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partir da segunda década do século XX. A observação detalhada das alterações pro-



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partir da segunda década do século XX. A observação detalhada das alterações pro-
movidas pela doença no organismo contaminado permitiu o desdobramento da
semiologia da tísica. O interesse pela instrução dos médicos e dos leigos sobre os
indícios corporais da presença mórbida possibilitou a organização de um vasto conjun-
to de sinais e sintomas que, mais do que colaborar na identificação dos infectados,
reafirmava a sentença hipocrática sobre o ‘caráter caprichoso’ da tuberculose.
O livro de autoria do professor Félix Coste (1915) constitui-se num exemplo
revelador do empenho clínico em detectar a ação destrutiva da enfermidade: ao discor-
rer sobre mais de uma centena de sintomas patológicos, o médico tomou a precaução de
indicar que todos eles poderiam ser relacionados com a infecção consuntiva.
Paralelamente aos aprimoramentos do saber que questionava a Peste Branca,
a comunidade especializada desdobrou esforços para a obtenção de uma droga eficien-
te na cura e na prevenção da tísica. A busca de um tratamento apropriado para a
moléstia tornou-se a grande meta da medicina pastoriana. As tentativas medicamentosas
resultaram na produção de um surpreendente número de remédios, soros e vacinas
que eram anunciados com uma insistência nunca verificada até então, ocupando
largos espaços das publicações especializadas e em revistas, almanaques e jornais
populares. O próprio Dr. Koch, após ter identificado o agente etiológico do cólera,
dedicou-se ao assunto. Em 1890, o cientista alemão noticiou em Berlim, durante uma
sessão solene do Congresso Internacional de Tuberculose, o achado de uma droga
que curaria todos os fimatosos, evitando, porém, de compartilhar com seus pares a
fórmula da substância salvadora.
A esperança da ciência ter decifrado o último grande enigma proposto pela tísica
imediatamente ganhou manchetes na imprensa mundial. Repórteres e tuberculosos de
todas as partes do mundo dirigiram-se para a capital da Alemanha, desejosos de informa-
ções e cura. O primeiro médico britânico a se encontrar com Koch para conhecer detalhes
sobre a nova droga – batizada com o nome de tuberculina – foi Arthur Conan Doyle. O
clínico e escritor não só buscava esclarecimentos para compor um artigo jornalístico, mas
também foi averiguar o possível tratamento de sua esposa consuntiva. Pouco depois,
Doyle publicou na londrina Review of Reviews um artigo entusiasmado, exaltando a
figura do “domador da Peste Branca” e sua nova descoberta (Dubos, 1952:104).
O fracasso terapêutico da substância produzida por Koch foi retumbante. Ape-
sar do grande número de enfermos que receberam sucessivas aplicações da tuberculina,
nenhum dos pacientes conseguiu a melhora desejada. Koch, que havia sido alçado à
categoria de herói da modernidade médica e que chegou mesmo a ofuscar a figura de
Pasteur, transformou-se em pouco tempo em vilão da história científica, pecha que nem
mesmo o prêmio Nobel que lhe foi concedido em 1904 conseguiu minimizar.


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Dos últimos anos do século passado até a descoberta do primeiro quimioterápico
específico e eficiente para o tratamento da tuberculose, tornaram-se ainda mais freqüen-
tes as notícias do advento de drogas curativas da tísica. Muitas vezes o próprio meio
acadêmico se encarregou de veicular sensacionalistas informações sobre o assunto.
Cita-se como exemplo um livro publicado em 1899, de autoria do professor Albert
Landerer, no qual era garantida a cicatrização das cavernas pulmonares mediante apli-
cações de ácido cinâmico, apresentando-se como prova da eficiência do medicamento
uma relação detalhada de centenas de casos clínicos cujo desfecho era a cura total da
consunção. Três anos depois, foi a vez do Dr. Friedmann anunciar a existência de uma
vacina restauradora da saúde dos infectados, baseada em toxinas atenuadas e extraídas
de tartarugas infectadas (Isaacson, 1929).
As promessas de ‘curas assombrosas’ multiplicavam-se, sendo que, no contex-
to europeu, os clínicos espanhóis ganharam fama pelo número de vacinas apresenta-
das como curadoras da enfermidade pulmonar. O microbiologista Jaime Ferrán produziu
uma vacina tendo como base um conjunto de germes que ele denominou genericamente
bactérias alfa e com isto atraiu uma legião de enfermos para o seu sanatório, em Santander.
Em continuidade, o Instituto Ravetllat-Pla, sediado na cidade de Barcelona,
talvez tenha sido a organização que mais insistentemente propagandeou o valor cura-
tivo de suas drogas. Este Instituto fazia publicar anualmente extensos volumes com-
postos de depoimentos de tisiologistas e de antigos pectários que prometiam a ‘cura
radical’ da doença do peito, mediante o emprego de “hemo-antitoxinas e soros Ravetllat-
Pla” (Cendrero, 1942). Por fim, as promessas se somavam, revelando-se como meras
ilusões que motivavam os condenados à morte lenta a nutrir esperanças e consumir
tudo o que lhes era oferecido a preço de ouro.
Afastando-se da regra, algumas outras associações buscavam fugir das pro-
messas fáceis e sedutoras. Nos últimos anos do século XIX, a unidade parisiense do
Instituto Pasteur estabeleceu uma linha de pesquisas vocacionada à obtenção de uma
droga para combater a tísica, sob a responsabilidade de Ilya Metchnikoff, um cientista
russo que havia ganho fama na área da imunologia.
O Dr. Metchnikoff orientou suas pesquisas à busca de uma ‘brecha’ na formidá-
vel resistência do bacilo de Koch que, pelo revestimento ceroso, mostrava-se imune a
qualquer substância que não ameaçasse igualmente a vida do hospedeiro. Os esforços
do Instituto Pasteur, entretanto, pouco surtiram efeito, sendo as pesquisas interrompi-
das em 1916, ano em que ocorreu a morte do médico russo (Sokoloff, 1946).
A tentativa que maior êxito obteve no combate à consunção resultou na criação
da vacina BCG, obtida experimentalmente em 1906 e inoculada em crianças e adolescen-
tes a partir da década de 20. Entretanto, a droga – cuja denominação é composta pelas
iniciais que designam o bacilo biliado preparado pelos franceses Calmette e Guérin –
sofreu forte resistência pública.
Primeiramente, a imprensa encarregou-se de distorcer as propriedades da vaci-
na, anunciando-a como curativa da fimatose e não como simples solução preventiva,
composta de bacilos atenuados de tuberculose bovina. Em seguida, a aplicação do
preparado em cerca de 272 crianças da cidade de Lübeck provocou um terrível acidente


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que comprometeu os esforços de combate à tuberculose. Isto porque as culturas
microbianas não tinham sido convenientemente atenuadas, resultando na infecção ou
morte de pelo menos metade das crianças pretensamente imunizadas. Em conseqüên-
cia, uma campanha mundial foi ativada contra a BCG, fato que adiou por alguns anos o
emprego disseminado da substância protetora (Calmette, 1927; Bernard, 1939).
A impotência medicamentosa no tratamento dos consuntivos impôs como solu-
ção paliativa o dimensionamento clínico do regime dietético, do descanso e da
climatoterapia. Fórmulas antigas, registradas desde a aurora das civilizações ganharam
redobrado foro de socorro ideal aos enfraquecidos do peito.
Se no início do século XIX ainda prevalecia a orientação segundo a qual os
ambientes praiano e campestre ou mesmo a reclusão em quartos fechados constituíam-
se nos espaços apropriados para o tratamento dos tributários da Peste Branca, a partir
de meados daquela centúria, a medicina germânica tornou-se propulsora do movimento
que atestava ser as regiões montanhosas e de clima frio o contexto ideal para o trata-
mento dos infectados e dos fracos do peito, inaugurando a era sanatorial de isolamento
dos pectários.
Na abertura do século XX, a medicina alicerçada no método experimental de
Claude Bernard e na teoria microbiana de Louis Pasteur havia construído novas explica-
ções sobre a tuberculose e seus mecanismos de infecção. No mesmo período, as pro-
postas curativas da moléstia pulmonar multiplicavam-se em número, sem contudo che-
gar a uma fórmula eficiente, capaz de limitar o território da tuberculose.
O defasamento entre o acúmulo de conhecimentos fisiopatológicos ‘modernos’
e a fragilidade das respostas terapêuticas motivadas pela tísica impuseram uma dinâmi-
ca própria às ações sanitárias e aos comportamentos sociais, colocando em destaque
não só a doença como objeto de indagações científicas, mas também a imagem histori-
camente construída dos tributários da Peste Branca.

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