Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717


partir do acidental (casualidade), sem



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partir do acidental (casualidade), sem 
nexo sistêmico (LUHMANN, 2006, p. 336). 
Com isso, quer-se dizer que o sistema, 
que se mostra uma máquina “histórica”, 
como já se afi rmou, não gerará certezas 
de como se reagirá a determinado “input”, 
ou seja, se o “output” será no sentido 
de mudanças estruturais ou o fracasso 
sistêmico, em casos extremos. A pandemia 
da COVID-19 pode permitir um exercício 
prático bastante enriquecedor desses 
aspectos teóricos. Aliás, nesse ponto, 
Luhmann aponta uma característica do 
risco importante na sociedade complexa, 
e que impacta a atuação da Inteligência, a 
15 Tradução livre do autor.
16 Tradução livre do autor.
17 O autor entende que se caminha para uma sociedade mundial de sistemas funcionais, e o sistema econômico 
é o exemplo mais claro dessa constatação (LUHMANN, 1998, p. 86).
ideia de que “o adquirir mais informação 
não conduz a uma diminuição do risco, 
mas, pelo contrário, a seu aumento, 
devido a que se colocam em jogo mais 
fatores
16
” (CORSI et alii, 1996, p. 195). 
Nessa frase, condensam-se os conceitos 
de comunicação imperativa (decidir), de 
contingência e de complexidade crescente.
Isso reforça que o Poder Público, esse 
conjunto sistêmico que também se 
conhece como Estado (e Luhmann é 
crítico a esse tratamento
17
, pois o entende 
obsoleto), há de atuar para lidar com 
confl itos, esses sistemas parasitas, para, 
ao menos, controlar sua capacidade 
operativa dentro de limites que se diria 
toleráveis, operar nesse ambiente (decidir, 
comunicar) e continuar sua evolução. 
Nesse contexto de complexidade, Taleb 
aponta o que chamou de três falhas 
de decisão que impactam sistemas 
complexos: 1) pensar em estáticas e 
não em dinâmicas; 2) não pensar em 
dimensões altas, ou seja, contextuais; e 
3) pensar em ações em vez de interações 
ou interdependências (2018, p. 19). Isso 
mostra-se bastante válido para todo o 
Poder Público e especialmente relevante 
para a Inteligência. Recorde-se que 
essas falhas vão ao encontro da solução 
proposta por Luhmann de atuar com o 
que ele denomina de comportamento 
inteligente, qual seja, a capacidade “de 
identificar estruturas de desordem, 
as inconsistências, as dificuldades de 
orientação para encontrar decisões que 
possam ser trabalhadas com alguma 


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Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
Edgar Ribeiro Dias
racionalidade
18
” (LUHMANN, 2010, p. 49).
Ao associar essas falhas de decisão às 
estruturas de construção do conhecimento 
da Inteligência, há vícios que uma boa 
doutrina metodológica de Inteligência 
pode evitar, associada ao controle de 
seu exercício, como comportamento 
inteligente. Um desses vícios se apresenta 
de forma prévia, ou anterior, consistente 
na exageração de tendências de que 
determinado evento ou fenômeno 
potencialmente daninho possa ocorrer 
(“probabilidade razoável de que...”), um 
guarda-chuva protetor para qualquer 
ocorrência futura. De certo modo, sempre 
se “acerta” nesses casos, pois, se não 
ocorrer, eventuais medidas decorrentes do 
próprio conhecimento em tese ajudaram a 
evitar o evento. Isso se mostra uma falha 
doutrinária metodológica que gera pouca 
confiabilidade institucional. A segunda 
estratégia viciosa, posterior, consiste na 
alegação de “risco de cauda”, muito própria 
dos economistas, pois, se um evento não 
é previsto ou não é evitado, pode-se, no 
mais das vezes, alegar que se tratou de 
um evento de difícil previsão.
E n f i m , c o m o s i n s t r u m e n t o s 
metodológicos adequados associados 
ao controle e à responsabilidade — e 
responsabilização —, pode-se evitar 
esses escapes corrompidos. Nesse 
sentido, a Teoria dos Sistemas Sociais de 
Luhmann mostra-se promissora como 
orientadora metodológica de produção 
de conhecimento, capaz de proporcionar, 
especialmente, análises confi áveis, úteis e 
oportunas. Enfi m, o pensar em sistemas 
complexos, em confi gurações dinâmicas, 
18 Tradução livre do autor.
pode ser um guia de qualidade. Ressalte-
se, nesse contexto, a relevância do aspecto 
de construção da confi ança institucional.
As organizações estatais que trabalham 
Inteligência adotam (ou deveriam 
adotar) métodos próprios do sistema 
científico, próximos do que seria o 
binômio comunicativo verdade/não 
verdade, ainda que a verdade seja 
provisional, dependente de avanços e 
análises que produzam conhecimentos 
que tendem a ser superados. Recorde-
se que as organizações de Inteligência 
existem para absorver incertezas, reduzir 
a complexidade e se insertam como 
frutos de uma sociedade funcionalmente 
diferenciada. Se consideramos que têm 
como função preponderante absorver 
incertezas, o que reduz complexidades, 
as organizações/estruturas de Inteligência 
são como aviões que voam sob tormentas, 
e praticamente todo o tempo, pois quase 
nunca há céu azul; daí porque, como parte 
do sistema político, da Administração, elas 
necessitam de instrumentos que sondem 
(observem) os sistemas, seus interiores e 
seus exteriores, para que as informações 
sejam selecionadas por decisões que 
se sustentem na confiança e que, 
portanto, possam ampliar a certeza na 
comunicação realizada ao Poder Público. 
Por sua vez, o maior grau de certeza 
dessa comunicação ampliará igualmente 
o alcance de confi ança nas decisões que o 
Poder Público poderá tomar. Enfi m, se os 
instrumentos para os aviões são técnicas, 
simplifi cações, para reduzir incertezas, 
a Inteligência necessita igualmente de 
instrumentos — de natureza técnica, 


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Apontamentos sobre a organização das atividades de Inteligência de uma perspectiva sistêmica
legal, doutrinária, de pessoal e de material 
— para absorver incertezas e gerar 
conhecimentos oportunos e confi áveis. 
Sua função consiste em fornecer esses 
produtos ao complexo sistêmico que se 
denomina Poder Público e este, por sua 
vez, possa decidir no âmbito de suas 
diferenciações funcionais, notadamente, 
no campo de políticas públicas. Nesse 
sentido, apresenta-se aqui uma proposta 
teórica com pretensões doutrinárias no 
âmbito da produção de conhecimentos 
de inteligência.
Ainda que a Inteligência tenha equivalentes 
funcionais, como universidades
vinculadas ao sistema ciência, esses o 
são de forma limitada, específi ca. Ante 
as difi culdades naturais de atuar com o 
futuro, absolutamente incerto, sujeito a 
variações e, ainda mais, com instrumentos 
insufi cientes, há de se dotar a Inteligência 
de uma capacidade mínima razoável de 
produzir conhecimento de qualidade 
nesses contextos complexos.
Ortúzar, falando de economia, conforma 
um cenário que muito bem pode ser 
aplicável à organização de Inteligência.
(...) as sociedades modernas se 
caracterizam por um alto nível 
de diferenciação e complexidade 
(GUTSCHER et al., 2008) e, portanto, 
implicam a tomada de decisões 
arriscadas. Isto é, decisões que 
pressupõem a existência de um perigo 
em nosso entorno que devemos 
considerar ao momento de tomá-las.
Os riscos, inevitáveis dentro de 
quase qualquer decisão, devem ser 
trabalhados a partir da criação de 
certas seguridades respeito à realidade, 
chamadas expectativas e expectativas 
de expectativas. Elas nos asseguram 
um marco mínimo de ação confi ável ao 
nos permitir orientar nossas condutas e 
decisões (ORTÚZAR, 2012, p. 379).
Essas expectativas se relacionam à 
confi ança, relacionada ao tempo, e esta, ao 
se consolidar no sistema organizacional, 
mostra-se como antecipação do futuro 
no presente e, dessa forma, reduz 
complexidade (LUHMANN, 2005, p. 15-21). 
De forma mais clara, se a instituição de 
Inteligência logra gerar confi ança interna, 
em sua membresia (o que poderíamos 
classifi car, muito simplifi cadamente, como 
um adequado clima organizacional) e, 
externamente, na sociedade e no Poder 
Público, essa situação reduz complexidade 
por si, pois a prova de necessidade de 
existência estrutural e de qualidade é 
antecipada, ou seja, não se questiona a 
validez e a veracidade de seus serviços 
de pronto. Isso é ser confi ável. De forma 
específi ca à membresia, a produção de 
conhecimento em um ambiente onde 
exista confiabilidade torna-se mais 
amigável, para o segundo momento da 
qualidade, o exercício e o resultado da 
própria atividade-fim (conhecimento). 
Afi nal, a confi ança mostra-se essencial 
para a aceitação do conhecimento em si, 
onde a complexidade e a incerteza são 
reduzidas no caso concreto, ou seja, na 
análise fenomenológica a que se dispõe 
observar.

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