Revista Dados 1 nº de 2018. vp


“Em Defesa da Humanidade”: A Associação Cultural do Negro



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“Em Defesa da Humanidade”: A Associação Cultural do Negro

DADOS –


Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 61, n

o

1, 2018



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de maneira bastante atuante”. Era um tipo de discriminação que ele

denominou de “envergonhado”, isto é, “feito veladamente”. Haveria

“inúmeros exemplos” que demonstravam sua existência: “em todos os

nossos principais clubes esportivos, os negros são impedidos de fre-

quentar as piscinas e daí a razão de não haver nadadores de cor”. O

mesmo ocorreria em “numerosas outras atividades, em que a tez do in-

divíduo é condição sine qua non para sua admissão”. Portanto, “quan-

do se diz que no Brasil o problema não existe, que nosso país é o protó-

tipo da integração e da igualdade, está se dizendo uma inverdade”.

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Em 1959, a ACN se insurgiu contra a Sociedade Esportiva Palmeiras,



por ter excluído de sua “delegação de cestobolistas, que seguiu em ex-

cursão aos países da União Sul-Americana, o atleta negro Walter”

48

.

No mesmo período, a cantora Marita Luizi – chamada de “a artista ne-



gra do Sumaré” – foi alvo de “preconceito de cor” por parte da direção

do Restaurante Zillerthal, na capital paulista, que não quis atendê-la.

A associação, “no tempo oportuno, manifestou-se contra referida ati-

tude, coerentemente com sua posição antirracista, divulgando expres-

sivo manifesto a esse respeito”

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. De maneira análoga ela denunciou a



política de intolerância contra os alunos negros do colégio Nossa Se-

nhora Aparecida, localizado na cidade de Encantado, no Rio Grande

do Sul. Para tanto, realizou um debate público em sua sede sobre o

tema “discriminação de cor – nos esportes, agremiações esportivas e

recreativas, bem como em entidades culturais e religiosas”. Quando o

então governador daquele estado, Leonel Brizola, mandou abrir sindi-

cância para apurar o ato de discriminação racial do colégio, a ACN lhe

enviou uma mensagem de congratulação

50

.

Um destaque nas ações da ACN foram os seus esforços para estabele-



cer conexões com lideranças, movimentos, associações e eventos inter-

nacionais no concerto da diáspora negra. Paul Gilroy assinalou como

estratos da população africana e seus descendentes no Mundo Atlânti-

co – em particular do eixo Américas-Caribe-Europa-África – viajaram,

dialogaram, efetuarem trocas, empréstimos e influenciaram-se mu-

tuamente, com a difusão, apropriação e reelaboração de produtos e ar-

tefatos culturais, estilos estéticos, ideias políticas e projetos libertários,

constituindo um híbrido circuito de interconexões que ele qualificou

de Atlântico Negro (Gilroy, 2001). No pós-guerra – num contexto de

guerra fria, de luta por direitos civis nos Estados Unidos, de apartheid e

de descolonização na África –, a ACN buscou se inserir no circuito

mais amplo da diáspora afro-atlântica sob múltiplas perspectivas. Ela






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