Revista Brasileira de História. São Paulo, V. 23, nº 45, pp. 261-280 2003



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de la Baja California não foi, segundo seu autor, escrita explicitamente para

combater os “filósofos iluministas”. No prefácio à sua História de la antigua o



Baja California, Clavijero enuncia que, embora não sinta por ela o patriotis-

mo que sente em relação ao México, sente-se agredido pelas “calúnias” que os

“filósofos iluministas” — Buffon, De Pauw, Raynal e Robertson escrevem so-

bre ela. Não só por ser a Califórnia parte do continente americano, mas tam-

bém por se constituir em um importante reduto jesuítico. Na qualidade de

jesuíta, admite o empreendimento da Cia. de Jesus no que considera um ter-

ritório nada aprazível. No tópico do clima ou mesmo dos habitantes, Clavije-

ro não está interessado em defender a Califórnia. As “calúnias” de De Pauw e



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Política missionária e secular em escritos jesuíticos sobre a Baixa Califórnia no século XVIII

Julho de 2003



dos outros filósofos iluministas que ele se propõe a responder nesta obra re-

ferem-se a outros tópicos.

O que se percebe pela leitura da obra é que, embora apareçam algumas

críticas aos “filósofos iluministas” — mais especialmente a Robertson —, com

bastante freqüência Clavijero utiliza-se de argumentos tipicamente pauwnia-

nos visando a comprovar a superioridade do México e dos mexicanos sobre a

Califórnia e os californianos. Em outras palavras, no contexto geral do pen-

samento de Clavijero, não faria sentido escrever uma História da Califórnia

para desacreditar Buffon e De Pauw uma vez que, já na História do México,

quem ele faz questão de defender, em termos de aproximá-los dos europeus,

são os mexicanos (e peruanos), e não todos os índios americanos. Quanto aos

índios bárbaros, entre os quais sem dúvida se incluem os californianos, ele

faz poucas restrições aos adjetivos derrogatórios empregados pelos autores

acima mencionados. Poucas não significa nenhuma. Pois, se não existe aqui o

mesmo grau de patriotismo da outra obra, ele não está tampouco totalmente

ausente. A maior preocupação parece ser, como a do colega jesuíta Venegas,

com a continuidade do empreendimento jesuíta e espanhol nas remotas, ári-

das e bárbaras áreas da Califórnia.

Outra importante diferença refere-se ao conhecimento do autor sobre os

dois lugares e sobre as duas histórias. Ao escrever a História de la California,

Clavijero reconhece estar pisando em terreno menos firme do que quando es-

creveu a Historia de México, por depender exclusivamente de testemunhos

alheios. Daí prescindir de fazer afirmações sobre aspectos que considera “não

muito bem esclarecidos”. A discussão sobre até que grau de latitude norte teria

se expandido a fronteira espanhola seria um exemplo. O que Clavijero tem por

certo são os descobrimentos feitos até 1770. Quanto ao suposto avanço até o

grau 55, confessa não ter lido ainda os relatos referentes a ele

4

. Em termos de



fontes disponíveis para o estudo da Califórnia, esclarece ele que, seguindo-se

ao reconhecimento e estabelecimento de muitas missões jesuíticas na penín-

sula, foi recentemente publicada a História da Califórnia do jesuíta Miguel Ve-

negas. Utilizou-se também Clavijero de cartas dos missionários, especialmen-

te as dos padres Salvatierra, Piccolo e Ugarte — “que foram inspiradas na célebre

e antiga história manuscrita de Sonora, composta pelo infatigável pe. Kino”

—, do diário do capitão governador da Califórnia don Estevan Rodriguez Lo-

renzo, das memórias do erudito pe. Segismundo Taraval e de outros documen-

tos originais encontrados nos arquivos do México.

As Investigaciones filosoficas de De Pauw contêm, adverte-nos ele, “em

uma única página dedicada a tratar dessa região, 48 falsidades, que tive a pa-

ciência de contar, envolvendo erros simples, mentiras formais e calúnias te-

merárias”. Clavijero limita-se a comentar apenas quatro delas: 1) a afirmação

de que o tigre é o principal animal da Califórnia, onde também encontram-



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Beatriz Helena Domingues

Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 45



se manadas de bisontes; 2) a tese sobre as vinhas que teriam sido descobertas

por um colono espanhol em 1690, e depois cultivadas pelos jesuítas, cuja pro-

dução vinícola seria capaz de abastecer todo o México e ainda ser exportada

para as Filipinas; 3) a denúncia de que o M. Anson foi o primeiro a descobrir,

por causalidade, em fins de 1774, que a Cia. de Jesus era poderosamente peri-

gosa naquele rincão do mundo; 4) a que afirma que muitas das tribos califor-

nianas que se mantêm na barbárie conservam o hábito de mutilar os mem-

bros, cortando algumas falanges dos dedos com a morte de seus parentes

5

.

Na medida em que Clavijero organiza sua refutação às quatro teses aci-



ma enumeradas, o jesuíta utiliza-se basicamente de relatos de missionários

jesuítas que viveram ou ainda vivem na região, mas nem sempre especifican-

do se o que afirmam os missionários foi baseado em suas próprias experiên-

cias ou em relatos de outros missionários ou informantes indígenas.

Se o objetivo geral da História da California, ainda que em menor medi-

da que a Historia Antigua de México, continua a ser o combate às teses dos “fi-

lósofos iluministas”, é curioso notar como o próprio Clavijero recorre a al-

guns argumentos pauwnianos para provar a superioridade do México em

relação à Califórnia. Dentre eles, vale destacar a superioridade da religião dos

mexicanos: ela é evidente por si mesma, até porque a religião dos california-

nos é considerada como sendo “quase inexistente”. Expressa tal opinião, e ou-

tras sobre a religião dos californianos, baseado “em diligentes pesquisas en-

contradas nos escritos de doutos missionários”

6

. Quase todos esses



missionários declararam-se admirados de encontrar, nos dogmas dos bárba-

ros californianos, muitos sinais, ainda que desfigurados, das verdades cristãs

7

.

É válido lembrar que seus predecessores jesuítas do século XVII já vinham



desenvolvendo uma atitude mais flexível em relação às religiões indígenas e

asiáticas, que Otávio Paz denominou sincretismo universalizante: um racio-

cínio basicamente neoplatônico que permite encontrar, nas mais diferentes

culturas e religiões, manifestações de uma verdade universal (ou o Bem pla-

tônico)

8

. Seguindo os passos deles, Clavijero explora as diferentes hipóteses



que poderiam explicar as semelhanças e ao mesmo tempo o grande afasta-

mento em relação à verdade cristã em que se encontravam os índios califor-

nianos. A que lhe parece mais provável é que tenham sido instruídos por al-

guns cristãos antes da entrada dos jesuítas na península. Pois se sabe que nos

50 anos anteriores ao empreendimento jesuítico, lá chegaram muitas embar-

cações do México e de outras partes, embora nenhuma delas tenha permane-

cido tempo suficiente para aprender línguas tão difíceis. De forma que os pró-

prios californianos, quando indagados sobre a origem da sua idolatria,

respondem que a haviam recebido de seus antepassados.

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Política missionária e secular em escritos jesuíticos sobre a Baixa Califórnia no século XVIII

Julho de 2003



2. A 

HISTÓRIA DA

C

IA

.



DE

J

ESUS NA PENÍNSULA



DA

C

ALIFÓRNIA NOS ESCRITOS DE



M

IGUEL


V

ENEGAS


Padre Venegas é considerado por alguns como um dos mais talentosos

historiadores do século XVIII na Nova Espanha

9

, por outros como um rea-



cionário

10

. Também não há concordância sobre sua real participação no em-



preendimento missionário na Califórnia. Embora o livro apresente-se como

resultado de sua experiência pessoal nas missões californianas, fontes jesuíti-

cas assinalam que a precariedade de sua saúde não lhe permitiu longas esta-

dias nas missões. O mais provável é que Venegas tenha estudado a correspon-

dência e informes dos missionários, chegando a enviar questionários a vários

deles, com a ajuda de Juan B. Luyando em 1737. O resultado foram as Empre-






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