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O E
NIGMA
 
DA
  E
NFERMIDADE
As definições atuais que permitem a compreensão clínica-epidemiológica da
tísica são fruto de uma história marcada pela paixão e pela necessidade. Paixão porque
a persistência do enigma patológico se impôs como desafio que exigia respostas
clareadoras e, em conseqüência, o pretérito da medicina está repleto de interpretações
sobre os mecanismos da doença do peito e as possíveis decisões terapêuticas. A
necessidade de soluções eficientes para conter a disseminação da moléstia deve-se ao
fato de a tísica se constituir em uma das maiores ceifadoras de populações, pois, apesar


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da resistência humana ao bacilo, o ‘mal consuntivo’ mantém-se em estado endêmico
através de gerações, comprometendo assim sucessivas sociedades.
A comunidade médica, chamando a si a tarefa de decifrar o mistério, invariavel-
mente encontrou nos debates sobre a doença do peito motivos suficientes para discór-
dia, resultando em impasses que favoreceram a quebra da regra incentivadora da har-
monia entre os discípulos de Hipócrates. A série de respostas oferecidas ao desafio da
moléstia pulmonar colocou em confronto variadas linhas explicativas, aproximando
magia e religião, medicina oficial e tradições populares que, no final, anunciavam menos
a positividade do saber que a complexidade da doença que insiste em ocultar alguns de
seus mecanismos de funcionamento.
Infecção tão antiga quanto a humanidade, é provável que os primeiros
humanídeos já padecessem com a tísica, mesmo que a existência de pequenos grupos
isolados inibisse a difusão maciça da moléstia. Com a ocorrência da Revolução do
Neolítico, os agrupamentos humanos cresceram em número e a domesticação de algu-
mas espécies animais ampliou as possibilidades de contágio.
Apesar da precariedade de informações acerca da tuberculose no período ante-
rior ao momento hipocrático, sabe-se que a doença esteve presente entre os egípcios,
encontrando-se indícios do Mal de Pott em partes de corpos mumificados e com data
aproximada de 6.000 anos. Aventa-se mesmo a hipótese de que, no último milênio antes
de Cristo, teria existido uma espécie de sanatório na região do delta do rio Nilo. Esta
suposição, anotada em diversos relatórios arqueológicos, encontra apoio na identifica-
ção de restos de múmias infectadas, concentrados espacialmente nos terrenos escava-
dos (Dubos, 1952).
A disseminação da moléstia fez com que, tanto no Egito quanto na Índia, surgis-
sem registros que cobravam prudência redobrada aos ‘médicos’ no tratamento das
vítimas da Peste Branca. Para não afetar a reputação da linhagem de curandeiros, acon-
selhava-se que os responsáveis pela assistência aos doentes atendessem apenas os
infectados que se encontrassem nas fases iniciais da enfermidade, advertindo-se que
os pectários em estágio avançado deveriam ser evitados, já que a morte do paciente era
considerada como desenlace certo.
Apesar do empenho de vários povos da Antigüidade Oriental em ampliar o
conhecimento sobre a tísica, coube aos gregos a descrição mais apurada da doença
do peito, sendo que os textos atribuídos a Hipócrates constituem-se no melhor reper-
tório de informações sobre o assunto. Fruto de uma ‘escola médica’ que buscava
antes de mais nada registrar as observações sobre os fenômenos da natureza, os
escritos ligados ao nome do Mestre de Cós foram os que com maior minuciosidade
entenderam a patologia dos pulmões, afastando-a do domínio exclusivo dos princípios
religiosos e definindo-a como ‘a mais difícil de curar e a mais fatal’ das doenças
conhecidas no período.
Os termos ‘consunção’ e ‘tísica’ – importados da Índia, significam emagrecimento
ou depauperação do corpo –, além da categoria ‘fimata’, foram compreendidos pela acade-
mia hipocrática como sinônimos de ulceração ou supuração dos pulmões. A doença era
explicada como conseqüência de três outras patologias orgânicas: a pleurite purulenta, a
hemoptise e, por fim, a pneumonia, quando esta tomava um curso diferente do habitual.


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Apesar dos gregos confundirem a tuberculose com outras expressões patológi-
cas que afetavam o aparelho respiratório, as anotações hipocráticas estabeleceram os
fundamentos do raciocínio clínico sobre a tísica. Estes princípios persistiram, quase
inalterados, até o advento dos tempos modernos, confirmando o grau de sofisticação
alcançado pela medicina da Antigüidade.
No Capítulo XI do Livro Primeiro atribuído a Hipócrates, observa-se, por exem-
plo, um instante significativo da descrição grega sobre a doença pulmonar. Neste texto,
as causas apontadas para a ocorrência da tísica consistem sobretudo quando, na ocor-
rência da pneumonia, o doente não elimina catarro que, permanecendo no pulmão,
torna-se matéria pútrida e deletéria, sufocando o paciente e comprometendo o funcio-
namento de todo o organismo (1911:198).
Na seqüência de seus escritos, o esculápio buscou agregar novos elementos às
suas observações, sem no entanto transformar o esquema inicial proposto. No Capítulo
XII do mesmo Livro, Hipócrates acrescentou que o muco produzido pelo enfermo pode
eventualmente descer do nariz e da laringe, atingir os pulmões e também impregnar
outras regiões do tórax, inclusive o estômago. A tosse que se inicia fraca, paulatina-
mente ganharia intensidade, acompanhada de febre prolongada e a parcela eliminada
do catarro mostrar-se-ia densa e pútrida. O apetite desapareceria e o doente viria a
morrer em conseqüência do pulmão ter se tornado inteiramente deteriorado ou ainda
devido aos distúrbios digestivos que, acreditava-se, era marca definidora da tuberculo-
se terminal.
O processo mórbido comandado pela tísica poderia levar inclusive à ruptura de
uma veia, anunciada pelo aparecimento de laivos sangüíneos no esputo. Tanto quanto
o catarro, parte do sangue alojar-se-ia nos pulmões, contribuindo para a putrefação do
mesmo. Nesta situação, Hipócrates advertiu que o doente deveria buscar socorro médi-
co e permanecer de cama por longos períodos. Caso não o fizesse, a quantidade de
sangue perdido comprometeria a vida do enfermo que tornar-se-ia emaciado e a sua
cabeça “diminuiria de tamanho” (1911:198), chegando a óbito em decorrência da debili-
dade orgânica causada pela escassez de sangue no organismo.
A partir dessas constatações, os médicos gregos estabeleceram como
sintomatologia básica da consunção a existência de sons anormais produzidos no
peito, dor torácica intensa, tosse freqüente, escarro grosso e purulento, respiração
trabalhosa, rouquidão da voz, rubor facial e ‘empelotamento da língua’. Acrescentaram
ainda que o inchamento dos pés e joelhos, a profusão de suores, as unhas curvas e a
diarréia intensa constituíam-se em sinais indicativos da proximidade da morte para o
doente do peito.
A medicina romana pouco acrescentou às propostas gregas. Ao contrário, acre-
dita-se que, tentando simplificar o entendimento sobre a patologia, os latinos distorceram
os ensinamentos hipocráticos. Nesta situação destacou-se o esculápio Galeno que,
buscando explicações para a tísica, concluiu que a ‘úlcera pulmonar’ era produzida por
meios mecânicos ou traumáticos que resultavam na laceração do tecido dos pulmões. O
ferimento dava origem a uma inflamação que, se não curada em poucos dias, configura-
va-se como uma tísica.


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A multiplicidade das discussões sobre a etiologia da tuberculose na parte final
da Antigüidade pareava com a variedade de propostas terapêuticas existentes. Nos
escritos de Plínio, o Jovem, foram arrolados os principais remédios empregados pelos
greco-romanos contra a tísica, sabendo-se que para a cura da tosse era recomendada a
ingestão de pulmão de lobo cozido em vinho, acompanhado de uma bebida composta
de bile de urso, saliva de cavalo e mel.
Para os enfermos que produziam escarro sangüíneo, indicava-se carne de lebre
e de caracol e a combinação de pó de chifre de cervo e um pouco de terra da ilha de
Samos diluídos em vinho de murta. O leite, especialmente o de origem bovina,
complementava qualquer prescrição medicamentosa, estando presente em todas reco-
mendações clínicas, desde as primeiras observações registradas sobre a mortal enfer-
midade (Castiglioni, 1933).
Oferecendo complemento a estas terapêuticas, os médicos gregos e romanos
prescreviam ainda a aplicação de bálsamos elaborados com substâncias extraídas do
pinho e da mirra e também chás de vegetais considerados específicos para os doentes
do peito, como licorice, violeta, hissopo e pulmonária. Além disso, alguns derivados
minerais ganharam créditos curativos, destacando-se, entre outros, o arsênico e o en-
xofre, aconselhando-se também a recorrência a eméticos e purgativos e a prática conti-
nuada de sangrias.
Ainda no tempo de Plínio, o tratamento dos pectários encontrava como regra
geral o apelo à climatoterapia. Na Roma Imperial, por exemplo, era comum o envio dos
tuberculosos para regiões caracterizadas pelo clima quente e seco, especialmente a
Sicília e o Egito, medida que era geralmente combinada com viagens marítimas que
demandavam longo período de tempo. Atendendo a estes princípios, Cícero partiu
gravemente enfermo de Roma, permanecendo dois anos em excursão que o levou até o
continente asiático. De regresso à capital do Império, o orador e político apresentou-se
curado, fazendo alarde das qualidades terapêuticas das peregrinações para o Oriente.
No período medieval, as idéias e o receituário greco-latinos ganharam a dimen-
são de verdades sacramentadas, cabendo especialmente aos árabes as contribuições
acerca da descrição do aparelho respiratório, inclusive sobre a circulação sangüínea
nos ‘vasos pulmonares’. Além disso, os muçulmanos trouxeram para a Europa os co-
nhecimentos médicos produzidos na Índia, na Síria e na Pérsia, oferecendo descrições
detalhadas sobre a tuberculose intestinal, fato que, como vários outros ensinamentos,
passou despercebido pela maior parte dos esculápios cristãos.
Paralelamente à tradição hipocrática, as concepções religiosas cristãs ganharam
peso, ensinando que as moléstias eram produto da vontade divina, fato que permitiu
que as enfermidades, inclusive a tísica, fossem objetos de curas milagrosas. O ‘mal das
escrófulas’ – mais tarde identificado como adenite tuberculosa – contou durante sécu-
los com o simples toque das mãos reais como principal forma de cura, ganhando popu-
laridade na França e na Inglaterra. A persistência da tradição desde o tempo do rei
Clóvis até o século XVIII chamou a atenção dos historiadores, sendo que Marc Bloch
(1983) foi o pioneiro em reconhecer o caráter simbólico imputado à enfermidade e aos
‘reis taumaturgos’.


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No contexto da Baixa Idade Média, a Escola de Salerno tornou-se responsável
pela renovação do ensino e da prática médica européia, sendo que o ecletismo das
idéias assumidas por esta Escola trouxe limitadas novidades sobre o problema repre-
sentado pela tísica. Mesmo assim, coube aos salernitanos adotarem alguns
ensinamentos das clínicas muçulmana e judaica, que até então tinham sido rejeitados
pelos europeus, tais como a dieta centrada no leite humano e alguns itens da flora
oriental, inclusive narcóticos para aliviar os padecimentos dos fimatosos mais graves.
Em um texto produzido em Salerno e datado dos últimos séculos medievais, pouco foi
discutido sobre a doença consuntiva, repetindo-se praticamente as prescrições legadas
da Antigüidade Clássica, intercalando-as com as propostas terapêuticas assumidas
pelos judeus e pelos árabes (Regola, 1975).
Um dos motivos possíveis para a explicação do escasso interesse pela tubercu-
lose demonstrado durante a Idade Média deve-se ao fato de ter ocorrido, naquela
época, um retrocesso quantitativo de casos de consunção, conseqüente ao declínio da
vida urbana na Europa. Entretanto, a partir do século XV, a tísica novamente se mostrou
alarmante, disseminando-se entre os povos europeus. A interpretação segundo a qual
o fenômeno deveu-se exclusivamente ao ‘renascimento’ das cidades parece não con-
vencer os estudiosos, que preferem conjugar o incremento do número dos pectários
com a diminuição da comunidade de hansenianos no contexto europeu.
O fato da tuberculose e da lepra terem como agentes etiológicos micróbios que
pertencem ao mesmo gênero biológico permite a suposição de que ambas as
micobactérias estabeleceram uma relação antagonística pela competição imunológica.
Em outras palavras, advoga-se que a infecção tuberculosa inibe a ocorrência da
hanseníase, fenômeno que explicaria a alteração do perfil epidemiológico europeu, ocor-
rida nos momentos derradeiros da Idade Média, quando coincidiu o aumento de casos
de tísica com o decréscimo da colônia dos leprosos (Grmek, 1983).
Contra tal hipótese, alguns elementos foram reunidos, incluindo referências
medievais sobre indivíduos portadores de ambas as moléstias e também a existência de
uma forma intermediária das patologias, denominada lepra tuberculóide, e restrita à
epiderme humana. Alguns pesquisadores acrescentam ainda que a involução do núme-
ro de lazarentos foi um fenômeno restrito geograficamente, assinalado apenas em algu-
mas regiões européias e que portanto torna-se arriscado generalizá-lo para todo o
continente (Sournia, 1986).
De qualquer forma, a partir dos séculos XV e XVI, a tísica começou a ganhar uma
dimensão inquietante no cenário europeu, mais pelo número de óbitos que causava
periodicamente do que pela constância e generalização das reações sociais de exclusão
dos infectados, pois naquela época a doença era de escasso conhecimento popular,
sendo que a morte lenta dos pectários dissimulava o império da doença.
Em conseqüência, o período moderno foi pautado pelas tentativas médicas de
expandir o conhecimento sobre a patologia pulmonar. Dentre as propostas articuladas
naquele momento, destacam-se os posicionamentos do médico e humanista italiano
Girolamo Fracastoro que, no ano de 1546, opôs-se ao princípio hipocrático que ensina-
va que “um tísico nasce de outro tísico”. Na seqüência, deve-se a Fracastoro a menção


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– herdada da medicina árabe – de que a tuberculose era transmitida por “micropartículas”
veiculadas pelas correntes aéreas e que se depositavam em roupas e outros objetos
(Castiglioni, 1947:548, v.1).
Foi no século XVII e sobretudo na centúria seguinte que anatomistas e
fisiologistas conquistaram melhor entendimento sobre a tísica. A aplicação dos princí-
pios cartesianos no campo do saber, que mais tarde seria definido como área de compe-
tência da biologia, permitiu que o complexo corpóreo humano fosse concebido como
um conjunto articulado de mecanismos. A concepção do homem-máquina, por sua vez,
estimulou as aventuras laboratoriais, incentivando o afloramento de perspectivas ino-
vadoras sobre a doença que corroía o peito dos consuntivos.
A importância do cálculo matemático, refletindo os princípios fundamentadores
da física clássica, orientou a comunidade médica para a atuação experimental. Entre
Descartes e Bayle, os pulmões normais e os afetados foram meticulosamente indaga-
dos, medidos, pesados, avaliados pela cor, pelo cheiro e pela consistência. Nesta cirur-
gia, a história das ciências médicas registra os nomes de uma legião de estudiosos que
estabeleceram as bases da fisiologia respiratória e identificaram os tubérculos e as
cavernas pulmonares.
Paulatinamente, nos últimos dois séculos da história moderna, o saber clínico
sobre a tísica foi sendo reelaborado. Ainda no tempo de Descartes, o francês Franciscus
Sylvius descreveu pela primeira vez a existência de pequenas granulações nos pulmões
contaminados que, segundo esse médico, quando ganhavam aspecto purulento, faziam
surgir cavidades que, pela dimensão e tamanho, anunciavam a gravidade da moléstia.
Entretanto, Sylvius manteve-se parcialmente fiel aos ensinamentos hipocráticos, con-
cluindo que os tubérculos nada mais eram que úlceras pulmonares, conseqüentes ao
derramamento de substância sangüínea no órgão afetado (Bariéty, 1963).
Poucos anos depois, em 1689, coube ao britânico Robert Morton estender as
conclusões de Sylvius, reiterando que a presença dos tubérculos necessariamente
precediam a ulceração pulmonar. A nova ordem perceptiva da moléstia exigiu que seus
propugnadores rebatizassem a patologia que desde os finais do século XVII passou a
ser oficialmente indicada nos alfarrábios médicos por meio da palavra ‘consunção’,
caindo no esquecimento o legado helênico de denominar o definhamento respiratório
pela designação de ‘fimatose’.
A ampliação do conhecimento sobre a Peste Branca, no entanto, não foi acom-
panhada pelo estabelecimento de propostas terapêuticas eficientes. A medicina da
modernidade clássica dirigiu seus esforços especialmente para a organização de um
vasto quadro de signos diagnósticos e prognósticos que, se atestavam a precisão
das observações realizadas, também promoviam uma comprometedora confusão en-
tre os sintomas e as causas da doença. O catarro e a hemoptise ainda eram apresen-
tados como as principais causas da moléstia do peito, assim como o ‘estado moral’
dos pectários era interpretado como motivo concorrente para o enfermamento.
Ao terminar o ‘Século das Luzes’, os médicos ainda faziam largo uso da farmácia da
Antigüidade, reproduzindo sistematicamente as estratégias terapêuticas aconselha-
das por Hipócrates, Areteus e Galeno, acentuando também a importância do emprego


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do leite humano como elemento fundamental para a cura dos consuntivos. Não eram
poucos, pois, os médicos que aconselhavam os tísicos mais abastados a se fazerem
acompanhar a todo instante por uma nutriz, para sempre que possível consumir a im-
prescindível substância humana. As poucas novidades que eram apresentadas como
salvadoras dos pectários apareciam recobertas de segredos, sendo exemplar a atuação
do médico e revolucionário Jean-Paul Marat que, produzindo e receitando sua ‘água
antipielmônica’, granjeou fortuna e prestígio popular.
A ausência de drogas curativas impôs à medicina daquela época a climatoterapia
como o principal recurso de tratamento dos enfermos. Não mais os climas secos eram
aconselhados aos pectários, mas sim os ares amenos do campo, onde juntamente com
o repouso e alimentação rica em carboidratos, também eram prescritas longas cavalga-
das. A chancela clínica ao princípio da equitação como estratégia dinamizadora do
aparelho respiratório difundiu-se pela Europa, exigindo que os fimatosos, em qualquer
estágio da doença, preenchessem várias horas do dia com exercícios eqüestres e, se
impossibilitados para esta tarefa, ficassem confinados em cadeiras de balanço.
Nas últimas décadas do século XVIII, a reorganização médica que se iniciava
promoveu a constituição do saber clínico que permitiu a afirmação de um ‘olhar’ inova-
dor sobre a doença e os doentes, favorecendo com isto o florescimento de novas
percepções sobre a tuberculose. O nascente projeto clínico, nas palavras de Michel
Foucault (1977), orientou-se pela “espacialização” da enfermidade. A pergunta “o
que você sente?” dirigida ao paciente, foi substituída por “onde dói?”, firmando o
posicionamento que buscava surpreender a patologia no corpo enfermo e tratá-la
segundo um quadro nosológico que se guiava pelas possíveis características da
moléstia, prevendo a evolução do caso e instruindo o clínico sobre as opções terapêu-
ticas disponíveis.
A intenção de estabelecer o ‘lugar natural’ da tuberculose no conjunto das
patologias exigiu da comunidade hipocrática um redobrado esforço na tarefa de quali-
ficação dos sinais e dos sintomas mórbidos. As enfermarias hospitalares transforma-
ram-se no espaço onde o olhar médico deveria dominar absoluto, estendendo-se tam-
bém para a sala de autópsia. A clínica fundamentada na anatomia e na patologia assu-
miu o papel de promotora da medicina moderna que, mais do que nunca, buscou conhe-
cer os mecanismos específicos do mal do peito.
O hospital despontou no início do século XIX como o local propício para o
desvelamento da naturalidade da doença. A sensibilidade clínica, guiada pela lógica
iluminista, impunha a regularidade das observações que se definiam como experiência
coletiva. Os segredos do corpo enfermo protegido pela opacidade dos órgãos internos
ditava a necessidade de uma conduta médica diferenciada.
O código perceptivo da clínica tinha como nova regra o acúmulo e a sobreposição
dos olhares. Gaspar Bayle e Théophile Laennec não só observaram minuciosamente
milhares de tísicos acamados, mas também fizeram-se acompanhar nas enfermarias por
grupos de estudantes, para que cada um deles examinasse os adoentados e, após a
discussão do caso clínico, aflorasse do conjunto de anotações, diagnóstico e prognós-
tico únicos e coerentes ( Laín Entralgo, 1954).


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O abandono do esquema que ensinava que a coincidência dos sintomas definia
a identidade da patologia permitiu que Bayle reconhecesse a singularidade biológica da
consunção, diferenciando-a de outras entidades mórbidas anunciadas pelo estado fe-
bril. Apoiado no método anatomopatológico, coube a este clínico destacar a “natureza
essencial” da tuberculose, definindo-a como “toda lesão pulmonar produzida por uma
ulceração que, em geral, leva à morte” (Entralgo, 1954:430-431), descrevendo os sinto-
mas clínicos e a aparência pulmonar em cada estágio do alastramento da enfermidade.
Laennec, por sua vez, rejeitou o ensinamento de Bayle sobre a existência de seis
espécies de tísica, defendendo a unicidade da doença e esta como resultado de uma
inflamação crônica que conduzia à lenta supuração dos tecidos pulmonares.
Tanto Bayle quanto Laennec foram contestados por uma considerável par-
cela da comunidade médica européia, especialmente por François Broussais e seus
discípulos, que julgavam a tísica como conseqüência da irritação dos tecidos, causa-
da por gastroenterite.
Neste mesmo período, Laennec chamava a atenção de seus pares por ter sido o
primeiro facultativo a utilizar o estetoscópio no cotidiano da clínica. A ampliação dos
sons produzidos pelo trabalho pulmonar permitiu que fosse dado um passo à frente no
entendimento do processo tuberculoso. O reconhecimento da ‘música do corpo enfer-
mo’ consentiu que novas luzes fossem lançadas sobre a opacidade do órgão compro-
metido, anunciando com maior antecedência os efeitos da moléstia sobre o aparelho
respiratório (Guillaume, 1986).
A indisfarçável contrariedade que despertaram as idéias de Laennec e também o
uso do ‘indecoroso brinquedo’ para ouvir o corpo ganhou maior intensidade ainda
pelo fato de Laennec ampliar o coro das vozes que afirmavam ser a consunção um ‘mal
incurável’ e portanto destituído de qualquer solução medicamentosa.
O niilismo terapêutico era revelado em um momento no qual a Peste Branca
abatia assustadoramente a sociedade européia e quando também se esboçava a organi-
zação de uma lucrativa indústria de remédios que tinha na exploração da tuberculose
uma formidável fonte de enriquecimento.
Contra Laennec – que se contaminara com o bacilo da tísica possivelmente
durante a dissecação de cadáveres infectados – conjugaram-se os aliados de Broussais
que denunciaram o aperfeiçoador do estetoscópio como um ‘fimatoso mistificador’, já que,
contrariando suas próprias recomendações clínicas, periodicamente recorria ao trata-
mento climático nas costas do norte da Inglaterra e, ao morrer, tinha em seu quarto um
grande sortimento de plantas marinhas, cujas essências eram consideradas remédio
apropriado dos tuberculosos.
A controvérsia instaurada por Laennec e Broussais foi reafirmada pelos seus
discípulos, incentivando os debates sobre a tísica, durante toda a primeira metade do
século XIX. Afinal, questionava-se, a tuberculose era conseqüência da inflamação
ou da irritação dos órgãos? Haveria remédios para o tratamento da doença? A en-
fermidade era hereditária ou dependia da disposição constitucional do indivíduo?
Existiria o contágio tísico? Qual seria o agente infeccioso: os miasmas ou o indivíduo
previamente contaminado?


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No período em que se consolidavam as premissas da medicina clínica, os
anatomopatologistas buscavam soluções para estes e para muitos outros enigmas
centrados na consunção. A recorrência ao microscópio sugeria algumas possíveis
respostas. A patologia celular inaugurada por Robert Virchow lançava novos focos de
celeuma, sustentando a teoria segundo a qual os tubérculos e a matéria caseosa encon-
trada nos pulmões afetados correspondiam a distintos elementos, fomentando ainda
mais os confrontos acadêmicos.
A grande dúvida que alimentava os temores coletivos do século passado resi-
dia no questionamento sobre o eventual caráter contagioso da consunção. Somente no
ano de 1865, por meio das experiências realizadas por Jean Antoine Villemin foi possível
constatar a condição virulenta e inoculável da moléstia que, como já se tinha noção,
não só podia afetar os pulmões, mas outras regiões do corpo humano.
Os experimentos controlados por Villemin consistiram na inoculação em diver-
sas espécies de cobaias sadias de sangue, esputo e matéria caseosa extraídas de
infectados, resultando no adoecimento de todos os animais utilizados no laboratório. A
conclusão a que chegou Villemin foi que a tuberculose era uma doença contagiosa e
dependente de um agente causal específico, uma forma de vida “infinitamente peque-
na”, como pouco antes havia pontificado o químico Louis Pasteur (Delarue, 1972:12).
Os trabalhos assinados por Villemin e também os de Pasteur foram aceitos reti-
centemente pela comunidade clínica e pelos higienistas. Afinal, a doutrina miasmática e
a concepção sobre a hereditariedade consuntiva contavam com a legalidade da tradi-
ção e, até o encerramento do século XIX, a idéia sobre a veiculação microbiana das
enfermidades era confirmada por um grupo restrito de médicos. Para a maior parte dos
estudiosos, o papel desempenhado pelos micróbios na ocorrência das enfermidades
era apenas uma hipótese pouco convincente ou uma condição secundária no
desencadeamento das patologias coletivas (Léonard, 1986).
Em 1870, E.J. Woillez, médico especialista em moléstias pulmonares, preferiu
anotar em seu Dictionnaire que a explicação básica para a ocorrência da moléstia do
peito era a presença de tubérculos acinzentados nos pulmões, acrescentando que
Villemin havia realizado pesquisas pouco conclusivas sobre o tema.
Apesar das reações cautelosas, inúmeros pesquisadores – nos quais se incluía
o próprio Pasteur – empenharam esforços no reconhecimento do micróbio responsável
pela corrupção pulmonar, cabendo ao alemão Robert Koch o pioneirismo na identifica-
ção do germe da Peste Branca. Tendo ganho fama desde 1876, quando obteve a cultura
pura do bacilo da antraz, Koch recebeu apoio do Estado germânico para desenvolver
suas pesquisas, sendo que em março de 1882, o bacteriologista leu perante a Sociedade
de Fisiologia de Berlim uma dissertação de sua autoria (1981) em que, obedecendo ao
encaminhamento com base na doutrina positivista, comunicava ter descoberto o “agente
causal” da tuberculose.
Nesse texto, Koch declarou-se continuador das pesquisas de Villemin, infor-
mando que o isolamento do micróbio da consunção consistia numa tarefa urgente e
humanitária, já que um sétimo dos óbitos registrados na Europa devia-se à infecção
pulmonar, acrescentando ainda que não menos de um terço da comunidade dos traba-


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lhadores adultos apresentava fortes indícios de contaminação pulmonar. Assim, graças
a pequenos ajustes nas técnicas laboratoriais vigentes no período, Koch tornou-se o
primeiro cientista a visualizar pelo microscópio o germe veiculador da tísica, descrito
como um “pequeno bastonete” tingido pelo “belo azul” do corante empregado nos
procedimentos da pesquisa.
Identificado o micróbio, Koch procedeu ao exame de tecidos e catarro de indiví-
duos contaminados e também de algumas variedades animais que apresentavam infec-
ção tuberculosa. A constatação da presença do germe em todos os seres tísicos permi-
tiu ao médico realizar a cultura laboratorial do bacilo e a inoculação do material em
centenas de cobaias, onde se incluíam desde hamsters e coelhos, até macacos, cães,
gatos e galinhas.
A comprovação experimental do caráter infecto-contagioso do bacilo permitiu
ainda que o pesquisador alemão atestasse a unicidade das patologias que até aquele
instante a medicina havia teimado em apresentar como moléstias diferenciadas. Ofere-
cendo confirmação científica à hipótese sugerida por Laennec, Robert Koch asseverou
que a tísica, a bronquite e a pneumonia caseosas, assim como as tuberculoses intesti-
nal, ganglionar e miliar correspondiam a expressões de uma mesma infecção, alvoroçan-
do ainda mais os centros de debates hipocráticos.
Em coerência com estes princípios, o bacteriologista buscou aproximar a medici-
na laboratorial das práticas higienistas, sugerindo providências limitadoras da dissemi-
nação da doença consuntiva no contexto social.
Segundo Koch, a tuberculose era uma patologia causada exclusivamente pelo
bacilo que recebeu o seu nome e que atingia tanto os homens quanto os animais, sendo
que o contágio era atestado como resultado da eliminação do micróbio do corpo enfer-
mo, por meio do espirro e do catarro. A permanência da substância em gotículas que
flutuam no ar ou o seu depósito em objetos e na poeira consistiam em perigo iminente,
pois assim ampliavam-se as oportunidades de infecção dos sadios. Apesar do caráter
contagioso da Peste Branca, Koch foi cauteloso em desqualificar a condição hereditária
da enfermidade, sugerindo a necessidade de novos estudos sobre o fenômeno.
A definição de um bacilo como agente responsável pela abrangência coletiva da
moléstia pulmonar coagiu a Higiene Pública a analisar a consunção como moléstia que
poderia ser controlada por intermédio do bloqueio das fontes produtoras do material
contaminante. Com isto, desde o final do século XIX, ganharam maior consistência as
regras sanitárias que cobravam a desinfecção dos objetos pessoais e do catarro dos
enfermos, desdobrando-se na ostensiva vigilância das pessoas e dos animais fimatosos.
A contínua reiteração dos postulados kochianos, entretanto, foi acolhida com
incredulidade por uma significativa parcela da corporação dos esculápios, sendo co-
mum as vozes clínicas que, até meados do século XX, negavam a exclusividade da
veiculação microbiana da Peste Branca.
Exemplar foi o relativo sucesso das idéias de Auguste Lumière (1931) que,
escudado no prestígio angariado por ser irmão do inventor do cinema, elaborou uma
longa série de textos onde afirmava que a tuberculose consistia em uma enfermidade
fundamentalmente hereditária, sendo o contágio um acidente secundário e desprovido
de significado estatístico.


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As pesquisas que se sucederam ampliaram ainda mais o conhecimento fisio-
patológico sobre a moléstia que, desde o encerramento da centúria passada, ganhou a
denominação oficial de tuberculose, convertendo-se na personagem central de uma
área de especialização médica.
O emprego do Raio X pela medicina inaugurou novos recursos para a averigua-
ção clínica do corpo infectado, tornando-se corriqueiro seu uso pelos tisiologistas a

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