Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717


parte do planejamento a transferência



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parte do planejamento a transferência 
de todos os comandos militares para 
dispositivos móveis e a transferência do 
dignitário norte americano e de todas 
as funções da Casa Branca para locais 
afastados, como bases móveis ou bunkers
ainda a serem construídos.
Dentro do projeto, concebeu-se uma 
complexa rede de comunicação digital 
baseada em nós de rede e blocos, de 
modo a possibilitar vários caminhos 
para as mensagens, que convergiriam 
a um único ponto fi nal. Se algum fl uxo 
de comunicação fosse interrompido, a 
integridade da mensagem e seu respectivo 
direcionamento permaneceriam 
garantidos. Um dos legados do sistema 
de comunicações projetado para o 
WWMCCS alcançou a esfera civil, servindo 
de base conceitual para a rede mundial de 
computadores, conhecida como internet 
(SCHLOSSER, 2015, p. 320).
Os avanços conceituais e projetos 
sofi sticados de mobilização, no entanto, 
conviviam com falhas e descrenças quanto 
a efi ciência do WWMCCS. A despeito de 
planos e protocolos concebidos para o 
caso de explosões nucleares, o sistema 
continha inconsistências de logística 
e de tecnologia. Schlosser, a partir de 
documentos desclassificados de 1967 
e 1968, indica que, apesar de contar 
com oito sistemas de alerta, 60 redes de 
comunicação, 100 centros de comando 
e 70 mil homens mobilizados, o aparato 
americano de alarme de ataque nuclear 
poderia ser facilmente sabotado. Ainda 
houve casos de morosidade comprovada 
e extravio de mensagens por conta de 
incidentes durante a Guerra dos Seis 
Dias (1967) e quando do ataque ao navio 
americano Puebla pela Coreia do Norte 
(1968). Em 1971, outro relatório indicaria 
que 
(...) a resposta americana a um 
ataque nuclear seria imperfeita, mal 
coordenada e em grande medida 
descontrolada, com homens confusos 
e amedrontados tomando decisões 
quando sua autoridade para fazê-lo 
seria questionável e as consequências, 
devastadoramente bombásticas 
(SCHLOSSER, 2015, pp. 412, 413).
O já citado relatório GAO de 1979, 
apesar de reconhecer a importância do 
Programa para o Processamento de Dados 
(ADP), reafi rma as críticas ao WWMCCS. 
Especifi camente em relação ao ADP que, 
até aquele ano, já havia consumido um 
bilhão de dólares e solicitava aportes 
extras de orçamento. O documento 
também chamava atenção para problemas 


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Perspectivas e desafi os para o trabalho integrado em centros de Inteligência
no gerenciamento do programa, a cargo do 
WWMCCS, que já vinham sendo apontados 
desde 1966 e que ainda careciam de 
solução. 
Paradoxalmente ao que fora idealizado 
para o WWMCCS, o gerenciamento do 
ADP foi criticado, no relatório de 1979, 
pela complexa estrutura do sistema, 
que se apresentava tão fragmentado a 
ponto de impossibilitar organizações ou 
pessoas de terem uma visão completa 
de seu funcionamento ou mesmo de 
sua gestão. Como consequência desses 
aspectos, o GAO afi rmava, entre outras 
questões, que o programa não atendia 
a demandas nacionais ou locais, não era 
resiliente, era inefi ciente no fl uxo de dados 
e informações e estimulava iniciativas de 
desenvolvimento de soluções de forma 
descentralizada e descolada do programa. 
Como exemplo de falhas de gestão 
apontadas no relatório, está a escolha 
equivocada de equipamento para suporte 
do ADP, que não se adequava às condições 
do ambiente de uso. 
Por fi m, para corrigir as falhas apontadas, 
o GAO recomenda ao Secretário de Defesa 
que todo o sistema de informações e de 
dados do WWMCCS passe a ser gerido 
por uma unidade central. Essa unidade 
deveria ser responsável por estabelecer 
critérios para compartilhamento de 
dados, planejamento e operação da rede, 
além de simplificar o intercâmbio de 
informações entre diferentes comandos 
de forças militares. Ao congresso, o GAO 
recomenda racionar o fundo orçamentário 
destinado ao Programa, condicionando a 
sua liberação ao atendimento de medidas 
de otimização.
Soma-se aos problemas de projeto e 
de gestão, a lógica de desconfiança e 
resistência dos militares face ao controle 
civil do WWMCCS (SCHLOSSER, 2015). 
Além da desconfi ança, a centralização do 
comando nas mãos do presidente também 
fomentava disputas entre as forças 
por acesso privilegiado ao dignitário. 
Isso estimulava a formação de ilhas de 
informação retidas pelos comandos, à 
espera do momento ideal de difusão ao 
presidente ou ao secretário de defesa. 
O WWMCCS foi desativado em 1996 
e substituído pelo Sistema Global de 
Comando e Controle (GCCS). De concepção 
bem mais simples, tinha as diversas 
subdivisões vinculadas às próprias 
agências integrantes e conectadas pelo 
sistema Direct, cujos terminais eram 
portáteis (SCHLOSSER, 2015).
Além do próprio ocaso da guerra fria, 
consideremos dois últimos fatores para 
a compreensão das críticas e da posterior 
desativação do WWMCCS. O primeiro, 
o gigantismo que envolvia o projeto. O 
segundo, o aparente desalinhamento 
de percepção dos operadores de defesa 
e de política externa nos EUA entre o 
momento das tensões daqueles dias 
que antecederam à ideia da criação 
do WWMCCS e o movimento de longa 
duração histórica em que estavam 
inseridos. De fato, a crise dos mísseis 
é um evento extemporâneo dentro do 
período assinalado por Sombra Saraiva 
como coexistência pacífica e, logo 
adiante, détente. Trata-se, sem dúvida, 
de momento de evidente risco de ataque 
nuclear direto por parte dos soviéticos e, 
de fato, traumatizante o sufi ciente para 


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Gustavo Ferreira
desencadear urgentes e consistentes 
políticas de defesa. O episódio também 
serviu para que as duas potências 
avaliassem suas reciprocidades de 
conduta (SARAIVA, 1997), e se lançassem 
em um longo processo de dissuasão que 
levaria ao próprio fi m do bloco soviético, 
já na entrada dos anos 1990.
Ao olhar dos dias de hoje e dentro da 
confortável análise que o distanciamento 
histórico nos dá, podemos concluir que o 
WWMMCCS fora implementado no período 
em que a guerra fria moldava os seus 
principais atores para a autopreservação 
e a respectiva emissão de sinais para a 
coexistência pacífi ca. O risco de embates 
militares reais entres EUA e URSS não 
mais se repetiria até a dissolução do bloco 
comunista. 
Por outro lado, a contraposição ideológica 
subsistia e reproduzia o espectro da 
ameaça sobre a sociedade. Assim, 
conformava-se o cenário de incertezas e 
a necessidade de respostas por parte dos 
governantes.

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