Revista Brasileira de História. São Paulo, V. 23, nº 45, pp. 261-280 2003



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sas apostólicas que Andrés Burriel reelaborou — inclusive adicionando co-

nhecimentos que só vieram à tona anos após o manuscrito original de Vene-

gas — e publicou em Madri em 1757 com o título Notícia de la California y

de su conquista temporal y espiritual hasta el tiempo presente, assinando com o

seu próprio nome

11

. Como as adições/correções parecem não ter sido poucas,



consideramos útil adotar a nomenclatura sugerida por Peter Masten Dunne

para o(s) autor(s) da edição de 1758: Venegas-Burriel

12

. Devido a revisões e



esforços múltiplos de objetividade, a obra não satifez aos missionários e mo-

tivou a Juan Baegert, Miguel del Barco e Clavijero a escreverem seus próprios

tratados sobre o tema. Ainda assim, a Notícia de la California foi considerada

decisiva para a história californiana. Como historiador, Venegas era cuidado-

so na investigação, crítico em selecionar as fontes e sobretudo preocupado em

descobrir a verdade

13

.

O objetivo do livro é, segundo seu autor(s), uma descrição o mais com-



pleta e clara possível da Califórnia, pois “baseada no método mais acurado”.

Tal descrição poderia contribuir significativamente para a descoberta de uma

passagem ao norte que ligasse a América ao Oriente (onde os jesuítas tinham

seus próprios entrepostos), uma preocupação que começou no século XVI,

mas que não havia sido de todo abandonada no século XVIII. Antes dos je-

suítas, adverte-nos, os estudos mais exatos foram os relatos do general Sebas-

tián Vizcaino, que visitou a região em 1602 por ordem de Felipe II

14

. Dentre



os jesuítas, Venegas-Burriel diz-se admiradorem especial, do pe. Kino.

No texto de 1758, Venegas-Burriel assinala como as questões referentes à

Califórnia foram tão incompletamente examinadas, gerando as gritantes con-

tradições que emergem dos relatos. Venegas-Burriel parece fazer questão de

reconhecer que mesmo seus colegas da Cia. de Jesus, “criados no seio das ciên-

cias e artes curiosas e úteis”, sentem a falta de instrumentos de observação já

disponíveis em outros países

15

. Não limitando-se a lamentar tais carências,



Venegas-Burrriel aponta “alguns documentos mais modernos” sobre latitude

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Beatriz Helena Domingues

Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 45



e longitude que pôde conseguir, esquivando-se de referências aos mais anti-

gos e conhecidos

16

. Os jesuítas em geral, e Venegas-Burriel em especial, esco-



lhem uma posição intermediária, congruente com o ecletismo que vinha ca-

racterizando o trabalho intelectual e missionário dos inacianos desde o século

XVI. No que se refere aos relatos anteriores sobre a Califórnia, admite o au-

tor: “há um pouco de falsidade em cada um dos relatos, mas tomados em ter-

mos gerais há um pouco de verdade neles”

17

. A Califórnia, embora seca e es-



téril no interior, é bem menos incômoda para a vida em suas praias, além de

ser possível encontrar vales com água para beber e regar no próprio interior

da península

18

. Ambas estavam sempre próximas dos rios e riachos, “para que



os índios se acostumassem à vida cristã e política, reduzidos a pueblos”. Mas,

como não julga dispor de informações suficientes para falar com certeza e

exatidão sobre essa questão, utiliza-se do argumento eclético de deixar a de-

cisão por conta do leitor

19

.

No que se refere à “antiga falsa religião dos californianos”. divide-a em



dois tipos: a dos índios que viviam no continente e que eram, “quando os es-

panhóis os encontraram, inteiramente livres de qualquer noção idólatra, ten-

do poucos ou mesmo nenhum ritual, já possuindo até mesmo algumas opi-

niões especulativas bastante singulares”; e a dos residentes nas ilhas,

inversamente, que “eram pessoas profundamente escravas de suas próprias

superstições”

20

. A segunda parte da obra lida com a História da Califórnia des-



de o tempo em que foi descoberta até a chegada dos jesuítas. Na primeira me-

tade do século XVIII, Felipe V (1701-1746) emitiu várias Cédulas garantindo

a presença jesuítica na Califórnia, tida como especialmente necessária após as

revoltas ao sul por volta de 1734. Havia uma coincidência entre os objetivos

da Monarquia e os dos missionários, entre o temporal e o espiritual, no sen-

tido de expandir o sistema de missões até Gila e ao Colorado, e então à Alta

Califórnia. Daí Felipe V ter confirmado a completa autoridade dos missioná-

rios sobre soldados e marinheiros: “sem aquelas ordens [dos missionários],

os soldados talvez não consigam conviver com os índios, atacando-os, punin-

do-os, ou fazendo quaisquer outras coisas”

21

.

Clavijero confirma ter tido notícia não só da publicação das Noticias de






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