Rogers, Thomas The Deepest Wounds



Baixar 136.59 Kb.
Pdf preview
Página1/4
Encontro29.10.2019
Tamanho136.59 Kb.
  1   2   3   4


Trabalho, história ambiental 

 e cana-de-açúcar em Cuba e no Brasil



Labor, Environmental History, and Sugar Cane in Cuba and Brazil  

1

Aviva Chomsky*



Rogers, Thomas 

The Deepest Wounds: A Labor and Environmental History of Sugar in Northeast Brazil 

Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2010. xvi + 302p.



McGillivray, Gillian 

Blazing Cane: Sugar Communities, Class, and State Formation in Cuba, 1868-1959 

Durham, NC: Duke University Press, 2009. xxiii + 386p.



Wolford, Wendy 

This Land Is Ours: Social Mobilization and the Meanings of Land in Brazil 

Durham, NC: Duke University Press, 2010. xii + 281p.



Funes Monzote, Reinaldo 

From Rainforest to Cane Field in Cuba: An Environmental History since 1492 

Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2008. xv + 357p.

Tanto a história do trabalho quanto a do meio ambiente são campos de 

estudo florescentes e estão, fundamentalmente, relacionadas de muitos modos 

em termos estruturais. Apesar disso, os historiadores têm sido lentos em acei-

tar sua relação. A historiografia espelha profundas divisões entre os próprios 

movimentos trabalhista e ambientalista, talvez porque muitos historiadores 

cheguem a seus estudos a partir de um envolvimento, ou pelo menos de uma 

simpatia, com esses movimentos. Os quatro livros aqui resenhados, ao mesmo 

tempo em que são – cada um por sua própria conta – interessantes e signifi-

cativos, mostram, coletivamente, o estado ainda nascente da capacidade dos 

historiadores em conceituar e investigar as formas pelas quais o trabalho e o 

meio ambiente estão conectados.

* Salem State University. achomsky@salemstate.edu



Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 35, nº 69, p.367-385, 2015  

http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472015v35n69017




Aviva Chomsky

368


O aparente conflito “empregos versus meio ambiente” tem afligido os 

movimentos trabalhista e ambientalista nos Estados Unidos há décadas e é 

frequentemente propagado pela indústria, que nitidamente é o vencedor em 

uma batalha na qual o trabalhismo se vê compelido a unir forças ao capital 

para se defender dos desafios ambientais. No entanto, o trabalhismo também 

tem sido fundamentalmente enfraquecido por esse posicionamento, pois a 

indústria volta o mesmo argumento contra os trabalhadores, transformando-o 

em “empregos versus salários, benefícios e condições de trabalho”, e às vezes 

até mesmo “empregos versus sindicatos”. Enquanto isso, os ambientalistas pa-

recem ter poucas respostas para a acusação de que se importam mais com a 

fauna exótica do que com as necessidades humanas.

A América Latina dificilmente tem ficado imune a essas correntes. Apesar 

disso, um envolvimento mais incisivo com a história, uma relativa imunidade 

às tendências políticas da Guerra Fria que vincularam os sindicatos americanos 

a uma estreita agenda focada no crescimento econômico e os inevitáveis con-

frontos com o imperialismo americano em suas muitas formas ajudaram o 

trabalhismo latino-americano a manter uma postura mais independente e, às 

vezes, até mesmo revolucionária. Como Charles Bergquist salientou há várias 

décadas, quando os trabalhadores são nativos e o capital é estrangeiro, o tra-

balhismo frequentemente se mobiliza para fazer parte de coalizões revolucio-

nárias nacionalistas. Enquanto isso, os camponeses latino-americanos 

impulsionaram o que Joan Martínez-Alier e outros chamaram de “ambienta-

lismo dos pobres” em defesa de seus meios de vida. O status colonial e neoco-

lonial da América Latina moldou fundamentalmente sua história do trabalho 

e do meio ambiente (Bergquist, 1995; Martínez-Alier, 2005).

“O que está acontecendo com as comunidades nos afeta, porque fazemos 

parte das comunidades”, explicou-me o presidente de um sindicato de minei-

ros de carvão da Colômbia há vários anos. “Como organização sindical com 

uma visão social ampla, não podemos nos distanciar dos impactos sociais e 

ambientais da mina.” Ativistas antimineração a céu aberto na Appalachia ficam 

perplexos ao ouvir um líder sindical expressar essas opiniões. A análise anti-

-imperialista e marxista nos sindicatos latino-americanos leva muitos a con-

cluir que as empresas estrangeiras estão explorando igualmente o trabalho e o 

meio ambiente, saqueando os recursos de seu país na busca do lucro.

Entretanto, uma ativista do Sierra Club ficou menos satisfeita com a res-

posta que recebeu quando perguntou a outro líder do mesmo sindicato: “Você 

não concorda que temos de deixar o carvão para trás?”. “Você está perguntan-

do para a pessoa errada”, respondeu ele lentamente. “Nós estamos extraindo 

Revista Brasileira de História, vol. 35, n

o

 69  



  p.367-385




Trabalho, história ambiental e cana-de-açúcar em Cuba e no Brasil

369


aquele carvão para vocês. Se vocês querem ir além do carvão, têm que olhar 

para vocês mesmos.” Nesse momento, ele pegou diretamente no calcanhar de 

Aquiles do movimento ambiental norte-americano. Muitos ambientalistas do 

Primeiro Mundo querem salvar a Terra sem enfrentar o problema político-

-econômico básico: que os Estados Unidos usam de 25% a 50% dos recursos 

do planeta, e apelos piedosos para “reduzir, reutilizar, reciclar” não mudarão 

as políticas econômica, externa e militar que mantêm essa injustiça. Assim, 

Thomas Rogers cita a reação pessimista de um engenheiro brasileiro à propa-

gação dos carros movidos a etanol: “Agora as rodas dos carros do mundo todo 

vão girar às custas da fome do Nordeste” (p.210).

Para os analistas mais radicais, tanto os do trabalho quanto os do meio 

ambiente, a desigualdade econômica global é inerente ao próprio capitalismo. 

Se o capitalismo está baseado no crescimento econômico contínuo, na obten-

ção de lucro pela exploração da mão de obra e da natureza, então ele se baseia 

necessariamente na expansão territorial, na destruição do meio ambiente e no 

empobrecimento da classe trabalhadora. Se a história do meio ambiente exa-

mina a relação dos seres humanos com a natureza, e a história do trabalho 

examina aqueles que trabalham para outros – em geral, pela transformação da 

natureza –, então o capitalismo e a Revolução Industrial tiveram um papel 

fundamental em ambas. A substituição do trabalho humano e animal por fon-

tes de energia derivadas de combustíveis fósseis sinalizou um crescimento 

drástico da capacidade do capital de explorar tanto a mão de obra quanto os 

recursos.

Historiadores do Terceiro Mundo e teóricos da dependência vêm susten-

tando há muito tempo que os recursos e a mão de obra do Terceiro Mundo 

foram cruciais para o desenvolvimento do capitalismo industrial. Mais recen-

temente, historiadores como Kenneth Pomeranz e Richard P. Tucker oferece-

ram uma análise explicitamente ecológica desse processo, examinando como 

a destruição ambiental foi deslocada para as colônias. De maneira perversa, os 

colonizadores, que primeiro empurraram os povos nativos para terras frágeis 

para abrir espaço para seus novos empreendimentos econômicos, acusaram 

os mesmos nativos de macular a “selva” colonial remanescente com sua pre-

sença e suas práticas tradicionais – o ambientalismo tornou-se, assim, um 

outro estágio do imperialismo. É claro que essas expropriações também tive-

ram, historicamente, um componente laboral, desde as primeiras medidas de 

apropriação de terras que acompanharam a Revolução Industrial: elas “liber-

tam” os antigos habitantes para entrarem no mercado de trabalho.

2

Revista Brasileira de História, vol. 35, n



o

 69  


  p.367-385




Aviva Chomsky

370


Os quatro livros aqui resenhados examinam regiões moldadas pelo colo-

nialismo e, especificamente, pelo açúcar. O açúcar foi a primeira agroindústria, 

e aquela na qual, segundo Sidney Mintz, o sistema escravista criou o proleta-

riado original, o modelo para as primeiras fábricas da Grã-Bretanha, bem co-

mo uma fonte alimentar primordial para os primeiros trabalhadores industriais 

da Europa. Como Manuel Moreno Fraginals e outros têm sustentado há muito 

tempo, as plantações de cana-de-açúcar devoraram vorazmente tanto as pes-

soas quanto as florestas (Mintz, 1985; Moreno Fraginals, 1976). Todos os livros 

sugerem questões profundas sobre a natureza global do capitalismo e seus 

impactos nos seres humanos e no meio ambiente.

Apenas The Deepest Wounds assume a tarefa de realmente conectar as 

histórias do trabalho e do meio ambiente, focando o Nordeste do Brasil. O 

livro de Wolford This Land is Ours Now é um estudo de um movimento social 

brasileiro, intimamente conectado às questões do trabalho e do meio ambiente, 

que começa, em termos cronológicos, exatamente onde Rogers para. A história 

ambiental de Cuba de Funes Monzote oferece ideias sugestivas sobre o traba-

lho, ao passo que Blazing Cane, a história política e do trabalho de McGillivray, 

levanta questões relevantes para o meio ambiente. Lidos em conjunto, os qua-

tro mostram como o colonialismo e o açúcar estruturaram o debate político 

em Cuba e no Brasil e oferecem percepções e ideias adicionais sobre como uma 

história conjunta do trabalho e do meio ambiente pode constituir um em-

preendimento frutífero.

Funes Monzote assume a visão de mais longo prazo em From Rainforest 




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal