Revista Dados 1 nº de 2018. vp


“Em Defesa da Humanidade”: A Associação Cultural do Negro



Baixar 306.98 Kb.
Pdf preview
Página26/45
Encontro15.05.2021
Tamanho306.98 Kb.
1   ...   22   23   24   25   26   27   28   29   ...   45
“Em Defesa da Humanidade”: A Associação Cultural do Negro

DADOS –


Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 61, n

o

1, 2018



193


amizade, colaboração e fraternidade entre ambas as organizações ne-

gras se ampliassem e se consolidassem em proveito de um “ideal co-

mum”, pois, “num instante histórico como o que atravessamos atual-

mente”, asseverava a carta, os “povos negros de todo o mundo

procuram unir-se e organizar-se objetivando conquistar a sua emanci-

pação total, desvencilhando vigorosamente das algemas que há sécu-

los os escraviza e os humilha”

88

.



Inserida no circuito transnacional, a ACN desenvolveu uma consciência

e retórica de pertencimento a uma comunidade mais ampla: a da diás-

pora africana. A associação buscou ficar em sintonia com tudo o que

transcorria na vida do negro em âmbito local e global e, quando necessá-

rio, posicionou-se em defesa dele. Ela se manifestou contra vários casos

de “preconceito de cor” no Brasil. Permutou sua política racial e cultural

com a NAACP nos Estados Unidos, com a S.A.C. na França, com

Alioune Diop e outras lideranças do movimento negrista, do Caribe, e da



negritude, da Europa. Promoveu atos públicos de apoio aos negros, tanto

os que lutavam por direitos civis em solo yankee, quanto os que estavam

sendo vítimas do apartheid na África do Sul. Ainda liderou os protestos a

favor dos refugiados e mortos nos movimentos de libertação colonial no

continente africano. Pode-se concluir, portanto, que sua atuação carac-

terizou-se por uma perspectiva afro-atlântica. Isto leva a inferir como os

processos de racialização, assim como os discursos, programas, referen-

ciais e agenciamentos antirracistas, embora se arvorem muitas vezes

como locais ou nacionais, são construídos na híbrida rede transatlântica

que abrange as Américas, a Europa e a África.

Reagindo às injustiças raciais que lhes restringiam as possibilidades

de uma vida melhor, os “aceneanos” tomaram a história para si, escre-

vendo uma página de dedicação e entrega a uma causa coletiva, mes-

mo à base de sacrifícios pessoais. A esse respeito, José Correia Leite –

um dos remanescentes da ACN – teceu palavras bastante eloquentes

anos depois. Para um empreendimento daquela natureza, “é necessá-

rio espírito de renúncia, alguns sacrifícios e sobretudo idealismo”

(Leite, 1992:194). Na conjuntura atual, em que tanto se discutem os di-

reitos dos afro-brasileiros no concerto da nação – por meio de ações

afirmativas, cotas, Lei 10.639 –, faz-se necessário lembrar que essa luta

é antiga, e a Associação Cultural do Negro nela merece um papel de

destaque.

(Recebido para publicação em 18 de Fevereiro de 2016)

(Reapresentado em 31 de Janeiro de 2018)

(Aprovado em 12 de Fevereiro de 2018)




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   22   23   24   25   26   27   28   29   ...   45


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal