Rev. Interd em Cult e Soc. (Rics)


Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS)



Baixar 291.8 Kb.
Pdf preview
Página6/19
Encontro13.01.2022
Tamanho291.8 Kb.
#21004
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   19
12998-39068-1-PB
7361-32378-1-PB (1)
Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS), São Luís, v. 5, n. 2, p. 1- 17, jul./dez. 2019 

ISSN eletrônico: 2447-6498 

 

que eles são poupados de todo sentido ontológico imanente, a verdade permanece unicamente 



deduzida das relações lógicas proposicionais.  Quando se diz:  “O homem é racional” faz-se 

subtender  que  esses  dois  termos  possuem  já  sua  verdade  dada,  o  que  de  nenhuma  forma, 

explícita  ou  implicitamente,  foi  demonstrado.  Por  outro  lado,  toda  preposição  está 

condicionada a um recuo infinito, isto é, cada termo remete a outro termo, que remete a outro 

e assim ad infinitum, impossibilitando a própria definição do primeiro termo, em suma, o seu 

fundamento.  Cada  um  dos  termos:  designação,  manifestação  e  significação  reclama  um 

fundamento  e  nenhum  deles  pode  instaurar  esse  fundamento,  círculo  que  não  pode  ser 

rompido  e,  por  isso,  mantém-se  preso  à  representação.  Assim,  pode-se  dizer  que  o  sentido 

nessa  articulação  permanece  carente  de  fundamento  ontológico,  o  sentido  do  ser  não  se  dá, 

pois a proposição não diz do ser. O pensamento enlaçado a essa artimanha reproduz o lugar 

comum da filosofia dogmática. Retornando a uma clássica declaração de Nietzsche, na qual 

ele  afirma  acreditar  que  não  nos  desembaraçaremos  de  Deus,  “pois  ainda  acreditamos  na 

gramática”

8

,  o  que  ele  chama  de  “Die  ‘Vernunft’  in  der  Sprache”  (a  razão  na  linguagem), 



seria  na  realidade  um  embuste  que  impossibilita  um  pensar  que  pensa  o  devir-ilimitado  do 

acontecimento. Eis um ponto de fundamental interesse para Deleuze: um acontecimento não 

se liga a um sujeito, mas a outro(s) acontecimento(s) que formam linhas, devires, colisão de 

forças,  “...o  sujeito  constitui-se  aí,  ‘entre’  as  linhas,  constitui-se  por  acontecimentos,  diz-se 

deles, os  seres  dizem-se  de entre-seres, não o inverso.” (DIAS,  1995, p.33). A preocupação 

de Deleuze é demonstrar o sentido como a quarta dimensão da proposição, como aquilo que 

insiste  junto  às  demais  relações  da  proposição  sem,  contudo,  identificar-se  com  elas:  “O 

sentido é a quarta dimensão da proposição. Os estoicos a descobriram com o acontecimento: 

o  sentido  é  o  expresso  da  proposição,  este  incorporal  na  superfície  das  coisas,  entidade 

complexa  irredutível,  acontecimento  puro  que  insiste  ou  subsiste  na  proposição”. 

(DELEUZE, 1969, p.30) 

Pode-se  remeter  este  problema  a  Nietzsche  quando  ele  afirma  existir  uma 

“gramática  metafísica”  que  rege  as  proposições  ontológicas  mantendo  o  acontecimento 

subordinado aos entes. Quando se diz “o relâmpago brilha” se considera esse acontecimento 

não  a  partir  de  sua  distinção  ontológica,  posto  aqui  pelo  verbo  brilhar,  mas  subordinado  a 

uma  causa.  É  o  que  Nietzsche  denomina  de  um  “duplo  erro”;  considerar  primeiramente  o 

acontecimento como um agir e depois a ação como um ser, isto é, algo que permanece, que é. 

Duplo  erro  que  como  uma  crença  fundamental  não  deixa  pensar  o  acontecimento  por  si 

                                                

8

 Cf., Friedrich Nietzsche, Götzen-Dämmerung, p. 28. 







Baixar 291.8 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   19




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal