Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717



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Nesse sentido, a sistematização das 
metodologias de análise insere-se em 
debate mais amplo sobre a formação 
do próprio conceito de Inteligência 
predominante nos diferentes contextos 
nacionais e de suas fi nalidades (DAVIES, 
2020, pp. 14-16). Por exemplo, o termo 
Inteligência nos EUA normalmente se 
refere ao conhecimento produzido por 
meio de processo de análise de dados 
de diversas fontes, convertido em 
produto que ofereça opções de ação ao 
decisor. Davies associa o foco atribuído 
aos processos de análise no âmbito da 
Inteligência estadunidense a reflexões 
político-institucionais decorrentes do 
ataque à base norte-americana em Pearl 
Habor, o qual revelou falhas na Inteligência 
doméstica associadas à disponibilidade 
de grande volume de dados brutos 
e a deficiências na capacidade de 
processamento desses dados para 
construção de análises e assessoramento 
efi caz dos decisores.
4. Finalidades e objetos
Sobre esse aspecto, enquanto a 
Inteligência se caracteriza por sua 
f i n a l i d a d e p r e d o m i n a n t e m e n t e 
informacional e de assessoramento, a 
diplomacia, além dessas finalidades, 
também tem como função precípua 
a formulação e a execução da política 
externa. Como sintetiza Raje (2019, p. 6 – 
tradução livre), “a essência da Inteligência 
como instituição é fornecer informação e 
previsão para outros atuarem. Não se trata 
de instituição decisora ou executiva. A 


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
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Ana Martins Ribeiro
diplomacia, por outro lado, é responsável 
por fazer e executar políticas, bem como 
obter informações (...)”.
Em relação aos objetos, embora a literatura 
reconheça a relativa sobreposição temática 
em termos conceituais, destaca que, na 
prática, diplomacia e Inteligência assumem 
protagonismo em relação a objetos 
distintos. Por um lado, a Inteligência 
assumiria maior autoridade em temáticas 
que envolvam segurança, como tensões 
e confl itos armados, geopolítica militar, 
proliferação de armas de destruição em 
massa, segurança humana e sanitária e 
terrorismo. Por outro lado, a diplomacia 
afi rmaria sua primazia em temas político-
econômicos (HERMAN, 2001, p. 35). Em 
ambos os casos, o protagonismo de uma 
instituição não excluiria os benefícios da 
atuação complementar da outra acerca 
dos mesmos objetos, como exemplifi ca 
a área de Inteligência Econômica, a qual 
assume relevância crescente em diversos 
serviços de Inteligência.
Por fi m, o sigilo e a condição de “instituição 
de bastidor” que caracteriza a Inteligência 
permite a incorporação de agendas e 
temas sensíveis, inclusive no âmbito das 
relações internacionais, por vezes, não-
alinhados à posição ofi cial do governo, 
externada por seu corpo diplomático.
5. Legitimidade e 
reconhecimento internacional
Tradicionalmente, estabeleceu-se 
relativo consenso na literatura de que 
a diplomacia, enquanto representação 
ofi cial do governo no sistema internacional 
(front door people), gozaria de legitimidade 
absoluta junto a atores externos, enquanto 
a Inteligência (back door people) atuaria em 
espectro não-ofi cial do sistema, à margem 
da normatização internacional (Herman, 
2001, p. 34). No entanto, os debates acerca 
da legitimidade e do reconhecimento 
internacional conferidos à Inteligência 
assumiram novos contornos a partir dos 
atentados de 11/9 nos EUA.
Para Raje (2019, p. 5), os atentados teriam 
conferido nova legitimidade à Inteligência e 
afi rmado seu reconhecimento como player 
global. Os refl exos dessa nova legitimidade 
resultaram na ampliação dos mandatos 
de atuação conferidos à Inteligência, 
bem como no aumento da destinação 
de recursos públicos à atividade. Sobre 
o fator orçamentário, Davies (2020) e 
Herman (2001) destacam que as alocações 
orçamentárias à Inteligência em países 
como EUA e Reino Unido superam os 
gastos com diplomacia. A tendência 
de estabelecimento de mecanismos 
oficiais de articulação entre agências 
governamentais para temas de segurança, 
como os fusion centers, também se insere 
nesse contexto e representou novo campo 
de atuação cooperativa entre Inteligência 
e diplomacia.
6. Estruturas de comando
Por fim, Inteligência e diplomacia 
submetem-se a diferentes cadeias de 
comando dentro da estrutura do Estado. 
Em geral, a diplomacia, atividade exercida 
por unidade encarregada especifi camente 
das relações exteriores ofi ciais, integra 
cadeia hierárquica civil, frequentemente 
subordinada à própria chefi a do Poder 
Executivo. As cadeias de comando 


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Inteligência externa e diplomacia: interfaces e relações no contexto brasileiro
da Inteligência apresentam maior 
heterogeneidade na comparação entre 
países e apresentam subordinação tanto 
a estruturas civis quanto a militares.

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