Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717


partir do século XVI, com base em quatro



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partir do século XVI, com base em quatro 
matrizes institucionais e históricas — 
economia, guerra, diplomacia e polícia 
—, essas organizações permanentes e 
profi ssionais responsáveis por processar 
informações estratégicas tinham como 
principais alvos “(...) informações sobre 
inimigos e conspiradores e informações 
internacionais” (BRASIL, 2016a, p.15).
Foi nesse contexto de disputas entre 
Estados que se moldou a atividade 
de Inteligência, em um ambiente 
extremamente competitivo em que a 
guerra representava o ápice das tensões 
e o momento em que o impacto da 
Inteligência era mais imediato (CEPIK, 
2003). Obter e analisar informações 
sobre “inimigos” em situações de confl ito 
envolvendo o Estado, portanto, sempre 
fez parte das atribuições esperadas de um 
serviço de Inteligência.
Já no século XX, após os marcos 
representados pela Segunda Guerra 
Mundial e pela Guerra Fria, o cenário 
envolvendo confl itos violentos pelo mundo 
foi profundamente alterado na década 
de 1990. A promessa de que o fim da 
bipolaridade global traria tempos mais 
pacífi cos não durou muito. Sem o pano de 
fundo da disputa entre Estados Unidos da 
América (EUA) e União Soviética, confl itos 
profundamente enraizados, de diferentes 
naturezas, que estavam “congelados” 
pela Guerra Fria emergiram, sobretudo 
na África e na Ásia, como também nos 
Bálcãs (HARRIS e REILLY, 1998). Ainda 
em meados dos anos 1990, eventos 
traumáticos evidenciaram a inaptidão 
das operações de paz da Organização das 
Nações Unidas (ONU) para evitar confl itos 
étnicos extremos na Iugoslávia, Ruanda, 
Burundi e Somália (LEVINGER, 2013).
A ocorrência de genocídios na África e 
na Europa às vésperas do século XXI e 
a incapacidade das forças militares de 
grandes potências de evitá-los explicitaram 
graves falhas na condução de ações de 
prevenção e gerenciamento de confl itos, 
assim como lacunas importantes na 
compreensão, por parte dos atores 
externos, das raízes das disputas e 
das dinâmicas próprias dos contextos 
conflituosos daquele período. A partir 
dessa constatação, os trabalhos de 
estudiosos em temas como guerra e paz, 
negociação, prevenção e gerenciamento 
de confl itos violentos ganharam maior 
relevância e passaram a embasar o 
trabalho de analistas e especialistas de 
diferentes organizações, preocupados 
em entender melhor os contextos e 
os impactos de suas ações em regiões 
confl agradas (LEVINGER, 2013). É nesse 
contexto que se desenvolve a análise de 


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
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Thiago Nogueira Silveira
confl itos.
A análise de conflitos é praticada por 
profi ssionais que atuam em organizações 
que lidam diretamente com situações 
confl ituosas pelo mundo, seja prestando 
ajuda humanitária, planejando e 
aplicando ações e programas para o 
desenvolvimento econômico de áreas 
assoladas por confrontos violentos
1
, ou 
atuando em missões de paz da ONU. O 
termo análise (ou avaliação) de confl itos 
é amplamente empregado na literatura 
acadêmica sobre guerras contemporâneas 
e em guias práticos elaborados pelas 
próprias organizações para orientar o 
trabalho de profi ssionais.
Em linhas gerais, as defi nições de análise 
de confl itos ressaltam seu caráter prático, 
uma vez que ela é sempre orientada para 
a ação (tal qual a Inteligência), tendo como 
propósito a descrição de atores, causas e 
dinâmicas que confi guram uma situação 
confl ituosa específi ca (WOOCHER, 2011).
Para isso, no entanto, não existem 
métodos rígidos ou ferramentas 
analíticas específicas. Os manuais de 
análise de confl ito geralmente orientam 
os profissionais a escolherem, dentre 
uma gama de ferramentas ou técnicas 
disponíveis, aquelas que sejam mais 
adequadas a cada caso, adaptando-as à 
situação determinada. Como destacou 
Woocher (2011), os meios específicos 
de análise não são uma característica 
1 São exemplos de organizações desse tipo a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional 
(USAID), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), a Agência Alemã de 
Cooperação Internacional (GIZ), a International Alert e a Saferworld, entre outras.
2 O artigo de Woocher traz no original os termos “confl ict assessment” — considerado pelo próprio autor um 
sinônimo de “confl ict analysis” — e “intelligence analysis”, em vez de “inteligência”, conceito que preferimos utilizar 
em consonância com a Doutrina Nacional da Atividade de Inteligência (BRASIL, 2016a). Retomaremos mais 
detidamente essa discussão na seção “Análise de Confl itos, Intelligence Analysis e Produção do Conhecimento”.
defi nidora da avaliação de confl itos.
Diferentemente do que acontece com 
a análise de conflitos, a produção de 
conhecimentos de Inteligência está inserida 
em ciclos e segue metodologias próprias, 
definidas por estruturas burocráticas 
específicas, dedicadas à produção de 
informações estratégicas difundidas para 
decisores geralmente bem posicionados 
na cadeia hierárquica governamental. Não 
obstante, produtores de Inteligência sobre 
confl itos contemporâneos frequentemente 
enfrentam desafi os analíticos semelhantes 
aos profi ssionais da análise de confl itos.
Muito embora existam ainda outras 
diferenças entre as duas abordagens, 
há igualmente uma série de pontos de 
convergência e complementaridades 
que apenas começaram a ser exploradas 
por pesquisadores, mas que apresentam 
grande potencial de sinergia, conforme 
Woocher (2011), um dos primeiros 
estudiosos a recomendar explicitamente 
maior interação entre análise de confl itos 
e Inteligência
2
, a partir da identifi cação dos 
pontos fortes e possíveis armadilhas de 
ambas.
Diante desse quadro de pesquisas ainda 
incipientes, evidencia-se a necessidade de 
mais estudos — e eventuais contribuições 
práticas — sobre as possibilidades de 
aproveitamento de técnicas e ferramentas 
próprias da análise de confl itos em apoio 


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Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
Análise de confl itos aplicada à produção de conhecimentos de Inteligência: um estudo exploratório
à Inteligência.
O artigo que se apresenta tem por objetivo 
contribuir para essa discussão, explorando 
convergências e divergências das duas 
práticas e avaliando possibilidades 
de emprego da análise de conflitos 
como técnica acessória à produção de 
conhecimentos de Inteligência.
Esse propósito foi buscado por meio 
de revisão de literatura especializada 
sobre atividade de Inteligência e do 
cotejamento de diferentes estudos sobre 
os dois métodos em tela — análise de 
confl itos e produção de conhecimentos 
de Inteligência. No caso da análise de 
confl itos, também foram considerados 
manuais práticos de organizações 
internacionais.
Não são poucas as situações confl ituosas 
internas com as quais o Estado brasileiro 
precisa lidar, ainda que muitas delas se 
mantenham latentes (quanto ao uso 
de violência) durante a maior parte do 
tempo. Levando em conta sempre as 
evidentes diferenças existentes entre 
conflitos armados de elevado nível 
de complexidade e violência — como 
guerras civis — e as disputas domésticas 
entre entes não-estatais que demandam 
atenção de autoridades nacionais, são 
estas que de maneira mais constante 
ocupam a agenda dos principais usuários 
da Inteligência brasileira, sobretudo 
quando os desdobramentos decorrentes 
da situação conflituosa impactam 
interesses estratégicos do Estado e/ou a 
segurança da sociedade nacional. A quase 
totalidade desses litígios envolve algum 
nível de mediação institucional, inserida 
nos marcos do confronto democrático de 
interesses entre grupos — nem sempre 
organizados —, o que confere ainda certo 
grau de sensibilidade ao quadro.
Um dos pressupostos da Inteligência, 
segundo a Política Nacional de Inteligência 
(PNI), é prestar assessoramento oportuno 
ao processo decisório, antecipando 
ameaças ou riscos aos interesses da 
sociedade e do Estado (BRASIL, 2016). 
Conflitos internos entre grupos com 
interesses opostos podem representar 
tanto ameaças a serem mitigadas quanto 
indicativos de mudanças naturais de 
sociedades em constante transformação 
— ou mesmo ambas as situações. 
Auxiliar as autoridades constituídas a 
compreenderem melhor o contexto e 
a dinâmica desses conflitos, para que 
tenham maior segurança nos processos 
decisórios que os envolvam, é papel da 
Inteligência.

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