas
também como elemento explicativo da genialidade que orientava as composições de
Emily e Charlotte (1939). Nas páginas de Wuthering Heights, a patologia desponta
como marca consagradora da pureza dos espíritos que aceitaram o fim doloroso com um
orgulho que surpreende, pois a ‘bela morte’ produzida pela tísica conferia o poder
libertador das angústias terrenas.
As observações registradas sobre os personagens que tinham os pulmões arrui-
nados se avolumavam, compondo perfis mórbidos sensíveis aos olhos românticos. A
genialidade e o afã por realizações eram explicadas como resultados do avanço da
tuberculose, cuja febre se expandia e impregnava a vida adoentada, produzindo agilida-
de das idéias e bons frutos no trabalho intelectual exagerado.
Na verdade, o que garantia o caráter excessivo nas ações cotidianas pode ser
equacionado não só como fruto da percepção da brevidade da existência ameaçada
pela peste, mas sobretudo como resultado do uso desmedido de opiáceos, base de
muitos remédios indicados pela medicina do século passado. O láudano era aconselha-
do como medicamento adequado para o combate à tosse, ao cansaço, à dor e à diarréia
que atormentavam os pectários. Por isso, muitos enfermos tornaram-se dependentes da
droga que, além de agir como excitante, conduz à efervescência mental e à liberação do
inconsciente, fenômenos que eram atribuídos unicamente ao processo patológico.
A beleza e a sensualidade feminina também eram articuladas ao estado
consuntivo. A tez pálida, os olhos lacrimejantes, as faces rosadas e a rouquidão da voz
davam destaque aos corpos lânguidos, à alvura dos dentes e à tonalidade dos cabelos,
tornando os ‘anjos tísicos’ modelos da estética feminina cultuada pelos românticos,
sendo que as mulheres que correspondessem a este perfil eram situadas como objetos
máximos dos desejos masculinos. A ‘desmaterialização corporal’ reconhecida nas
fimatosas ensejou a elaboração de uma anatomia erótica que analisava meticulosamen-
te o corpo feminino: cabelos, busto, mãos, pés, unhas, tudo enfim era avaliado em
minúcias e registrado como sedutoramente belo e cobiçado.
A moda da vestimenta contribuía ainda mais para exponenciar o etéreo e o
sensual, ganhando aceitação os tecidos leves, transparentes e esvoaçantes. No ano de
1832, Barbey D’Aurevilly sintetizou exemplarmente algumas destas percepções ao re-


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tratar os encantos da tuberculosa Léa que, segundo os olhos de seu enamorado, era “a
mais bela das criaturas” (D’Aurevilly, 1832: 49) porque apresentava olheiras profundas,
rosto pálido e um corpo abatido que agitava-se sensual e freneticamente.
Nem mesmo as crianças tuberculosas deixaram de receber um tratamento
sensualizado pela pena romântica. No livro A Cabana do Pai Tomás, a pequena
Evangelina foi retratada como “a mais bela de todas as crianças” (Stowe, 1962: 52),
sendo que durante o desenrolar da trama são freqüentes as observações que avaliam
positivamente todo o corpo infantil.
Filha de pai pectário e de mãe afetada no comportamento mental, Evangelina
nutria um indescritível horror pelo sistema escravista, sentimento que se ampliou com a
evolução da doença que a consumia. Morta, as considerações tecidas sobre a pequena
tuberculosa não deixaram de exaltar a profunda sensibilidade da falecida, acrescentan-
do-se uma frase que sintetiza eficazmente a percepção ultra-romântica sobre os fracos
do peito: “não nasceu para viver aqui, na terra” (Stowe, 1962:52).
O padrão físico e a sensibilidade apurada que foram imputados às mulheres
pectárias também ganharam sentido no semblante masculino. Fréderic Chopin talvez
tenha sido o tuberculoso cuja imagem doentia foi a mais invocada pelos românticos.
Seu amigo e rival Franz Liszt descreveu-o segundo o modelo de beleza do tempo,
anotando a transparência de sua cútis, o encanto do seu cabelo e a distinção de seu
porte frágil de consuntivo.
Tudo isto excitava a cobiça feminina: George Sand (1947) confidenciou que
Chopin era um “homem irresistível” e “divinamente delicado”, enquanto um amigo do
compositor dizia que “ele vira a cabeça de todas as mulheres e provoca ciúmes em
todos os maridos”. O encanto do fimatoso polonês ganhou maior sentido ainda pela
inconstância de seu temperamento. “Não há nada de permanente nele a não ser sua
tosse”, pontificava George Sand que, apaixonada, entendia que a moléstia ampliava a
genialidade do companheiro. Isto porque a escritora associava a tísica às súbitas trans-
formações do “estado de alma” do músico, ocasiões que, segundo ela, Chopin compu-
nha partituras de incomparável qualidade artística.
A aparência e o comportamento considerados próprios dos tuberculosos trans-
formaram-se em regra existencial que vigeu durante o período mediado pela Revolução
Francesa e pelo Segundo Império. Assumida como código de vida, a atitude atribuída
aos fimatosos exigia que todos se alimentassem parcamente e se vestissem com trajes
que sugeriam o estado mórbido do corpo e o padecimento do espírito.
Os esforços para ganhar a aparência consuntiva eram intensos, pois o semblan-
te doentio atraía atenções e despertava fantasias, abrindo chances para o sucesso
artístico. Nas Scènes de la Vie de Bohème, Henry Murger (1936) colocou na boca de um
pianista que atuava em bares suspeitos palavras de glorificação à condição tuberculosa,
anunciando a infecção como produtora de uma sensibilidade exaltada cujo fim último
era o sucesso artístico e intelectual do tísico.
Esta obra murgeriana, datada de 1851, define a consunção como resultado da
vida desregrada da boêmia, localizando a moléstia e suas vítimas em um grupo de
indivíduos que desfrutava de um padrão econômico e social que em nada se assemelha-


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va com o da elite tuberculosa retratada pela literatura das décadas anteriores. Com isso,
desde o ‘ciclo revolucionário de 1848’, deu-se início à revisão da imagem imputada aos
tísicos que, mantendo-se fiel aos clichês explorados pelo romantismo, passou a exibir
esquemas condenadores da trajetória de vida e dos comportamentos atribuídos aos
afetados do peito.
Os novos posicionamentos sociais e sanitários que foram esboçados naquele
momento cumpriam o papel negador da boêmia e da tuberculose como marcas da cama-
da culta e elegante, reconhecendo a consunção como enfermidade própria da popula-
ção pobre e marginalizada. A partir de então, a tuberculose foi associada à miséria que
dizimava o lumpemproletariado e os trabalhadores industriais, enfim, toda uma legião
de injustiçados que Friedrich Engels analisou segundo a perspectiva sociológica em A



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