RevoluçÃO, voltas e reveses temporalidade e poder em Cuba João Felipe Gonçalves



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RBCS Vol. 32 n° 93 fevereiro/2017:  e329305

Artigo recebido em 22/05/2015

Aprovado em 04/07/2016

REVOLUÇÃO, VOLTAS E REVESES

*

 

Temporalidade e poder em Cuba 

João Felipe Gonçalves

Universidade de São Paulo (USP), São Paulo – SP, Brasil. E-mail: joaofg@usp.br

DOI: http//dx.doi.org/10.17666/329305/2017

Este artigo é um dos resultados do pós-doutorado reali-



zado no Departamento de Antropologia da Universidade 

de São Paulo, financiado por uma bolsa da Fundação 

de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), 

processo 2013/23833-8. Agradeço à Fapesp o generoso 

apoio para a realização deste artigo.

Em minha primeira visita de campo a Havana, 

em 2000, eu disse a um amigo arquiteto – muito 

crítico ao governo de Cuba – que eu tinha interes-

se em estudar o nacionalismo cubano “no período 

após a Revolução” – expressão que eu, ingenuamen-

te, supunha então que simplesmente designava o 

período após 1959. Mas minha frase não fez senti-

do para meu interlocutor. Ele me olhou surpreso e 

me perguntou se eu queria escrever sobre o futuro

pois, ele me esclareceu, “a Revolução ainda está no 

poder”. Dias depois, já corrigindo minha linguagem, 

mencionei à diretora de um museu – uma entusiasta 

defensora do governo da ilha – que eu gostaria de 

pesquisar o nacionalismo cubano “durante a Revo-

lução”. Depois de um suspiro de claro desconten-

tamento, ela me perguntou se eu queria realmente 

estudar todo o período revolucionário. Quando disse 

que sim, ela me explicou didaticamente que a “Re-

volução” havia começado no século XIX, e que vivia 

hoje apenas “sua mais recente etapa, depois de haver 

triunfado em 1959”.

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Nesses momentos de estranhamento etnográfi-



co, um desentendimento inicial me apontava para 

os vários significados que o termo “Revolução” pode 

ter em Cuba atualmente. Como essas anedotas et-

nográficas indicam, tal termo pode designar, entre 

outras coisas, tanto o atual regime socialista como 

o processo histórico de libertação nacional iniciado 

com a eclosão da primeira guerra de independência, 

em 1868. O termo “Revolução” – ubíquo e altamen-

te valorizado na Cuba contemporânea – estrutura 



REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 32 N° 93

diferentes narrativas históricas reproduzidas aí, es-

pecialmente aquelas promovidas pelo Estado. Se 

cidadãos comuns adotam, adaptam e criticam tais 

narrativas oficiais em maior ou menor grau, eles 

quase nunca questionam a polissemia ou o valor 

nacionalista do significante “Revolução”. Mesmo 

os cubanos mais críticos ao governo e a seu discurso 

veem esse termo como a base fundamental do na-

cionalismo cubano e o usam corrente e irrefletida-

mente para se referir ao governo.

Este artigo examina a polissemia e o valor do 

termo “Revolução” em Cuba, desenvolvendo dois 

argumentos inter-relacionados. O primeiro, con-

cernente aos efeitos políticos desses fenômenos, 

afirma que o uso dessa palavra tem contribuído 

por quase seis décadas para a conformidade políti-

ca e para a manutenção do socialismo no país, em 

grande medida porque ela designa tanto o regime 

atual – cuja validade é altamente questionada em 

Cuba hoje em dia – quanto as lutas anticoloniais 

do século XIX – cujo valor simbólico e político é 

muito raramente contestado. Como o Estado con-

seguiu associar-se ao significado mais literal de um 

significante inextricavelmente ligado ao nacionalis-

mo cubano, criticar o governo publicamente signi-

fica criticar um dos alicerces desse nacionalismo e a 

própria ideia de soberania nacional.

O segundo argumento que defendo aqui, de 

cunho mais teórico, questiona a ideia – primeira-

mente postulada por Benedict Anderson (1991) e 

predominante nos estudos atuais do nacionalismo –  

de que o nacionalismo pressupõe uma concepção 

de “tempo homogêneo e vazio”. Este artigo busca 

mostrar que a temporalidade nacionalista que o 

termo “Revolução” implica e ajuda a produzir em 

Cuba é altamente diferenciada, sobredeterminada 

simbolicamente e baseada em uma relação íntima 

entre passado e presente. Essa historicidade é, por-

tanto, fundamentalmente diferente daquela que 

Anderson associa ao nacionalismo, e mesmo opos-

ta a ela. Assim, eu uso o caso cubano para sugerir 

que a temporalidade subjacente ao nacionalismo 

se aproxima antes daquilo que Walter Benjamin 

(2007) chamou de “tempo messiânico”.

Para fundamentar esses dois pontos empirica-

mente, começo com um curto esboço histórico do 

uso político do termo “Revolução” em Cuba. Em 

seguida, analiso a importância de narrativas sobre 

o passado – especialmente sobre o século XIX e a 

década de 1950 – para o imaginário oficial cuba-

no sobre a “Revolução”, mostrando como isso tem 

gerado uma profusão de aniversários e comemora-

ções que criam uma ligação estreita entre passado e 

presente. Discuto em seguida como o governo con-

seguiu dar legitimidade à sua autodescrição como 

“Revolução” através de uma ênfase em seus reveses 

e fracassos, que transmite a mensagem de que a  

“Revolução” ainda existe precisamente porque sua 

vitória não foi alcançada. Sugiro, por fim, que essa 

mensagem é aceita pelo público graças, em grande 

parte, a uma temporalidade cotidiana de frustra-

ções, lutas e fracassos que refletem, na própria ex-

periência diária dos cidadãos comuns, as represen-

tações oficiais sobre as dificuldades encontradas pela 

“Revolução”. Ao longo dessas discussões empíricas 

explicito as consequências teóricas de minhas con-

clusões, buscando contribuir para uma compreen-

são geral da produção da história e do nacionalismo, 

para além do caso cubano.




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