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D
ONATO

A
 
VIDA
 
NO
 
ISOLAMENTO
O Hospital São Luiz Gonzaga entrou em funcionamento a partir da manhã do dia
3 de julho de 1932. Quatro dias depois, um homem de estatura mediana e com peso
pouco abaixo do ideal bateu à porta do sanatório, buscando tratamento para a tubercu-


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lose fibro-caseosa que se disseminara pelos seus dois pulmões e que o atormentava há
“um ano e pouco”.
Admitido como hóspede indigente do nosocômio, o pectário deixou os dados
necessários para o registro: seu nome era Donato Visosky (P. 738; 3466; 6673; 11886),
nascido na Lituânia, no ano de 1902. Depois de perder o pai na Grande Guerra e ele
próprio ter quase morrido durante a pandemia gripal de 1918, o paciente migrou com
parte de seu clã para o Brasil, encontrando emprego de colono numa fazenda localizada
no oeste bandeirante. Foi no eito que pela primeira vez Donato percebeu os sintomas
iniciais da tísica:
depois de estar bastante suado pelo trabalho de enxada, apanhou chuva. Come-
çou a sentir dores em todo o torax, tossindo muito com escarro que era a principio
branco e depois amarelo. Teve uma hemoptise; saiu-lhe pela boca sangue de côr
vermelha; acha que saiu mais ou menos um litro de sangue. Emagreceu gradual-
mente, sentindo tambem suores nocturnos.
A fraqueza que se instalara no corpo enfermo exigiu que o imigrante suspendes-
se suas atividades no campo e rumasse para a cidade de São Paulo, onde encontrou
assistência na 5
a
 Enfermaria da unidade central da Santa Casa de Misericórdia, pavilhão
onde eram isolados os pacientes portadores de patologias infecto-contagiosas. O
tuberculoso permaneceu internado na casa de saúde por cerca de cinco meses, sendo
que no final deste tempo pediu “alta por conta propria”, vivendo a partir de então
“muitos mezes fora do hospital”.
O intervalo de tempo que o pectário permaneceu afastado do isolamento sanitá-
rio não ficou claro, supondo-se não ter sido superior a um ano. Neste período, o
tuberculoso buscou encaixar-se nas malhas da metrópole, encontrando trabalho em
uma fábrica de vidro e alugando uma vaga numa pensão localizada no bairro do Brás.
Mas, mesmo apresentando “estado bem disposto e corado”, Donato preferiu voltar
para o abrigo hospitalar. O que teria acontecido para que o operário escolhesse este
encaminhamento para sua vida? Ninguém sabe, mas provavelmente o fimatoso, como
muitos outros, não suportou o peso da tuberculofobia que impregnava os comporta-
mentos coletivos, encontrando no sanatório um refúgio amenizador da solidão imposta
aos doentes do peito.
Os exames clínicos aos quais foi submetido o paciente Donato Visosky logo
comprovaram que ele pertencia ao grupo dos tísicos crônicos, sendo que seus exames
de escarro e de suco gástrico indicavam uma sucessão de “negativos” e “positivos”
que, ao mesmo tempo que confundiam as conclusões clínicas, também ofereciam um
rumo indefinido para a vida do operário lituano. Em conseqüência, o paciente alternava
extensos períodos de equilíbrio orgânico com momentos críticos, ora sendo consumido
por “abundante hemoptise”, ora padecendo de “sufocação por falta de ar”, ou ainda por
“punhaladas no pulmão direito”.
Neste clima de incertezas, Donato encontrou ocupação no sanatório, tornando-
se auxiliar de laboratório a partir de junho de 1933. O cotidiano do pectário parece que
acompanhou a morosidade típica dos ambientes de cura até outubro de 1937, quando o
doente foi convocado para o exame dirigido por uma junta de tisiologistas composta


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pelos Drs. Fleury de Oliveira, Octavio Nebias e João Grieco. Realizada a perícia, os
especialistas anotaram no respectivo prontuário que o paciente apresentava “melhora
radiologica discreta”, fechando o relatório com a seguinte observação: “vai continuar
na mesma”. Continuar na mesma: estranha sentença premonitória. Quando em fevereiro
do ano seguinte Donato recebeu alta clínica, ele já havia feito acertos para permanecer
residindo no sanatório, não mais como paciente, mas sim como funcionário da Santa
Casa. Estabelecida estratégia própria para fugir às dificuldades de permanência em um
hospital sempre carente de leitos, o infectado continuou a ocupar uma vaga na enferma-
ria dos indigentes, mantendo-se assim pelos anos seguintes e sempre apresentando
resultados contraditórios nos exames avaliadores da presença do bacilo de Koch em
seu organismo.
A rotina diária obedecida por Donato começou a sofrer alterações a partir dos
primeiros meses de 1947, quando o pectário – já classificado como ‘técnico de laborató-
rio’ – passou a se queixar de uma “dor de estomago” que teve continuidade na “perda
do apetite e emagrecimento acentuado”.
Passados 15 anos desde sua entrada no Hospital São Luiz Gonzaga, o fimatoso
tornou-se titular de um novo prontuário, documento no qual foram registrados momentos
cruciais da vida do tuberculoso. Isto porque, no mês de junho, Donato foi submetido a
uma apendicectomia e logo em seguida a uma outra operação, desta vez para amenizar o
desconforto provocado por úlceras intestinais. Colocado em repouso na enfermaria,
o paciente “tossiu durante 3 dias”, fato que levou ao rompimento dos pontos cirúrgicos
e à abertura do corte operatório, dando início a uma eventração. Muito mais do que a
tísica, a associação destes eventos colocou Donato bem perto da morte.
Apesar do acidente pós-operatório, o lituano recuperou-se em pouco tempo,
reassumindo as tarefas de funcionário do nosocômio em setembro de 1947 e permane-
cendo nesta categoria por quatro anos consecutivos, quando uma “forte gripe acompa-
nhada de escarros com laivos sanguineos” fez com que o consuntivo voltasse à posi-
ção formal de hóspede da mansão da saúde. Naquele momento, Donato Visosky já
havia recebido um grande número de unidades de estreptomicina, mas nem mesmo tal
medicamento conseguiu restabelecer a saúde do técnico de laboratório que, somando
49 anos de vida, passou a reclamar com maior insistência das dificuldades respiratórias
causadas pela moléstia pulmonar.
O novo período de tratamento do enfermo prolongou-se até fevereiro de 1953.
Alguns meses antes, o paciente/funcionário havia sido requalificado pelo Instituto de
Aposentadoria e Pensões dos Comerciários – órgão que mantinha convênio
previdenciário com os servidores da Santa Casa – como “sócio aposentado por
invalidez”, fazendo jus ao benefício mensal correspondente a 75% do valor do salário
mínimo vigente. Um novo momento de tensão se abria para o tuberculoso: aposentado
do serviço hospitalar e próximo de receber alta médica, qual seria o encaminhamento a
ser dado a sua pessoa?
As anotações e bilhetes que foram preservados junto ao terceiro prontuário
com o nome de Donato Visosky oferecem algumas pistas sobre as tentativas engendra-
das pelo setor de Serviço Social da Santa Casa para encontrar colocação para o pacien-
te diferenciado. O registro em uma folha avulsa do número do telefone de uma sobrinha


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do pectário abre a possibilidade para se pensar que o nosocômio buscou aproximar o
tísico de seus parentes mais próximos, hipótese que talvez ganhe comprovação numa
frase lançada no mesmo documento: “o Donato não quiz se aproximar de seus familiares
e raramente sai deste Hospital”.
Nesse contexto, parece que os próprios médicos da Santa Casa mantinham rela-
ções amistosas com o hóspede mais antigo do sanatório. O tratamento “o Donato” repe-
te-se em vários registros, insinuando os laços de familiaridade que uniam o tuberculoso à
equipe hospitalar. Coube aos próprios clínicos decidir o destino de Donato, permitindo
que o doente continuasse vivendo na casa de saúde do Jaçanã, ainda sob a condição de
funcionário da instituição. Para tanto, o Dr. Octavio Nebias redigiu o seguinte bilhete,
destinado ao tisiologista encarregado do tratamento do técnico de laboratório:  “Ayrton!
Pode dar alta regular pois o Donato volta outra vez a ser empregado do Hospital. Envie
ao serviço de triagem para matricular”.
Os acertos destituídos de formalidade burocrática permitiram que o
tuberculoso continuasse hospedado no Sanatório do Jaçanã pelo resto da sua
vida. Em fevereiro de 1962, quando ainda seus exames mostravam-se positivos para
o bacilo de Koch, Donato sofreu uma nova crise respiratória, agravada pela existên-
cia de “úlceras duodenais sem possibilidade cirurgica”. Recolocado na teia hospi-
talar como paciente financiado pelo IAPC, o tísico passou a ocupar oficialmente
uma cama na enfermaria do nosocômio, aí permanecendo até a manhã do dia 22 de
novembro de 1964, quando chegou a óbito, sendo declarado como causa mortis um
“processo ulceroso crônico”.
Donato Visosky viveu 62 anos, sendo 32 deles como hóspede do Hospital São
Luiz Gonzaga. Sua história registrada em quatro prontuários diferentes constitui-se em
caso extremo do infectado que não suportou retornar ao território dominado pelos
sãos, optando pelo prosseguimento da vida em companhia de seus iguais na enfermi-
dade. O isolamento voluntário fez do sanatório o lar definitivo do contaminado, assim
como os personagens institucionais ocuparam o espaço deixado em branco pelos pa-
rentes do lituano. Como resultado, a história de vida do paciente confundiu-se com a
história do hospital especializado da Santa Casa, que sobreviveu apenas mais quatro
anos após o falecimento do tuberculoso Donato.


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