Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717



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RBI16verso23062022
Metodologia e Teoria 
Geral de Sistemas Sociais: 
1 Um dos tipos de empresas criminosas, compreendidas como organizações criminais parasitas, é a facção 
de base penitenciária, que é subproduto não desejado do sistema prisional e decorre de confl itos internos e 
externos os mais diversos, como falhas de inclusão, corrupção etc. De toda sorte, como sistema parasita, não 
é obra de nenhum ser humano em particular (e não se confunde com responsabilidade penal individualizada), 
mas, sim, fenômenos sociais próprios daquele sistema social que sobrevivem de forma parasitária.
conceitos básicos e a 
Inteligência como sistema 
organizacional 
Neste artigo, busca-se responder a uma 
pergunta principal: como a teoria de 
sistemas sociais de Niklas Luhmann 
mostra-se aplicável ao estudo de uma 
organização estatal de Inteligência? 
Ademais, propõe-se uma (sub)pergunta, 
complementar: como (e se) pode ser 
utilizado o método sistêmico de Luhmann 
na produção de conhecimento de 
Inteligência estatal? 
Como objetivo geral, propõe-se aplicar 
a teoria de sistemas para investigar 
as atividades de Inteligência estatal 
concentradas em uma agência, a ser 
compreendida como sistema complexo 
do tipo organização. Como objetivos 
específicos, sob essa mesma teoria, 
buscar-se-á diferenciar a atividade 
de Inteligência como política pública, 
especialmente sob a ótica dos conceitos 
de complexidade e défi cit de observação, 
e apontar desafios e sugestões para a 
produção de conhecimento, com recurso 
ao método sistêmico como ferramenta. 
A metodologia aplicada mantém fi delidade 
à proposta de Luhmann de descrição de 
fenômenos sociais como sistemas, no caso, 
um sistema organizacional complexo, uma 
agência estatal de Inteligência. Também se 
aporta à investigação o que Ocaña (2016) 
apresenta como método investigativo, a 
confi guração, que deriva das distinções 


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que o ser humano faz, ou diferenciações, 
das relações simultâneas existentes no 
mundo, ou “epistemologia sistêmica” 
(2016: 117). Com efeito, basicamente, para 
a teoria dos sistemas, busca-se distinguir 
sistema/ambiente (entorno) como 
diferença, ou seja, esse é, resumidamente, 
o processo de confi guração. Assim, pode-
se dizer que se busca confi gurar a agência 
estatal por meio de uma descrição de sua 
diferenciação sistêmica, como formas 
internas e externas. Enfi m, o desenho é 
não-experimental, posto construtivista-
funcionalista, com enfoque igualmente 
funcionalista, de alcance descritivo-
explicativo (diferenciação sistêmica). 
As técnicas adotadas são a análise teórica 
dos autores citados ao longo do texto e 
o conhecimento adquirido no exercício 
da atividade de Inteligência. Para fins 
de contextualização, serão colocadas 
exemplificações de casos hipotéticos 
ou reais para melhor compreensão 
conceitual, como é o caso do atual 
contexto de pandemia. 
Luhmann (2006) concebe a sociedade 
moderna como uma sociedade 
funcionalmente diferenciada, na 
perspectiva de uma sociedade fundada 
em uma teoria da diferença. É dizer, a 
sociedade (mundo) evoluiu e passou de 
uma sociedade de sistemas estratifi cados 
(vide, por exemplo, a sociedade feudal) a 
outra com funções diferenciadas (atual), 
ou seja, de sistemas parciais com funções 
específicas nessa mesma sociedade. 
Esses sistemas são unidades dotadas 
de autonomia que se diferenciam em 
entornos complexos, de acordo com 
funções sociais particulares, e operam de 
modo binário no processo comunicativo-
operativo. São exemplos o direito (com o 
código legal/ilegal), a política (situação/
oposição no poder) e a ciência (verdade/
não-verdade). Todos esses (sub)sistemas 
atuam de forma autônoma em termos 
funcionais, ainda que haja, obviamente, 
interdependência de uns com os 
outros. Assim, apesar de autônomos, o 
fechamento operativo desses sistemas 
não indica isolamento, a exemplo da 
interdependência e da interpenetração 
fundamentais para compreensão da atual 
complexidade. 
A Teoria Geral dos Sistemas Sociais de 
Luhmann se propõe, ademais, a conceituar 
a sociedade de forma “radicalmente 
a n t i h u m a n i s t a , r a d i c a l m e n t e 
antirregionalista y radicalmente 
constructivista” (LUHMANN, 2006, p. 20). 
Ou seja, o autor propõe um giro radical 
em relação às teorias sociais tradicionais. 
Entretanto, Luhmann não ignora o ser 
humano, somente o afasta como elemento 
da sociedade, daí o anti-humanismo, e o 
coloca como sistema mesmo — sistema 
psíquico —, que se acopla estruturalmente 
aos sistemas sociais, que são subsistemas 
da sociedade-mundo, e aos sistemas 
organizações. Trata-se de uma mudança 
em termos da prevalência dos conceitos de 
sujeito e de objeto das teorias tradicionais. 
Por outra parte, quanto à questão regional, 
Luhmann reconhece a existência de 
desenvolvimentos sociais espacialmente 
diversos, porém, ao se anunciar 
antirregionalista, busca trazer padrões 
descritivos, normativos e valorativos 
para sua proposta teórica, aplicáveis 
de forma geral. Essa é precisamente a 


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Apontamentos sobre a organização das atividades de Inteligência de uma perspectiva sistêmica
pretensão de ser universal da Teoria 
Geral dos Sistemas Sociais, não em 
sentido de ser única e acabada, e sim 
de aplicabilidade a qualquer fenômeno 
social e de buscar analisar a sociedade 
de forma “policontextual” 
2
; ou seja, como 
sociedade de sistemas marcados por 
essas citadas diferenças funcionais. O 
construtivismo, por seu turno, decorre da 
construção teórica de várias fontes, como 
a biologia, a psicologia e a cibernética, 
por meio das quais o observador extrai 
o conhecimento, fundado em suas 
“construções” ou conformações da 
realidade a partir de si próprio (CORSI 
et alii, 1996, p. 67). Aclaramos que, para 
Luhmann, o sujeito ou o objeto a que ele 
se refere como da “tradição sociológica” 
(ou clássicos) não se inserta em sua 
proposta teórica. A realidade social, para 
ele, constitui-se de sistemas parciais da 
sociedade-sistema. Não existe o que a 
tradição sociológica denomina de ação 
e estrutura, mas “somente sistema e 
entorno que coexistem, coevolucionam, e 
se autotransforman a partir de irritações
3
” 
(LUHMANN, 2006, p. 167); as irritações
4
são sempre autoproduzidas em cada 
sistema funcional. Essa é a perspectiva 
construtivista da qual o observador obtém 
o conhecimento a partir da diferença 
construída por ele entre a (auto)referência 
e a (hetero)referência, decorrente da 
2 “(...) la sociedad diferenciada por funciones se defi ne por esto como policontextural: muchas codifi caciones 
tienen validez simultánea aunque se rechacen mutuamente” (CORSI,1996, p.81). Isso nos remete ao conceito 
de confl ito como sistema social parasita (vide CORSI, 1996, p. 64).
3 Tradução livre do autor. Original: “(...) sólo sistema y entorno que coexisten, coevolucionan, y se autotransforman 
a partir de irritaciones”.
4 Mansilla, ao citar Maturana, informa que este utiliza a ideia de “gatilho” (2010, p. 13). Entretanto, nos parece, de 
fato, que o termo “irritação” transmite melhor o conceito de que as reações internas do sistema são próprias 
do sistema e se restringem a ele, ainda que referentes à heterorreferência.
5 Tradução livre do autor: Original: “(...) la existencia de un conjunto de posibilidades superior a las que de hecho 
pueden ser realizadas y exigen algún tipo de selección entre ellas”
6 Tradução livre do autor.
7 Tradução livre do autor.
observação de um dado sistema. Daí 
que o conceito de complexidade seja 
fundamental na teoria luhmanniana, 
pois os sistemas são o que são porque 
se diferenciam funcionalmente em razão 
da complexidade crescente da sociedade 
moderna.
Ademais, cite-se que a complexidade está 
compreendida no sentido de “existência 
de um conjunto de possibilidades superior 
às que de fato podem ser realizadas e 
que exigem algum tipo de seleção entre 
elas”
5
(VALLESPÍN, 2014, p. 14). Assim, a 
complexidade decorre do excesso de 
possibilidades e da necessidade de se 
restringir (selecionar). Com efeito, a relação 
entre elementos, ao cabo, a comunicação 
derivada dessa complexidade, destaca-
se na teoria, pois esses elementos 
comunicativos aumentam em “progressão 
geométrica” e, por assim dizer, obrigam o 
sistema a sempre realizar novas seleções; 
essa é a ideia de “contingência” e o que 
dá sentido ao sistema (LUHMANN, 2006, 
p. 102). Melhor explicado, para Luhmann, 
“comunicar significa restringir (colocar 
sob restrições a si mesmo e ao outro)
6
” 
(2016, p. 59). Obviamente, a correlação é 
direta, pois “como complexidade o sistema 
contém um excedente de possibilidades 
que ele reduz autosselectivamente
7
” 
(2016, p. 59). Se comunicar é restringir, 


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contingência, por sua vez, se refere a essas 
possibilidades mesmas de restrição, ou 
seja, há hipóteses de decisões diversas 
e equivalentes. A opção por uma 
possibilidade reduz a complexidade, 
porém a decisão mesma gera novas 
possibilidades e novos imperativos de 
decisão, ou seja, o decidir faz aumentar 
a complexidade em um aparente 
paradoxo. Se as possibilidades são, por 
exemplo, A, B e C, a opção por C mostra-
se uma redução da complexidade diante 
das três alternativas, mas, ao mesmo 
tempo, a opção contingente por C gerará 
novas possibilidades de comunicação, 
ou alternativas, decorrentes da decisão 
mesma, o que inclui os eventuais confl itos. 
Aliás, conflitos, segundo Luhman, são 
sistemas parasitas decorrentes de 
contradições na comunicação e são 
essenciais para a evolução da sociedade
8

desde que mantidos dentro de certos 
limites toleráveis (CORSI et alii, 1996, p. 64). 
Com efeito, as contradições, decorrentes 
do conflito, funcionalmente são como 
alarmes, advertências, de imunidade, de 
perigo, e funcionam como guia para a 
comunicação (CORSI et alii, 1996, p. 66).
Do ponto de vista da diferenciação 
mesma e do surgimento dos sistemas, 
excluído seu entorno, o sistema consolida 
sua comunicação “(…) cuando unas 
operaciones siguen inmediatamente a 
otras y con ello defi nen, al mismo tiempo, 
qué otras serán susceptibles de enlazarse 
ulteriormente” (LUHMANN, 1998, p. 170). 
Aclare-se existir entre sistema e entorno 
uma diferença: este é mais complexo 
que o sistema em si. Ademais, trata-
8 “La capacidade de la sociedad de admitir y tolerar confl ictos al interior de sí misma es ciertamente un 
presupuesto irrencunciable para su evolución” (CORSI et alii, 1996, p. 64).
se de uma diferença operativa e não 
ontológica, a partir do observador; a 
comunicação estabelece essa diferença, 
pois o entorno é um sistema, e o sistema 
é um entorno (OCAÑA, 2016, p. 54-55), 
como os sistemas direito, economia e 
saúde, todos dentro do sistema sociedade. 
Enfi m, os elementos componentes desses 
sistemas que se diferenciam serão suas 
próprias comunicações operadas de forma 
binária, com sentido, e, nesse processo, 
continuarão reduzindo e gerando 
complexidade de forma dinâmica, de 
maneira autorreferenciada e autopoiética, 
ou seja, formando seus próprios elementos 
a partir de si mesmos, as decisões em 
um entorno mais complexo e que geram 
sempre mais pressão por decidir dentro 
dos limites de seu entorno. Por exemplo, 
o sistema político, ao criar novas hipóteses 
de criminalização, gera complexidade 
para “irritar” o sistema direito e obriga-o 
a decidir; a irritação, contudo, é uma (auto)
irritação decorrente da diferença entre a 
(auto)referência e a (hetero)referência que 
gera uma operação comunicativa dentro 
do próprio sistema (autopoiese). O sentido, 
assim, entende-se como “a constante 
atualização de possibilidades” (LUHMANN, 
2006: 87); dessa forma, o sistema evolui.
A partir do marco teórico proposto por 
Luhmann (2006), como possibilidade 
de aplicação empírica, concebe-se três 
tipos de sistemas: 1) sistemas sociais, 
2) sistemas psíquicos (consciência) e 3) 
sistemas organizativos (organizações). Os 
sistemas sociais foram tratados em ponto 
anterior, como o direito e a economia. 
Por sua parte, os sistemas psíquicos se 


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vinculam a cada um dos sistemas sociais 
ou organizações pelo que se denominou 
acoplamento estrutural, mas, repita-se, 
não são elementos desses sistemas, ainda 
que sem eles, obviamente, não poderia 
haver comunicação, sempre mediada pela 
consciência, um dos sistemas do próprio 
ser humano; afinal, não se comunica 
sozinho
9
. Enfi m, os sistemas psíquicos se 
acoplam aos diversos sistemas sociais, 
como o direito, a ciência e a política, e às 
próprias organizações, as quais, por sua 
vez, vinculam-se ou não a determinados 
sistemas, como os bancos (sistema 
economia) e os hospitais (sistema saúde).
Com respeito às organizações, 
especialmente para este texto, estas 
também se insertam em um entorno 
mais complexo. Seus elementos, 
segundo a Teoria Geral dos Sistemas, 
são comunicações na forma de decisões 
como “unidade de função”, que têm 
sentido e são geradas pelo próprio 
sistema organizacional — daí dizer-se que 
são autopoiéticos, ou seja, geram suas 
próprias decisões
10
, dotadas de sentido, 
como fenômeno social, como forma de 
reduzir incerteza e produzir, assim, mais 
complexidade como imperativo de decisão. 
Esse processo todo é autorreferente, 
opera independentemente do entorno, 
operativamente fechado nesse sentido, 
ainda que se relacione com o exterior, 
não é isolado. As organizações, ademais, 
são os únicos sistemas sociais que podem 
se comunicar com outros sistemas. Sobre 
9 Segundo Luhmann, a comunicação, fenômeno eminentemente social, se constitui de: “[…] información 
(Information) que solo sorprende una vez; […] darla-a-conocer (Mitteilung) que — como toda acción — está 
ligada a un punto momentáneo en el tiempo, y para el entenderla (Verstehen) que no puede repetirse sino a lo 
sumo recordarse […] (LUHMANN, 2006, p. 49).
10 Porém, essas decisões não são binárias, como as comunicações dos sistemas sociais — político, direito, 
economia etc.
as organizações, cabe ainda pontuar 
sua peculiaridade sistêmica, pois “(...) 
establecen las condiciones de pertenencia, 
la membresía; tienen como entorno las 
comunicaciones que no la integran; y, 
con la exclusividad de las comunicaciones 
con otros sistemas” (MANSILLA, 2010, p. 
16). Cabe pontuar que esses tipos de 
sistemas, em face de serem autopoiéticos, 
independentemente da classifi cação de 
um observador, autocaracterizam-se 
como organizações. Por meio de seus 
elementos, decisões (comunicação de 
algo), com que tratam a incerteza, “seu 
aumento, sua especifi cação e a redução de 
seus custos”, as organizações se ocupam 
do futuro e, segundo resulte positiva ou 
não a absorção de incerteza, isso lhe dará 
mais ou menos êxito (LUHMANN, 2010, p. 
25-27).
A questão da incerteza para as 
organizações, assim, sejam elas quais 
forem, mostra-se essencial, pois seu 
ambiente não permite um cálculo 
confiável de decisões, ou seja, não 
absorve a incerteza a um grau que 
lhes permita decidir com segurança. 
De tal modo, o sistema deve encontrar 
razões para decidir dentro de si mesmo 
em um mundo escuro e contingente. 
Essa racionalidade na decisão deve ser 
ponderada, porque, se o retorno for 
incerto, com risco de comprometer a 
segurança, a decisão não pode ser um 
mero jogo de azar, arbitrário e quase 
imprudente. Portanto, Luhmann propõe 


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uma distinção entre comportamento 
racional e comportamento inteligente, isto 
no sentido de se permitir a identifi cação de 
“estruturas de desordem, inconsistências, 
difi culdades de orientação para encontrar 
decisões que possam ser gerenciadas com 
alguma racionalidade” (LUHMANN, 2010, 
p. 49). Nesse sentido teórico, e a título de 
aproximação, entendemos a Inteligência 
como uma organização, vinculada ao 
sistema político, essencialmente a ele, 
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