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Os Caminhos da Vida e da Ciência



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Os Caminhos da Vida e da Ciência
Desde o momento em que o tuberculoso era assumido pelas malhas do isola-
mento, ficava patente para ele que o tempo perdera o valor de grandeza matemática para
se equiparar a uma estranha espécie de medida biológica, na qual a aparência radiológi-
ca dos pulmões e a quantidade de bacilos contados em cada amostra de escarro anali-
sada constituíam-se em índices determinadores do período em que a vida permaneceria
estancada pelas normas sanitárias.
Dependentes do parecer médico, os pacientes vislumbravam a alforria
institucional não só quando a cura ou o controle da infecção eram anunciados pelos
especialistas, mas também quando o caso era avaliado como ‘clinicamente perdido’.
Isso porque a condição de doente terminal coagia as autoridades hospitalares a ganha-
rem súbito ar de condescendência, abrindo oportunidade para que os moribundos – ou
seus responsáveis – optassem entre a mudança para o pavilhão exclusivo dos ‘quase-
mortos’ e a transferência para o aconchego doméstico.
A decisão de empenhar os últimos momentos da existência em local distante do
ambiente sanatorial é uma constante anotada em numerosos prontuários de fimatosos
que certamente estavam cientes do pouco tempo de vida que lhes restava. Assim
aconteceu com o operário Jairo Lemes Amaro (P. 874), um consuntivo de 22 anos de
idade que permaneceu durante trinta meses na enfermaria de indigentes do Hospital
São Luiz Gonzaga.
No transcorrer do período de isolamento, Jairo viu seu corpo minguar pouco a
pouco: os boletins elaborados pela equipe de enfermagem registram que o paciente
perdia peso, chegando a apenas 30 quilos, o que impunha uma imagem demasiadamen-
te arruinada ao seu corpo, que atingia 1,76 metro de altura. Mais ainda, o tísico queixa-
va-se diariamente de atrozes ‘pontadas no peito’ que não o deixavam dormir, sendo de
pouca valia as injeções de morfina recomendadas pela clínica. Nestas condições, o
enfermo percebeu que sua vida estava por um fio e, por isso, no dia 5 de abril de 1940,
pediu alta “para falecer em sua casa em Jacareí”, sendo seu rogo imediatamente atendi-
do pelo Dr. Alvaro de Lemos Torres, diretor da casa de saúde do Jaçanã.
A mesma presteza institucional não tinha lugar quando o enfermo estava em
vias de alcançar a cura ou pelo menos a estabilidade do processo patológico crônico.
Contrariando os pedidos de dispensa formulados pelos pacientes em fase adiantada de
recuperação, os tisiologistas tentavam estender o tempo de internamento, lembrando


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aos consuntivos que a condição sinuosa da Peste Branca aconselhava que mesmo os
curados deveriam permanecer alguns meses sob observação hospitalar, para que ficas-
se comprovado o pleno equilíbrio das funções pulmonares.
A demora médica em conceder alta incitava os hóspedes convalescentes das
mansões sanitárias a insistirem contra o prolongamento da reclusão. O lavrador Raphael
Alexandrino da Silva (F. 2669) foi um dos tuberculosos assistidos pelo sanatório
paulistano da Santa Casa que pediu dispensa logo após ser informado que estava
próximo da cura, fato que justificou a seguinte nota clínica: “O doente não quiz perma-
necer por mais tempo no Hospital razão pela qual não se preve a durabilidade da cura”.
Retomar a vida livre e afastada dos ambientes ‘entisicados’ era o desejo comum
a todos os pectários. Mas, seria isto viável para aqueles que momentaneamente haviam
vencido o Grande Mal? A marca aviltante da moléstia levava as famílias dos enfraque-
cidos do peito a se mostrarem reticentes na hora de admitir o regresso do enfermo para
o recinto doméstico. O receio de que o convalescente pudesse contaminar e corromper
moralmente os sadios unia-se à duvidosa capacidade do infectado ganhar seu próprio
sustento, resultando no adiamento máximo possível da reincorporação dos fimatosos
nos seus círculos de amizade e parentesco.
É certo que os asilados, ao se desligarem dos sanatórios, já antecipadamente
sabiam das dificuldades produzidas pela decisão de reingresso no universo dos sadios.
As enfermarias estavam repletas de tísicos crônicos cujas histórias eram pontuadas
pela frustração de pessoas que se viram rejeitadas pelos seus familiares, resultando em
pedidos de readmissão hospitalar.
Dentre tantos casos semelhantes, encontra-se o da paciente Zulmira Gonçalves
(P. 322) que, após ter sido premiada com alta clínica em “estado muito melhorado”,
voltou a residir com o marido e os filhos, no bairro de Pirituba. Porém, dois meses após ser
liberada, Zulmira voltou ao Hospital São Luiz Gonzaga, informando que “sentia-se bem”,
mas que desejava retomar seu leito na enfermaria porque “seu marido achou por bem
mante-la afastada dos filhos menores”.
Os constrangimentos gerados pela experiência íntima com a enfermidade e as
desconfianças nutridas pelos sadios em relação aos infectados exigiam que os pectários
buscassem escamotear o pretérito de doente do peito. O tuberculoso Antônio Olavo
Pereira (1976) – irmão do editor José Olympio – depois de abandonar Campos do Jordão,
evitava manter contato social com os seus antigos ‘colegas’, negando-se veemente-
mente a declinar o nome da prefeitura sanitária onde permanecera por vários anos.
O empenho em atenuar as marcas da enfermidade impregnava também o cotidi-
ano de Manuel Bandeira. Auxiliado por seu amigo e tisiologista Aloysio de Paula, o
poeta aprendeu a realizar uma meticulosa ‘toalete brônquica’, momento no qual tentava
expelir o catarro acumulado nos pulmões fibrosados pela tísica. Com esta prática que se
repetia todas as manhãs, Manuel Bandeira sentia-se livre para sair à rua, sem receios de
ser vitimado pela tosse copiosa que colocava em alerta seus parceiros de jornada
intelectual (Paula, 1989).
Porém, não era fácil esconder a condição de quem um dia fora tributário da Peste
Branca. O ditado popular que alertava “uma vez tuberculoso, sempre tuberculoso”
colocava em suspeita  todos aqueles que guardavam as marcas da corrupção pulmonar.


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Uma depoente, que exigiu sigilo sobre sua identidade, lembrou com lágrimas
nos olhos a situação que viveu na infância, quando sua mãe recebeu alta de um sana-
tório jordanense. Ao retornar para sua residência, na cidade de São Paulo, a convales-
cente soube que seu marido havia fugido logo após receber o telegrama que informava
sobre sua volta ao lar, deixando a filha do casal aos cuidados de uma vizinha.
Nesta condição, a enferma transferiu-se com sua criança para a cidade de Atibaia,
onde alugou uma casa de fundos e passou a viver como empregada de uma fábrica
local. Tudo corria bem para a consuntiva e sua filha até o instante em que um dos
vizinhos especulou a menina sobre o passado materno, sabendo então que a inquilina
havia vivido durante dois anos em Campos do Jordão. Ato contínuo, o temeroso indi-
víduo reuniu os moradores das proximidades, exigindo que a infectada abandonasse o
bairro no prazo de 24 horas.
A verificação, no cotidiano, de situações como esta fazia com que os tísicos
tentassem se proteger das eternas suspeitas por meio da apresentação de um documen-
to comprovador do atual estado de saúde do fimatoso. O lavrador Pedro Celestino Filho
(P. 1717), que em agosto de 1943 havia recebido alta, retornou ao Sanatório do Jaçanã
para pedir um atestado clínico, alegando que carecia do relatório por ter se defrontado
com “algumas dificuldades” para conseguir emprego. Em resposta, o Dr. Octavio Nebias
redigiu a seguinte declaração: “Atesto que o Sr. Pedro Celestino Filho se encontra em
recuperação pulmonar e apresenta uma imagem de condensação, tendo sido negativas
as provas de laboratorio para diagnostico de tuberculose”.
A posse de uma carta confirmadora de que o portador encontrava-se ‘curado’
ou ‘em recuperação’ da tísica não representava qualquer garantia de colocação no
mercado de trabalho. A desvalorização da mão-de-obra com passagem sanatorial resul-
tava na convergência dos pectários para empregos com salários reduzidos, exigindo-se
destes funcionários redobrados esforços produtivos em retribuição ao ‘favor’ que o
patrão estava fazendo em contratar um doente do peito.
Cobrado talvez mais do que os seus companheiros sadios, o operário consuntivo
via-se pressionado a aceitar qualquer proposta de emprego, mesmo nas atividades que
eram desaconselhadas para os convalescentes que, em geral, deixavam de ser prepara-
dos pela medicina para retornar à rotina do trabalho em atividade compatível com seu
estado de saúde.
Paralelamente aos arranjos que provessem as necessidades básicas, os egres-
sos do sistema hospitalar aproveitavam a relativa liberdade de ir e vir para percorrer
diferentes lugares à procura do remédio ou do milagre que os libertassem de vez do
fantasma consuntivo. A confiança oscilante, às vezes rota, na capacidade médica
de vencer a Peste Branca, coagia muitos enfermos a tentarem outras formas de
tratamento pulmonar, sem, no entanto, abandonar as propostas terapêuticas fo-
mentadas pela tisiologia.
Um antigo tuberculoso crônico confidenciou que, logo após receber alta de um
sanatório jordanense, permaneceu por dois anos visitando médicos alternativos, far-
macêuticos, massagistas, naturalistas, ervanários, padres, pais e mães de santo, benze-
deiras, curadores e líderes espíritas, sempre buscando a mesma coisa: a ‘cura definitiva’
das cavernas pulmonares.


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Neste contexto, talvez seja o momento ideal para a pergunta: além da assistência
prestada pela medicina alopática e da pálida esperança da ocorrência da ‘cura espontâ-
nea’ alardeada pela clínica, quais eram as demais modalidades terapêuticas colocadas à
disposição dos fimatosos, principalmente quando estes estavam distantes da vigilân-
cia nosocomial?
A primeira referência mencionada por vários entrevistados foram os almanaques
distribuídos gratuitamente pelas farmácias e que alardeavam diferentes remédios contra a
‘fraqueza pulmonar’. Nesses livretos, bem mais publicitários do que educativos, anuncia-
va-se uma quantidade surpreendente de remédios curativos ou que pelo menos garan-
tiam a energia suficiente para que os infectados superassem a anorexia produzida pela
moléstia pulmonar: Biotônico Fontoura,  Peitoral de Cereja do Dr. Ayer,  Peitoral


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