Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717



Baixar 2.33 Mb.
Pdf preview
Página32/83
Encontro02.08.2022
Tamanho2.33 Mb.
#24436
1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   83
RBI16verso23062022
fake news; e g) a avaliação da interferência 
externa de países estrangeiros.
Entre os atores que conduzem ameaças 
por meio de plataformas de redes sociais 
digitais estão: a) terroristas e grupos 
extremistas que se valem de ferramentas 
on-line para perpetrar campanhas de 
desinformação e promoção do medo 
coletivo (elemento de guerra psicológica), 
propaganda ideológica, recrutamento de 
membros, difusão de informações acerca 
de fabricação de artefatos explosivos e 
sobre locais de interesse para perpetração 
de atentados; b) organizações criminosas 
que articulam e patrocinam atividades 
ilícitas, a exemplo de pornografi a infantil, 
contrabando, tráfi co de pessoas, lavagem 
de dinheiro e transações em moeda digital 


64
Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
Daniel Fugisawa de Souza e David Ricardo Damasceno do Bomfi m
em favor do tráfico de entorpecentes; 
c) grupos que articulam movimentos 
paredistas para causar instabilidade no 
fornecimento de serviços essenciais; d) 
negociação de dados pessoais sensíveis 
(cadastrais, médicos e financeiros, por 
exemplo); e e) organizações estatais 
e agentes privados patrocinados por 
nações concorrentes ou adversárias, 
que conduzem campanhas on-line para a 
desestabilização de instituições de Estado.
Outro aspecto que sugere a importância do 
investimento massivo em tecnologias que 
tratem dados coletados de plataformas 
digitais de rede social é a existente 
competição entre órgãos nacionais 
de Inteligência para se posicionarem 
como autoridade nas diversas temáticas 
que envolvem a segurança nacional. 
A Inteligência de Estado não concorre 
somente com frações governamentais 
congêneres para apresentar um panorama 
ou uma perspectiva sobre um evento ou 
uma ameaça com ineditismo e com a 
esperada oportunidade. Atores como a 
imprensa, os think tanks, o setor privado e 
mesmo contatos de ordem pessoal podem 
fi gurar como concorrentes do órgão de 
Inteligência de Estado, como também 
suscitar questionamentos acerca da 
efi ciência dos meios ofi ciais de produção 
de conhecimentos estratégicos.
Há momentos em que é cabível a aplicação 
de técnicas tradicionais de coleta (que 
submetem alguém a uma entrevista, por 
exemplo) para a confecção de relatórios 
detalhados com interpretações e 
prospecções de cenários; entretanto, há 
emergências em que mais vale o emprego 
de tecnologias que busquem relações 
ou padrões não-óbvios de fenômenos e 
que alimentem em tempo real um painel 
(dashboard) acessível para consulta on-line
pelo tomador de decisão.
Nessas emergências, é comum que cause 
mais impacto para o tomador de decisão 
o ineditismo da notícia apresentada do 
que a entrega de um relatório detalhado 
sobre o evento. O emprego de sistemas 
cognitivos dotados de algoritmos de 
Aprendizado de Máquina vem satisfazer 
tanto a inferência de relações entre 
variáveis para visualização abrangente do 
problema, quanto a capacidade preditiva 
para traçar estimativas.
Com a emergência das agências globais 
de notícia, a manutenção da consciência 
situacional pela Inteligência acerca de 
algum evento tende a ficar defasada 
na ordem de horas ou dias em relação 
à conquistada pela imprensa. Esta, 
por sua vez, tende a ficar, no mínimo, 
horas desafada em relação às primeiras 
postagens por perfis de pessoas ou 
instituições em plataformas de redes 
sociais. Por consequência, os órgãos 
governamentais de Inteligência tendem 
a ficar cada vez mais defasados e 
desacreditados caso não apostem com 
robustez no emprego das técnicas e no 
desenvolvimento das capacidades de 
SOCMINT.
A Primavera Árabe (dezembro de 2010) 
é um caso emblemático. O evento foi 
substancialmente articulado por meio de 
plataformas de rede social. Nessa situação, 
ativistas revelaram que usaram o Facebook 
para agendar os protestos, coordenaram 
as ações durante os protestos via Twitter 


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
65
Ciência de dados e produção de conhecimentos de Inteligência: potencial da análise de dados de redes 
sociais digitais para a atividade de Inteligência
e difundiram as transmissões ao vivo por 
meio do Youtube. Enuncia-se o evento 
como o primeiro a proporcionar a difusão 
de informações sobre a manifestação 
com célere e generalizada violação das 
restrições governamentais.
Outros eventos relevantes para 
demonstrar o impacto das redes sociais 
no contexto da Inteligência abrangem: a) 
os protestos pela prisão do presidente 
deposto das Filipinas em abril de 2001; 
b) os ataques terroristas em Mumbai em 
novembro de 2008; c) os protestos em 
contestação aos resultados das eleições 
na Moldávia em abril de 2009; d) a suspeita 
de interferência russa nas eleições 
estadunidenses em 2016 e nas francesas 
em 2017; e e) a articulação em redes 
sociais da paralisação dos caminhoneiros 
autônomos (“crise do diesel”) no Brasil em 
maio de 2018.
Na maioria dessses eventos, apesar de 
as agências de Inteligência e de as forças 
de segurança terem reagido tardiamente, 
vários atores governamentais passaram 
a estudar a aquisição de ferramentas e a 
contratação de profi ssionais qualifi cados 
para adotar soluções de coleta e de 
processamento de dados de redes sociais 
digitais. Esse esforço é referenciado 
como dataveillance
19
e compreende 
o monitoramento de organizações 
criminosas, de grupos extremistas e de 
19 Dataveillance é uma forma de vigilância contínua através do uso de dados e de metadados (CLARKE, 1988).
20 Web crawlers são algoritmos que indexam páginas da web em cascata, ou seja, dado um endereço inicial (ou 
conjunto de endereços iniciais) e algumas condições (por exemplo, quantos links ainda faltam, tipos de arquivos 
a serem ignorados), eles fazem o mapeamento de tudo o que está vinculado a partir do ponto de partida. Podem 
ser utlilizados para arquivamento de dados que estariam inativos em um sistema, mas que seriam úteis, por 
exemplo, para fi ns de auditoria e de processos afetos à verifi cação de conformidade (compliance).
21 Web scrapers são algoritmos que extraem conjuntos de dados de recursos online e os armazenam em um 
formato estruturado (XML ou planilha, por exemplo) para viabilizar ou facilitar o processamento posterior por 
ferramentas de análise de dados. O termo “raspagem de dados” é amplamente difundido para referenciar a 
ação de web scrapers.
atores que se prestam a constranger a 
ordem pública (CLARKE, 1988).

Baixar 2.33 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   83




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal