Rev. Interd em Cult e Soc. (Rics)


Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS)



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Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS), São Luís, v. 5, n. 2, p. 1- 17, jul./dez. 2019 

ISSN eletrônico: 2447-6498 

 

estruturalismo, que entende o sentido como resultado da significação emergente do jogo das 



diferenças do sistema. Serão estes os adversários que Deleuze ousa atacar, para que, enfim, o 

acontecimento seja liberto da representação. 

Para  os  estoicos,  assim  como  para  Deleuze,  a  lógica  elaborada  a  partir  de  uma 

compreensão  do  ser  enquanto  Identidade  suprimiu  a  possibilidade  de  compreensão  do  ser 

enquanto ser (on h on); preferem eles, em substituição ao modelo platônico-aristotélico, uma 

ciência dos corpos enquanto tal (ta swmata), e do seres (ta onta), não ocorrendo distinção 

ontológica entre ambos:  “A unidade da causa e do princípio se traduz na unidade do corpo 

que ela produz”. (BRÉHIER, 1997, p.5). O mundo é um mundo de corpos, e tudo aquilo que 

nele  existe  é  corpo,  incluindo  a  alma  ou  o  pensamento,  as  virtudes,  e  o  próprio  logos 

filosófico.    Assim,  tudo  o  que  é  real  é  corpóreo,  mesmo  as  qualidades  do  ser,  como  as 

virtudes  ou  as  paixões,  são  consideradas  corpóreas  no  tanto  que  elas  afetam  os  corpo,  por 

exemplo,  alguém  que  por  vergonha  ruboriza,  ou  alguém  que  por  amor  sofre  à  visão  do  ser 

amado; com isso os estoicos não estão firmando que corpo é algo que possui a tripla extensão 

e  resistência,  o  que  seria  permanecer  dentro  das  considerações  aristotélicas;  antes,  eles 

agregam  a esse conceito clássico a  concepção de que  corpo  é tudo  aquilo que age ou sofre 

ação. Assim, os estoicos dotam a matéria de uma capacidade dinâmica (dýnamis) critério que 

já  existia  em  Platão

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,  e  que  contrasta  diretamente  com  o  modelo  materialista  que  vigora  no 



século XVII e XVIII. Para os estoicos os corpos definem-se pelos próprios corpos, o ser não 

surge como um princípio final que anula as contradições da realidade, para eles a divisão da 

realidade  é  o  que  eles  denominam  de  “qualquer  coisa”  ().  O  “qualquer  coisa”  pode  ser 

corporal ou incorporal, o que significa dizer que os corpos existem, os incorporais subsistem 

                                                

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 Jacques Brunschwig, em seu texto Metafísica estoica, lembra essa questão, quando se refere ao diálogo Sofista 



de Platão e este descreve a “Batalha dos Gigantes”. Nela ele narra que um dos partidos denominados de “Filhos 

da  Terra”  afirmava  que  só  existia  aquilo  que  pode  ser  manuseado  e  oferece  resistência  ao  toque,  definindo 

assim, a existência (ousia) como o mesmo que o corpo. Platão se utiliza da dýnamis como forma de convencer 

os  corporealistas  de  que  existem  coisas  que  não  são  corpos,  ou  seja,  existem  entidades  incorpóreas  tais  como 

alma  e  as  virtudes  morais,  pois  estas  afetam  ou  são  afetadas,  porém,  estas  são  ontologicamente  distintas  dos 

objetos  matérias  comuns,  a  intenção  de  Platão  é  afirmar  a  superioridade  desses  incorporais.  Os  estoicos 

pervertem  essa  pretensão  anticorporealista  de  Platão:  “A  discussão  dinâmica  dos  estoicos  às  noções  de 

existência  e  corpo  não  redunda  apenas  em  conceder  o  selo  de  existência  plena  a  entidades  comumente 

reconhecidas como corpos. Antes, ajuda-lhes também a justificar a reivindicação de corporeidade para entidades 

que não  são  obviamente corpóreas. Quanto a isso, diferem dos ‘Filhos da Terra’: longe  de  reduzir a classe de 

seres genuinamente existentes a corpos ordinários tais como mesas ou árvores, os estoicos usam o critério ação-

paixão de modo que se amplia a classe de seres existentes corpóreos até as entidades imperceptíveis. Tomando 

os  contraexemplos  de  Platão  e  voltando  contra  ele  suas  próprias  armas,  eles  alegam  que  a  alma,  as  virtudes 

morais  e,  de  modo  mais  geral,  as  qualidades  são  corpos,  uma  vez  que  satisfazem  o  critério  ação-paixão.” 

(BRUNSCHWIG, 2006, p.234). 






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