Rui barbosa e o pensamento educacional brasileiro



Baixar 82.8 Kb.
Página3/5
Encontro17.03.2020
Tamanho82.8 Kb.
1   2   3   4   5
Referencial teórico

Abordar o pensamento de um autor nunca é uma tarefa fácil. No caso específico de Rui Barbosa tal abordagem torna-se desafiante considerando o norteamento das pesquisas em educação no Brasil. Todavia, ao considerar que os escritos de Rui Barbosa foram e continuam sendo objeto de pesquisas diversas, no âmbito acadêmico, insistir no estudo desse autor parece ser algo não apenas válido, como também atual. Provoca, por si só, reflexões, paixões e ainda uma retomada da própria história do Brasil e da Educação. Assim, o projeto de pesquisa em ensino não pretende instituir novos dogmas, ou mesmo reafirmar os já existentes, mas sim buscar caminhos de compreensão do pensamento a partir dos problemas colocados, suas fontes e suas concepções. Rui Barbosa (1849-1923) foi advogado, jornalista, político, diplomata, ensaísta e orador. Interessa-nos tomar seu pensamento pelo veio com a questão educacional.

Assim, remonta-se à Constituição de 1823, como aquela que evidencia a educação para a cidadania, aqui no Brasil. Mesmo que tal ideário tenha alcançado seu lugar na legislação de então, a realidade se apresentava como uma sociedade estamental, escravocrata e excludente, onde os homens livres e proprietários desfrutavam de direitos devido ao sistema censitário imperial. A questão subjacente à defesa da ampliação do acesso à escola referia-se à desigualdade social, a qual, supunha-se, poderia ser compreendida a partir dos parâmetros de capacidades e talentos individuais. A elite econômica então passa a ser como que destinada a tornar-se elite cultural, uma vez que a universalização do acesso à educação formal não se efetivou, permanecendo privilégio de uns poucos considerados talentosos e mais capazes em relação aos filhos do povo, destinados à execução de tarefas de menor relevância do ponto de vista da vida econômica, política e social. Considerando que o governo da chamada 1ª República coaduna com suas ideias, Rui estava determinado a tomar medidas necessárias para promover o progresso industrial no Brasil. Todavia, mesmo com esse desejo duas questões precisavam ser enfrentadas para que tal projeto pudesse ser posto em prática: 1) a falta de recursos a serem investidos na indústria e, 2) a grande demanda por moeda. Aliadas a essas, se somavam as dificuldades advindas pela expansão do trabalho assalariado, após a libertação dos escravos e imigração europeia.

Ao se tornar um dos ícones da "ilustração liberal brasileira" ou o “iluminismo brasileiro”, influenciado pelo movimento iluminista francês, Rui depositava total confiança no poder da escolarização como caminho à formação de mentes ilustradas. Assim, absorvia e irradiava essas novas temáticas em solo pátrio e, por conseguinte, a defesa de um conceito de educação subjacente que oscilava entre ser instrumento de conquista da liberdade, participação, cidadania e ser um mecanismo de controle e doseamento da liberdade, de civilização, racionalismo e submissão necessários à nova ordem econômica da produção industrial capitalista e às novas relações sociais. O Iluminismo, movimento intelectual efervescente na Europa no século XVIII, demorou a desembarcar no Brasil Colônia e influenciar a cultura, de modo geral. Permaneceu distante pelo fato da natureza que metrópole (Portugal) toma em relação às terras recém “descobertas”. Com a expulsão dos Jesuítas, em 1759, a Reforma Pombalina, por sua vez, não interfere significativamente na organização político-cultural dessas terras. No campo educacional, como exemplo, a concepção pautada pela Ratio Studiorum (Jesuítas), teve continuidade mesmo com as “aulas régias”. A assimilação dos ideais da modernidade, proposto pelo Marquês de Pombal, só começam a tomar forma com a chegada, às terras tupiniquins, da família real em 1808. Tem-se então o início de um processo de alteração nas estruturas sociais, marcada pela condição de normatização para receber a coroa, em detrimento de um projeto de formação cultural do estado brasileiro.

A partir do fim do século XIX e início do século XX que o movimento de ilustração começou a ganhar força ao ser disseminado por intelectuais brasileiros influenciados pelos ideais de liberdade já espalhados pela Europa. Esse período para o Brasil foi sinal de grandes transformações culturais, econômicas, políticas, sociais e consequentemente no campo educacional com o advento de ideais laicos, positivistas e liberais. As ditas reformas realizadas por esses intelectuais impulsionaram o debate educacional, superando gradativamente a educação jesuítica tradicional e conservadora que dominava o pensamento pedagógico brasileiro. O pensamento iluminista elege a “razão” como o grande instrumento de reflexão capaz de melhorar e empreender instituições mais justas e funcionais. As principais defesas, no campo educacional, se voltam para o acesso e o direito à escolarização com ensino laico e gratuito voltado para a emancipação e autonomia. No Brasil, alguns eventos podem ser destacados como indícios desse pensamento maior, entre eles a “abolição da escravatura” (1888) e a “proclamação da República” (1889). Ao influenciar nossos intelectuais ilustrados, acenam para um cenário de reformas do Estado Brasileiro com vistas à construção de sua “nova” identidade em meio ao pensamento que permeia os diversos países que já vinham se estruturando no sentimento provocado pela modernidade.

A ilustração brasileira foi pautada no poder das ideias, na ciência e na cultura onde se localizam os elementos essenciais para que a escola pudesse formar “melhor os homens” e consequentemente uma “sociedade melhor”. Assim, no campo educacional, as influências iluministas tiveram papel fundamental para a compreensão da necessidade/relevância de um sistema público que atendesse à população de modo amplo. A ideia da universalização do ensino (acesso/permanência) ganhou força, mesmo que, na prática ainda hoje temos sérios problemas em relação a essa concepção. Com ênfase na defesa da formação livre que garantisse o acesso aos valores e a própria moral definidos pelo conceito de civilização apregoados tanto na modernidade como no saber intelectual e científico. O exame dos textos escritos por Rui e mesmo aqueles que versam sobre seu pensamento permitem perceber a preocupação acima. Em especial com seus conhecidos Pareceres, onde tratava a “pedagogia” como um problema integral da cultura. A escola, principalmente a primária, era defendida como laica, gratuita e para todos. Ideias alimentadas pelo movimento iluminista juntamente com algumas posições políticas em torno dos ideais liberais acerca da educação. Assim, Rui foi um dos intelectuais que divulgou e influenciou a difusão do movimento da Ilustração no Brasil.

Nesse contexto, a educação, numa perspectiva liberal, passa a figurar como forma de resolução dos problemas para transformar súditos em cidadãos e assim nortear os destinos do indivíduo no seio da sociedade. Por isso, acreditava-se que a meta maior a ser alcançada era a estruturação de um estilo de vida em que prevalecesse a liberdade, em vez da servidão; a civilização, em lugar da barbárie; a república, no lugar do absolutismo; a racionalidade, no lugar da irracionalidade; a modernidade, ao invés da tradição; o saber, em vez da ignorância e obscurantismo. Daí o viés político que assume a educação moderna, encarregada de formar o novo homem para a nova ordem fundada no livre mercado econômico, social e político. Porém, em que pese o fato de serem bastante propaladas tais aspirações de cunho liberal-burguês, a verdade é que a educação como direito de todos, de acesso e apropriação democráticos, não se efetivou de maneira universal. No discurso e na letra da lei, sim, a educação era um direito universal o qual todo indivíduo poderia desfrutar. Na vida concreta, contudo, educação era algo pelo qual tinha-se de esperar.

O movimento da ilustração europeia influencia Rui Barbosa. Talvez, sem perceber as contradições intrínsecas desse ideário que alimentava posições liberais lá e cá, ele termina depositando no "civismo" a sua crença maior; crença que deveria, inclusive, cumprir a tarefa de nortear as finalidades da educação nacional. Na condição de relator da Comissão de Instrução Pública da Câmara dos Deputados, em 1882, Barbosa realiza um profundo estudo das condições da escola em nosso país. Em seu parecer e em seu projeto de reforma do ensino primário, demonstra-se interessado tanto em "questões pedagógicas", quanto no "cotidiano da instituição escolar"; tanto no "atraso" do ensino nacional, quanto nos "avanços" do sistema escolar dos países mais adiantados. De um povo analfabeto nada se poderia esperar, pois, na ignorância, submergiria a mocidade da nação.






Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal