Revista Brasileira de Inteligência e-issn 2595-4717



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RBI16verso23062022
Contrapor agricultura 
a meio ambiente é um 
conceito superado
A agropecuária brasileira representa um 
ativo estratégico de inegável importância 
para o Brasil e, em que pese seu caráter 
heterogêneo, pode ser defi nida como uma 
atividade moderna, dinâmica e altamente 
competitiva. Do jogo global dos produtos 
agropecuários, participam quatro grandes 
nações: China e Índia, que representam 
os maiores acréscimos no consumo (e, 
no caso da China, na importação), e Brasil 
e Estados Unidos da América (EUA), que 
disputam, palmo a palmo, a condição de 
grandes supridores globais (BUAINAIN et 
alii, 2014). 
Ao interligar a rede produtiva e alinhavar 
os agentes desde o início (insumos) até 
o fim (comercialização) do processo, 
o agro no Brasil acarreta a geração de 
emprego e renda, e insere o país de forma 
diferenciada no comércio internacional 
de commodities; além disso, em vários 
momentos da história, o setor teve 
relevante papel anticíclico, ao estimular 
a economia em períodos de estagnação 
(ASSAD, et alii, 2012). Esse desempenho 
pôde ser observado recentemente. 
Segundo o Centro de Estudos Avançados 
em Economia Aplicada da Escola Superior 
de Agricultura Luiz de Queiroz/USP, em 
2019 o agronegócio cresceu 3,81% em 
relação ao ano anterior e representou 
21,4% do produto interno bruto (PIB) 
brasileiro. Mesmo em meio a uma 
pandemia, o agro continuou crescendo 
em 2020. Por representar um importante 
papel no desenvolvimento da sociedade e 
contribuir para o crescimento econômico 
e a segurança alimentar, a atividade 
agropecuária tem sido considerada um 
segmento-chave no Brasil; contudo, 
sua trajetória tem sido marcada por 
desencontros com forças que representam 
outro ativo nacional igualmente importante 
e definidor da importância do país na 
ordem mundial, o meio ambiente. Para 
um olhar descuidado, as fricções entre os 
setores agro e ambiental podem causar 
a impressão de que existe uma relação 
de mútua exclusão entre o movimento 
de expansão da produção agropecuária 
brasileira e a conservação da natureza; 
porém, contrapor agricultura a meio 
ambiente é hoje um conceito superado. 


Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
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Daniel Almeida de Macedo
A conciliação entre ambas as dinâmicas 
certamente não é algo simples, mas é 
um horizonte inevitável, um imperativo 
histórico inexorável que já está se 
efetivando em diferentes ritmos e escalas, 
a despeito de todas as dificuldades. 
Um amplo acervo de inovações revela 
que os custos socioambientais estão 
sendo progressivamente internalizados 
pelo ruralismo moderno no Brasil, 
que compensa esses gastos com 
mais e mais inovações tecnológicas e 
métodos ultraprodutivos (ARIAS et alii
2017). Atualmente, estão em curso o 
desenvolvimento e a disseminação de 
técnicas e procedimentos sustentáveis 
que permitem que a produção no campo 
ocorra com significativa redução das 
indesejáveis externalidades ambientais, 
t r a d i c i o n a l m e n t e a s s o c i a d a s à 
agropecuária brasileira (SUZIGAN, 2020).
A integração produtiva dos sistemas 
agrícola, pecuário e florestal dentro 
de uma mesma área; a recuperação 
de milhões de hectares de pastagens 
degradadas com investimentos em 
correção e fertilização do solo, aliados à 
introdução de gramíneas adaptadas; a 
ampla adoção do revolucionário sistema 
de plantio direto na palha, muito adotado 
no Centro-
-Oeste, e que revela o êxito da técnica 
moderna de combate à erosão dos solos; 
a manutenção das matas ciliares e da 
biodiversidade de pequenos córregos nas 
fazendas (25,6% das áreas de vegetação 
nativa do país se encontram dentro das 
propriedades rurais); e os investimentos 
no bem-estar animal, com novas técnicas 
de manejo do gado nos currais, sistemas 
de cria e desmame amigáveis e cuidados 
de alimentação e prevenção de doenças 
compõem uma longa e diversificada 
listagem das frentes de ação na trajetória 
da inovadora agropecuária sustentável 
do Brasil, uma realidade praticamente 
sem paralelos no mundo (VIEIRA FILHO; 
FISHLOW, 2017). Na vanguarda desse 
processo, ainda estão as novíssimas 
agtechs, como são chamadas as startups do 
agro, que oferecem serviços de soluções 
digitais voltados ao campo, como o 
monitoramento e o rastreamento da 
cadeia produtiva e o gerenciamento do 
risco inerente à atividade agropecuária. 
No Mato Grosso, as agtechs já atuam no 
projeto AgriHub Space, da Federação da 
Agricultura e Pecuária de Mato Grosso 
(Famato), um espaço de inovação 
que estimula negócios e conecta o 
ecossistema agrícola. Entre as mais 
avançadas tecnologias desenvolvidas 
hoje pelo agro nacional, estão os projetos 
relacionados às paisagens inteligentes
aplicados na agricultura de precisão. 
Dados de imageamento em 3D, gerados 
por equipamentos orbitais, compõem a 
representação digital da paisagem, base 
sobre a qual são aplicados algoritmos que 
retratam as características topográfi cas 
e hidrológicas, e que geram indicadores 
dos tipos de solo, da posição do lençol 
freático e do potencial de erosividade, 
entre outros. As plataformas de 
georeferenciamento ainda podem ser 
carregadas com informações sobre 
atributos bióticos (fauna e flora) e sua 
categoria fundiária, se Terra Indígena, 
Unidade de Conservação, Terra Pública, 
Área de Preservação Permanente, 
Assentamento Rural, Propriedade Privada 


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Revista Brasileira de Inteligência. Brasília: Abin, nº. 16, dez. 2021
Proteger, pesquisar, produzir: a atividade de Inteligência adentra a era do agroambientalismo
ou Área Sem Informação. Todos esses 
dados ficam à disposição do produtor 
rural para otimizar a alocação de recursos, 
sem incorrer em irregularidades ou ilícitos 
(NOBRE, op. cit.). 
Enquanto o agro organizado no Sistema 
da Confederação da Agricultura e Pecuária 
do Brasil (CNA) dispõe de modernas 
tecnologias, entre essas o monitoramento 
remoto de terrenos em larga escala e com 
fi na resolução espacial, o Poder Público, 
por sua vez, também dispõe de sofi sticados 
recursos nessa área. O Instituto Nacional 
de Pesquisas Espaciais (Inpe) monitora 
queimadas e desmatamentos através do 
programa Deter Intenso (DI), que recebe 
imagens óticas com alta resolução de 
diversos satélites (Cbers-4, Landsat8 e 
Sentinela-2), armazena-as em nuvem e 
compartilha os resultados com órgãos, 
como o Instituto Brasileiro do Meio 
Ambiente e dos Recursos Naturais 
Renováveis (Ibama), o Instituto Chico 
Mendes de Conservação da Biodiversidade 
(ICMBio), além das Secretarias Estaduais 
de Meio Ambiente, para a fiscalização 
da degradação fl orestal (Inpe, 2020). É 
visível que ambos os setores — público e 
privado —possuem recursos tecnológicos 
de interesse recíproco, que poderiam ser 
compartilhados e utilizados em benefício 
mútuo. Há interessantes oportunidades de 
cooperação no vasto espaço em que meio 
ambiente e agropecuária se encontram; 
contudo, é necessário examinar quais 
seriam os entraves para a instituição de 
políticas verdadeiramente colaborativas 
ou integrativas entre a classe produtiva 
rural e os órgãos de proteção ambiental 
no Brasil. Essa permanece uma questão 
carente de pesquisas e respostas. 

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