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A Medicina e o Fato Tuberculoso



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A Medicina e o Fato Tuberculoso
A tuberculose é uma doença infecto-contagiosa que, de regra, assume evolução
crônica e tem como agente etiológico a Mycobacterium tuberculosis. Acredita-se que
este micróbio – também conhecido como bacilo de Koch – seja anterior ao próprio
Homem, sucedendo formas ainda mais elementares de vida microscópica. O encontro
entre o germe da tuberculose e a espécie humana levou o agente infeccioso a desenvol-
ver estratégias de adaptação ao novo hospedeiro: além da perda da capacidade de
multiplicação no meio exterior, o bacilo inicialmente sofreu um significativo aumento de
virulência para, na continuidade, restringir sua capacidade destrutiva, tornando-se um
comensal aceitável para os indivíduos e para os agrupamentos humanos.
Nessas condições, o micróbio da tísica encontrou nos  pulmões do ser humano
um microecossistema favorável à sua sobrevivência, ganhando possibilidade de repro-
dução em um ambiente ao mesmo tempo quente e úmido, arejado e sombrio. Com a
proliferação bacilar em forma de colônias, parte das sementes usualmente migram para
outras regiões do aparelho respiratório, podendo se disseminar por todo o organismo
contaminado por meio das vias broncogênica, linfática e hematogênica. Outra parcela
dos germes é expulsa pelas vias aéreas, poluindo o meio ambiente.
No prazo de 24 horas um indivíduo infectado pode expelir até 3,5 milhões de
bacilos da tuberculose, muitos deles presentes em gotículas microscópicas que são
eliminadas através da tosse, do espirro ou no processo da fala. Estas minúsculas partí-
culas podem flutuar por um período de até 8 horas, depositando-se em roupas, lenços,
livros, móveis e na poeira. Eventualmente, as menores gotículas podem ser aspiradas
por outros indivíduos, sendo que se não forem retidas pelas mucosas do nariz e da
garganta, o material pode atingir os bronquíolos respiratórios e os alvéolos, tornando-
se substância infectante. Outra via comum de contágio em décadas passadas consti-
tuía-se na ingestão de leite e de carne bovina comprometidas pela Mycobacterium
bovis, bacilo similar ao M. tuberculosis e que também pode causar a tísica.
Instalando-se no organismo humano sadio, o bacilo de Koch permanece inativo por
cerca de três dias. A partir deste momento inicia-se o ciclo de reprodução que se renova a
cada 18 horas, média bem superior à de outras variedades microbianas. Também neste
período é ativado o processo de defesa orgânica, primeiramente como resposta imunitária
inespecífica e logo depois por meio de reações imunológicas específicas, mediante a ampli-
ação da capacidade de fagocitose das células mobilizadas contra o elemento invasor.


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Neste encaminhamento, o foco primário da infecção geralmente produz uma
lesão inflamatória inicial, localizada na região subpleural. Entre a terceira e a oitava
semanas, os bacilos já formaram colônia capaz de produzir reação inflamatória elemen-
tar, evidenciando a existência de um processo destrutivo dos tecidos pulmonares. A
resposta orgânica permite que as células histiocitárias e linfócitas recubram a lesão,
possibilitando a constituição de um nódulo ou tubérculo específico. Os bacilos, entre-
tanto, se propagam por intermédio da via linfática para os gânglios adjacentes, dando
conformidade ao chamado ‘complexo primário’.
Estabelecida a primoinfecção, a continuidade da doença permanece incerta,
podendo evoluir para uma tuberculose crônica ou, mais raramente, para a tísica pro-
gressiva aguda. A infecção, contudo, pode permanecer estacionária, abrindo chances
para que os bacilos latentes reiniciem sua ação destrutiva anos após o evento inicial. A
espécie humana, entretanto, apresenta significativa resistência contra esta agressão,
sendo que o desenlace mais freqüente constitui-se na regressão do processo patológi-
co e a cura espontânea, com a conseqüente recuperação, cicatrização ou calcificação
do tecido danificado pelo agente etiológico da chamada Peste Branca.
Os fatores que determinam o curso assumido pela infecção ainda não são sufi-
cientemente conhecidos. A linha de entendimento que busca situar as condições mate-
riais de vida como explicadoras do prosseguimento (ou da interrupção) do processo
tísico parece não responder sozinha ao enigma, sendo que cada vez mais apontam-se
para as respostas relacionadas com a carga genética como fator de proteção individual.
O quadro clínico apresentado pela tuberculose é extremamente complexo, advo-
gando-se que esta patologia é ‘a mais caprichosa de todas as doenças’, dado a
multiplicidade de sintomas que podem confundir o diagnóstico médico. Na fase inicial,
a infecção apresenta-se quase sempre silenciosa, ou com manifestações discretíssimas,
difíceis de serem detectadas pelo Raio X.
A evolução do processo mórbido geralmente tende a produzir febre que, à tarde,
pode chegar a 39 graus centígrados, acompanhada de suores, emagrecimento contínuo
e acentuado, dores torácicas, tosse, expectoração crescente, cansaço e dificuldade de
respiração. Por fim, a hemoptise evidencia o estado enfermiço, principalmente quando
associada aos demais sintomas. O diagnóstico definitivo encontra apoio na radiografia
pulmonar, na tomografia, na  análise laboratorial do esputo e na prova tuberculínica.



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