Revista da sociedade portuguesa de medicina interna


P56 A DOENÇA CELÍACA E O ACIDENTE VASCULAR



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A DOENÇA CELÍACA E O ACIDENTE VASCULAR 

CEREBRAL

Ivo Cunha, Ricardo Pereira, Vasco Barreto



Departamento de Medicina, Hospital Pedro Hispano

Introdução: A doença celíaca, enteropatia autoimune, pode 

associar-se a manifestações neurológicas, como neuropa-

tia periférica e ataxia cerebelar. O acidente vascular cerebral 

é uma manifestação rara mas pelo maior risco conferido por 

doenças autoimunes de componente inflamatório crónico, pa-

rece igualmente pertinente a sua associação à doença celíaca.

Caso Clínico: Apresentamos o caso de um homem de 53 

anos, hipertenso, sem história familiar relevante, com enfartes 

lacunares e leucoencefalopatia isquémica atingindo a cápsula 

externa na ressonância magnética, traduzido por dois even-

tos agudos em dois meses. Do estudo apresentava défice de 

vitamina B12 e folatos, elevação ligeira de homocisteína, es-

tudo negativo para CADASIL e trombofilias, e adenomegalias 

mesentéricas em TC abdominopélvico por queixas abdominais 

inespecíficas  e  pesquisa  de  fenómenos  paraneoplásicos.  Do 

estudo, anticorpos transglutaminase e antigliadina A e G po-

sitivos e endoscopia digestiva alta, com biópsia, a confirmar 

a doença celíaca, com colonoscopia sem alterações. Iniciou 

dieta sem glúten e suplementação vitamínica, ambas de difícil 

adesão.

Discussão: A associação entre doença celíaca e doença cere-

brovascular isquémica tem sido descrita, ainda sem um meca-

nismo fisiopatológico claro. Vários têm sido propostos como os 

défices de vitamina B12, folatos e vitamina E, pelos seus efei-

tos  neurotróficos  e  neuroprotectores,  bem  como  associação 

destes a elevação da homocisteína, uma causa conhecida de 

fenómenos trombóticos; mecanismos autoimunes pela evidên-

cia, em raros casos, de anticorpos antineuronais e anticorpos 

antigangliosídeo e fenómenos vasculíticos do sistema nervoso 

central pelo possível efeito protetor da parede vascular conferi-

do pela transglutaminase, o autoantigénio principal na doença 

celíaca. É ainda difícil prever o efeito do tratamento quer a nível 

vitamínico, da homocisteína e da possível vasculite, uma vez 

que a compliance à dieta é de difícil obtenção. No presente 

caso, por todas as possíveis associações expostas, embora se 

tratasse de um doente hipertenso, mas ainda jovem, a doença 

celíaca não poderá ser excluída das possíveis causas de doen-

ça cerebrovascular isquémica.

Conclusões:  Embora  nem  os  mecanismos  fisiopatológicos, 

nem a sua evolução com o tratamento esteja esclarecida, a 

doença celíaca poderá ser incluída no estudo da doença ce-

rebrovascular isquémica, após excluídas as causas mais co-

muns, em doentes jovens, mesmo na ausência de sintomas 

gastrointestinais.




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