Revista Brasileira de História. São Paulo, V. 23, nº 45, pp. 261-280 2003



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la Califórnia [1780] durante seu exílio na Itália com o propósito de defender

a América de seus “detratores iluministas” e de escrever algo mais apropriado

para o seu tempo do que seus colegas jesuítas vinham até então fazendo. Cu-

rioso no texto de Clavijero é a ênfase no trabalho missionário na Baixa Cali-

fórnia como um dos melhores empreendimentos da Coroa no Reino da No-

va Espanha, onde ele próprio havia atuado como educador, ainda que não

como missionário. No relato histórico que faz do empreendimento missioná-

rio jesuítico na Califórnia, Clavijero historia, ao mesmo tempo, a política de

incentivo da Coroa espanhola, enfatizando o seu decréscimo com o início das

reformas bourbônicas. E suas conclusões e conselhos à Coroa aproximam-se

dos de Venegas: ambos vinculam o progresso material do empreendimento

colonial ao sucesso do projeto missionário.

Ao discutirmos a obra de Clavijero, a idéia é contextualizar os escritos

jesuíticos sobre a Califórnia no interior da “Polêmica do Novo Mundo”: suas

respostas às teses formuladas pelos filósofos iluministas sobre a natureza e os

homens do continente americano, seguida de uma análise sobre a solução po-

lítico-religiosa oferecida por eles à Coroa espanhola, que então iniciava a im-

plantação das reformas bourbônicas no Reino da Nova Espanha, do qual fa-

zia parte a península da Califórnia. A fim de melhor caracterizar o teor da

“defesa” da Califórnia por Clavijero, contrasto esta obra com a sua anterior



História antigua de México, na qual dedica um volume, intitulado Disserta-

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Beatriz Helena Domingues

Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 45



ciones, a defender a América, ou mais especificamente o México das teses dos

filósofos e naturalistas iluministas europeus. A seguir estabeleço paralelos en-

tre as opiniões de Clavijero e Venegas sobre a Califórnia, e especialmente so-

bre a posição estratégica ocupada pela referida península no interior do im-

pério espanhol por ocasião da implementação das Reformas Bourbônicas. A

história da Companhia de Jesus na Califórnia escrita por Clavijero — pois é

disso que trata, em grande medida, sua Historia de la California — apresenta

similaridades e singularidades quando comparada com a de outros jesuítas

anteriores e contemporâneos a ele. Destaque especial será dado à obra do je-

suíta Miguel de Venegas, reconhecida fonte utilizada e criticada por Clavije-

ro. No embate/debate entre Clavijero e Venegas fica evidente a heterogenei-

dade no interior do pensamento jesuítico: Clavijero representando mais os

“colégios” e Venegas mais as missões, mas sem supor que exista uma clivagem

completa entre as duas possíveis opções feitas pelos inacianos. Se parece ine-

gável o maior envolvimento emocional de Venegas com as terras e as gentes

da Califórnia, não é menor o de Clavijero com a natureza e população do Mé-

xico. Comum a ambos é o uso de fontes jesuíticas para suas respectivas His-

tórias da Califórnia e a interação nelas encontrada entre história, natureza e

religião, conforme fica claro em suas abordagens do clima, topografia e cos-

tumes dos habitantes. O caráter jesuítico das fontes é fundamental para que

se perceba um processo de diálogo entre a prática missionária e as formula-

ções teóricas jesuíticas.

O objetivo desta obra de Venegas, como de muitas outras do período, não

parece ser meramente apontar os méritos da ação missionária da Cia. de Je-

sus, senão reforçar como o sucesso material (temporal) da colonização espa-

nhola na Nova Espanha dependeu do sucesso espiritual do empreendimento

jesuíta. A ênfase nessa tese é ainda maior quando se refere aos territórios ári-

dos e remotos de Sonora, Baixa Califórnia e Novo México, ocupados por mis-

sionários franciscanos antes e depois do “período jesuítico” (1697-1767). Isso

fica bem claro na obra do jesuíta Miguel de Venegas, especialmente na quarta

parte, onde o autor clarifica a utilidade, para a Coroa espanhola, da conquista

espiritual da Califórnia pelos jesuítas. Tanto o texto de Clavijero quanto o de

Venegas parecem orientados a provar a importância estratégica da Califórnia

para a Coroa. Consideradas as diferenças, em ambos é possível perceber a ên-

fase na importância do trabalho missionário na Califórnia sob o aspecto de

um movimento estratégico para a Coroa preservar suas fronteiras da Nova Es-

panha (especialmente as do norte) e como os jesuítas haviam sido e continua-

vam a ser os mais capacitados para levar adiante o empreendimento, devido

especialmente à sua experiência missionária em locais reconhecidamente tão

remotos e em contato com tribos tão bárbaras e arredias. Desde fins do século

XVII, argumentam eles, eram os inacianos que conheciam a língua e costumes

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Política missionária e secular em escritos jesuíticos sobre a Baixa Califórnia no século XVIII

Julho de 2003



de várias tribos, já haviam evangelizado várias delas, e mesmo inovado em ter-

mos de técnicas pedagógicas para atingir outras mais arredias. Sem sua atua-

ção missionária, as fronteiras ao norte da Nova Espanha estariam inteiramen-

te desprotegidas da expansão inglesa e russa na região.

Percebe-se claramente desses escritos, a ativa participação desses dois je-

suítas tão diferentes em outros aspectos, em uma batalha ideológica pela defe-

sa da Cia de Jesus, centrada particularmente no trabalho missionário, contra o

crescente antijesuitismo do “Século das Luzes”, que perpassava as reformas

bourbônicas levadas a cabo na segunda metade do século XVIII, e que impli-

caram a definitiva expulsão dos inacianos da Nova Espanha e Baixa Califórnia

(ainda que esta parte do Reino da Nova Espanha fosse reconhecida, pelo pró-

prio déspota esclarecido e seus assessores, como tendo finalidades estratégicas

para os interesses da Coroa). A inter-relação entre o sucesso espiritual e mate-

rial da Cia. de Jesus, na Europa e na América, é um fenômeno que tem sido re-

conhecido por vários historiadores não-jesuítas. François Chevalier, por exem-

plo, mostra como a Companhia de Jesus integrava à sua rígida disciplina interna

uma sólida organização econômica, atitude que não era proibida pelas regras

da ordem


2

. Após fundar escolas nas principais cidades da Nova Espanha em

fins do século XVI, um grupo significativo de jesuítas gradualmente dedicou-

se à criação de uma cadeia de missões nos extensos territórios do noroeste. En-

quanto outras ordens religiosas davam sinais de abatimento em seu trabalho

missionário e educacional, os rígidos princípios e a inquestionável superiori-

dade do sistema educacional dos filhos de Loyola atraíam amigos poderosos

entre nobres, ricos mineiros (espanhóis ou crioulos) e espanhóis, que freqüen-

tavam as suas escolas. O mais famoso apoio conseguido pelos jesuítas foi o de

um homem de negócios, Alonso de Villaseca, que teria aconselhado os jesuítas

a complementarem o sustento de seus colégios com haciendas. Como os colé-

gios eram alta prioridade na Nova Espanha, o vice-rei Martín Enriquez fez vis-

ta grossa quando o Colégio Maior de São Pedro e São Paulo adquiriu terras

para plantar e criar gado, e continuou a fazê-la nos anos seguintes. Nessa oca-

sião, muitos dos poderosos mercadores da Cidade do México e Puebla, ou mes-

mo grandes mineradores, tornaram-se amigos ou benfeitores dos jesuítas. A

aristocracia agrária não era tão generosa, provavelmente porque tinha menos

dinheiro, ainda que fosse sempre aberta a alianças com os ricos mercadores.

Em suma, em um período no qual a Igreja ainda era proibida de comprar, e

mesmo de possuir propriedades nas Índias, os jesuítas sistematicamente cons-

truíram seus ricos “Estados” em um espaço de tempo impressionantemente

curto e sem maiores dificuldades

3

.

Embora o ecletismo filosófico fosse uma opção intelectual inerente ao



pensamento cristão desde pelo menos o século III, ele assumiu contornos sin-

gulares com a nova escolástica do século XVI, cujos principais representantes



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Beatriz Helena Domingues

Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 45



foram os jesuítas. Inclui-se entre os propósitos deste texto especular sobre a

relação entre emergência de práticas religiosas sincréticas na experiência mis-

sionária jesuítica nas Américas — especialmente do sincretismo religioso que

emergiu na Nova Espanha desde o início da colonização — e o ecletismo fi-

losófico dos inacianos nos séculos XVI, XVII e XVIII. Ou seja, como se esta-

beleceu o contato/diálogo entre missionários e teóricos jesuítas: teria ele acom-

panhado um movimento (dilema) interno da Companhia de Jesus, orientada,

a princípio, prioritariamente para o trabalho missionário, mas paulatinamen-

te priorizando os colégios? Que alterações no uso do “nosso modo de proce-

der” estiveram presentes nessa reversão e/ou combinação de prioridades em

termos de projeto evangelizador? Se for correto ponderar que foi a partir dos

colégios que os jesuítas influíram mais poderosamente na sociedade colonial,

a ponto de deixar a sua marca na vida acadêmica mesmo depois da sua ex-

pulsão, não se pode menosprezar o fato de ter sido da prática missionária que

emergiam mudanças conceituais, incluindo conhecimentos geográficos, his-

tóricos e de filosofia natural, e mesmo novas práticas pedagógicas. Mudanças

essas que tiveram influência nas formulações ecléticas elaboradas na Nova Es-

panha e na Europa, e cuja influência na vida acadêmica da Nova Espanha so-

breviveu à expulsão dos jesuítas.

1. A H


ISTÓRIA DA

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ALIFÓRNIA DE



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A estrutura da História do México (1787) e da História da Califórnia

(1790), escritas por Clavijero, se parece: começam com uma descrição geo-

gráfica, seguida da apresentação da flora e da fauna; depois um histórico de

seus habitantes antes e depois da conquista pelos espanhóis. São diferentes,

contudo, tanto no que se refere ao objetivo quanto à metodologia utilizada.

Diferentemente da História do México e das Dissertaciones, História Antigua




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