Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717



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RBI16verso23062022
Conclusões
Hughes & Oleson (2016, p.52) sintetizam 
com precisão o problema abordado neste 
artigo:
Inteligência e diplomacia estão fechadas 
em um casamento. Não se trata de 
um casamento de conveniência. 
Muito pelo contrário: um casamento 
por necessidade. Como todos esses 
casamentos, não é totalmente 
confortável para nenhuma das 
partes. Existem atritos e diferenças 
de perspectiva significativos que 
acompanham a dependência mútua. 
(tradução nossa)
A presente pesquisa se propôs a 
levantar e comparar as competências e 
práticas que caracterizam a Inteligência 
Externa e a diplomacia no Brasil, a 
fim de contribuir para a identificação 
de complementaridades e para o 
delineamento da natureza da relação 
entre ambas as atividades. Com base 
em revisão da bibliografi a internacional 
e em questionário aplicado a ofi ciais de 
Inteligência e diplomatas, este artigo 
pretendeu trazer para o contexto brasileiro 
discussão já consolidada na literatura 
acerca do tema e introduzir proposta de 
diagnóstico para a questão de pesquisa 
apresentada.
Em geral, os resultados gerados pelas 
respostas ao questionário corroboram 
as análises da literatura internacional 
sobre o tema. Quanto à natureza das 
relações entre Inteligência e diplomacia, 
a ampla maioria dos entrevistados 
identifi cou como de complementaridade 
e de apoio analítico e assessoramento, 
embora, na prática, perceba-se algum 
nível de competição e de resistência à 
integração, variável conforme o contexto 
e as experiências e percepções individuais 
dos agentes. O desconhecimento sobre 
a abrangência temática e sobre as 
competências da atividade de Inteligência, 
bem como a existência de clivagens 
temáticas tradicionais e consolidadas entre 
diplomacia e Inteligência, representam 
entraves ao aprofundamento da 
cooperação.
O levantamento decorrente do 
questionário relacionado a esta 
questão, que, em geral, coaduna-
se com o levantamento bibliográfico 


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
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Ana Martins Ribeiro
previamente apresentado, também 
sugere características específi cas acerca 
do contexto brasileiro: por um lado, o 
baixo nível histórico de institucionalização 
das relações entre as duas atividades, o 
que se refl ete na ausência de diretrizes 
e protocolos unifi cados e contínuos que 
facilitem a interação; e, por outro, o 
alto nível de dependência da disposição 
à colaboração por parte de oficiais 
de Inteligência e diplomatas, o que é 
indicativo do personalismo estrutural 
que caracteriza de forma mais ampla as 
relações interinstitucionais no Estado 
brasileiro.
No que se refere à relação de produtor-
consumidor entre as duas atividades, 
caracterizada como recíproca pela 
literatura, os resultados do questionário 
indicaram ênfase conferida ao apoio da 
Inteligência à diplomacia, o que parece 
ser resultado da busca por parte da 
Inteligência por sua consolidação como 
ator relevante para o assessoramento 
em temas internacionais, em paralelo ao 
tradicional protagonismo da diplomacia 
nesta seara. Como pondera Cruz (2019, p. 
2), a fi m de que a Atividade de Inteligência 
de Estado cumpra sua aspiração de ser 
imprescindível ao processo de tomada 
de decisão e à segurança da sociedade 
e do Estado brasileiros, é fundamental a 
sintonia entre produtores e usuários. No 
caso da Inteligência Externa, a diplomacia 
assume posição simultânea de usuária e 
fornecedora fundamental de insumos.
Com o intuito de agregar aspecto 
propositivo ao presente diagnóstico, 
buscou-se sintetizar, nos eixos abaixo, 
os diversos fatores mencionados 
pela literatura e pelas respostas ao 
questionário como favorecedores da 
articulação entre as duas atividades 
em prol da projeção externa do País: 
1. ampliação das discussões sobre 
Inteligência no processo de formação do 
corpo diplomático; 2. desenvolvimento de 
protocolos e estratégias de coordenação 
interinstitucional contínuos entre órgãos 
com competências externas; 3. redução 
do nível de aversão a riscos em processos 
decisórios relacionados à projeção externa 
nacional; 4. estabelecimento de instâncias 
permanentes de coordenação, a exemplo 
dos fusion centers, as quais favorecem 
tanto a articulação de esforços quanto a 
construção de confi ança entre instâncias 
de assessoramento e 5. facilitação dos 
fl uxos de difusão de documentos entre 
órgãos integrantes do governo federal que 
tratam de temáticas internacionais.
Por reconhecer a limitação desta 
pesquisa em relação a seu escopo e 
à representatividade das fontes de 
insumos, em razão do amplo predomínio 
de bibliografi a anglo-saxã na literatura 
que trata do assunto e da reduzida 
amostra do questionário aplicado, não se 
almejou esgotar a análise dos aspectos 
relacionados ao tema. A proposta deste 
artigo limitou-se a lançar luz ao problema 
proposto por meio de análise com recorte 
específi co e restrito, a qual se espera que 
possa representar ponto de partida para 
pesquisas futuras relacionadas ao tema 
no contexto brasileiro.


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
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Inteligência externa e diplomacia: interfaces e relações no contexto brasileiro

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