Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717



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RBI16verso23062022
Conclusões, ou andaimes
A conscientização das mulheres acerca 
de seu próprio preconceito internalizado 
e de como replicamos, nós mesmas, 
os estereótipos é um pressuposto 
de mudança. Trata-se, como diz bell 
hooks (2018), do “inimigo interno”, 
frequentemente de raízes profundas.
Sabíamos, por experiência própria, que, 
como mulheres, fomos socializadas pelo 
pensamento patriarcal para enxergar a 
nós mesmas como pessoas inferiores 
aos homens, para nos ver, sempre 
e somente, competindo umas com 
as outras pela aprovação patriarcal, 
para olhar umas às outras com inveja, 
medo e ódio. O pensamento sexista 
nos fez julgar sem compaixão e punir 
duramente umas às outras (HOOKS, 
2018, p. 23).
Porque esse pensamento é, na maioria 
das vezes, inconsciente e ancestral, 
há um emaranhado de relações que 
resultam no “enxergar-se como inferior 
aos homens”: se mulheres não têm 
referências de outras mulheres em postos 
de liderança, jovens profi ssionais carecem 
de modelos de condutas e trajetórias 
que sirvam de inspiração e que deem 
pistas de como é possível chegar lá; 
se mulheres não são treinadas, desde 
estudantes, para a cena pública, sentem-
se pouco confortáveis para assumir 
posição de representação institucional; 
se as mulheres não encontram jornadas 
flexíveis, valorização ou apoio coletivo 
para maternidade, surgem incertezas 
para aceitar desafi os profi ssionais que, 
no fi m, representarão apenas mais peso 
a seu cotidiano de sacrifícios. Ainda 
que não conscientemente, todas essas 
situações levam mulheres a esquivar-se 
de protagonismo, a um autoboicote em 
que, eventualmente, recusam missões 
que garantiriam a alavancagem de suas 
carreiras.
Da mesma forma, em relação aos 
estereótipos apontados pela CIA em 1992, 
também o contexto atual os explica: se “as 
longas horas necessárias para o sucesso 


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
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Estamos em obras: mulheres e atividade de Inteligência
são difíceis para as mulheres”, também o 
são para os homens; se empregos com 
boa remuneração e horários flexíveis 
representam aspirações das mulheres, 
não o fazem só para elas; e se conciliar 
vida particular com profi ssional é desafi o 
para mulheres, mas não só para elas, 
não se pode negar que as trabalhadoras 
trazem preocupações que não são só 
suas, que servem a todos, embora contem 
com estressores e cargas doméstica e 
emocional adicionais comparativamente 
aos homens. Reconhecer isso é valioso 
porque libera as mulheres de outro 
estigma: a do trabalhador difícil, que 
reclama, que pede demais e a quem, 
também por isso, não se deve confi ar uma 
posição de chefi a.
A OIT (2019) sugere que essa construção 
social cada vez mais frágil, com 
“vazamentos”, tetos, precipício e paredes 
de vidro, exige ajustes profundos: 
promover, ativa e responsavelmente, o 
equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, 
ao adotar, por exemplo, flexibilidade 
de horários e teletrabalho, além de 
reconhecer que no ambiente corporativo 
frequentemente são replicadas crenças, 
vieses e modelos que foram naturalizados 
pela sociedade, de forma que os 
desafi ar exige esforço de sensibilização, 
transparência, escuta.
Os estereótipos que circundam as 
mulheres parecem ser, em diversas 
profissões, estacas que sustentam um 
prédio cheio de fissuras. Entretanto
produções técnicas e acadêmicas sobre 
o assunto no âmbito dos serviços 
de Inteligência podem representar 
“andaimes”, contribuições que levam o 
tema para um outro patamar.


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Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
Anna Cruz

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