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AQUEL
 
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NTONIO

A
 
VIDA
 
NA
 
ESTAÇÃO
 
DE
 
CURA
Após permanecer 21 meses isolada no Sanatório Ruy Dória, em janeiro de 1945,
a consuntiva Raquel Pereira foi forçada a abandonar o exílio hospitalar pelo fato de sua
família não dispor de recursos para custear por mais tempo seu internamento na casa de
saúde joseense. Nesta situação, a angustiosa experiência de visitar sua cidade natal e
de se perceber marginalizada pelo seu antigo círculo de amizades somou-se ao namoro
firme com um enfermeiro que já havia sido tuberculoso, resultando na decisão de per-
manência da infectada em São José dos Campos, onde passou a repartir residência com
uma amiga, também tributária da Peste Branca.


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Raquel permaneceu em tratamento com o Dr. Ruy Dória por mais três anos,
alcançando ‘cura clínica’ em 1948, quando contava 24 anos de idade, cinco dos quais
vividos na estância sanitária. Durante todo este tempo, a fimatosa contou com o apoio
perseverante de Antonio, seu namorado e enfermeiro que, treinado nos serviços hospi-
talares, tornou-se uma espécie de tisiologista improvisado, ensinando a pectária a evi-
tar quaisquer excessos, incluindo aí desde trocas de beijos até caminhadas desneces-
sárias pelo terreno da estação climatoterápica.
O discreto rompimento dos elos familiares tornou-se um fator coadjuvante no
reforço dos laços sentimentais que uniam Raquel e Antonio. Quando o Dr. Dória decla-
rou a depoente curada das lesões pulmonares, o casal imediatamente marcou a data do
casamento, o qual se realizou na igreja matriz de Aparecida do Norte, momento no qual
os progenitores dos nubentes se encontraram pela vez primeira.
“Eu me readaptei à sociedade porque não sai daqui”. Com esta frase, Raquel
deixou claro que ela e o marido estavam conscientes de que seria praticamente impos-
sível encetar a vida a dois longe do ambiente de concentração dos tuberculosos. As
‘cidades enfermas’ ofereciam o indispensável sentimento de segurança para os fracos
do peito que, além da disponibilidade de serviços médicos especializados, esperavam
compartilhar de um contexto social em que a intensidade dos estigmas contra os
infectados fosse bem menor do que em outras regiões do país.
O casal enraizou-se na estação de cura de São José dos Campos. Para Raquel e
seu marido, a felicidade só se concretizaria quando a união frutificasse em filhos, de
nada adiantando os conselhos hipocráticos que desestimulavam a gravidez no grupo
de mulheres convalescentes. Em continuidade, menos de um ano após o enlace matri-
monial, Raquel deu à luz uma criança que sobreviveu apenas alguns poucos dias,
acidente que abriu as portas para que a frustrada mãe entendesse o óbito do primogênito
como terrível legado da enfermidade pulmonar.
Entre o medo de gerar uma criança fraca ou mesmo consuntiva e frustrar o desejo
do casal em povoar a casa de crianças, Raquel preferiu arriscar uma nova gravidez , fato
que ocorreu poucos meses depois do seu primeiro parto. Desta vez, Antonio se encarre-
gou de ministrar um tratamento paralelo ao que o Dr. Ruy Dória havia indicado à gestante,
aplicando-lhe doses diárias de soro intravenoso, assim como drogas vitamínicas que,
segundo Raquel, foram responsáveis pelo nascimento, em maio de 1950, de um “menino
forte” e, nos anos seguintes, pela chegada de mais três crianças robustas.
Apesar da concretização do intento de ser mãe, Raquel nutria uma guerra íntima
e solitária contra o fantasma da Peste Branca. A suposição de que o tisiologista que
atestara sua cura houvesse se enganado ou que ela tivesse uma recidiva do Grande Mal
fazia da depoente uma mulher sempre cautelosa no trato de seus rebentos:
Quando nasceram meus filhos eu sofria muito porque tinha uma insegurança
muito grande. Eu tinha medo de beijar meus filhos no rosto. Eu achava que, de
repente, eu poderia ser uma tuberculosa crônica daquelas que nem sente que está
doente. Isto me aterrorizava, eu tinha medo de infectar minhas crianças...
A mulher que desconfiava de seu próprio estado de saúde sofria calada, não
compartilhando seus receios nem mesmo com o marido, justificando seu laconismo


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como medida para “não impressionar” o enfermeiro. Para a ex-consuntiva, qualquer
evento que lembrasse a possibilidade de reinfecção mostrava-se como anfiteatro da
tragédia, ampliando suas angústias e exigindo estratégicas dissimulações:
Quando eu pegava um resfriado, uma gripe que me fazia tossir muito, eu me
isolava das crianças. Eu tinha um medo medonho (...). Quando eu tinha tosse de
gripe, eu deixava meus filhos num quarto e eu me isolava num cômodo localiza-
do no fundo do quintal. Quando me dava ataque de tosse, eu punha um cobertor
na boca e tossia escondido, para o meu marido não ouvir que eu estava tossindo.
Eu tinha medo que o Antonio ficasse pensando que eu estivesse doente outra vez.
O trauma resultante da experiência com a fraqueza pulmonar e seus desdobra-
mentos fazia com que Raquel acalentasse uma percepção contraditória da ameaça infeccio-
sa. Assim, no momento em que já era mãe de três filhos e que a estreptomicina era
largamente utilizada pela medicina nacional, a depoente acreditava que a tuberculose
havia ganho o contorno de ‘doença benigna porque facilmente curável’. Ao mesmo
tempo, entretanto, Raquel confidenciou que selou um pacto com o Deus católico: se o
Senhor a preservasse da reinfecção até que o mais jovem de seus rebentos atingisse a
idade de 10 anos, ela não mais lutaria contra a Peste, entregando-se passivamente à
doença, caso a moléstia voltasse a se instalar em seu organismo.
Em nenhum momento a prole de Raquel e Antonio denunciou sinais de contágio
kochiano. A vacinação e as seguidas revacinações das crianças com BCG e a recorrência
a clínicos gerais e especialistas no tratamento dos pulmões, nas ocasiões em que os
filhos apresentassem qualquer alteração da saúde, foram as armas utilizadas pelos pais
que temiam que a ‘bruxa seca’ atacasse seus frutos.



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