Rev. Interd em Cult e Soc. (Rics)


Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS)



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7361-32378-1-PB (1)
Rev. Interd. em Cult. e Soc. (RICS), São Luís, v. 5, n. 2, p. 1- 17, jul./dez. 2019 

ISSN eletrônico: 2447-6498 

 

acontecimento, como  ele próprio  afirma em  Pourparlers (p.194): “Em todos os meus livros 



procurei a natureza do acontecimento, é um conceito filosófico, o único capaz de destituir o 

verbo ser e o atributo”. 

Ao falarmos da relação de Deleuze com os estoicos deve-se salientar que ele não 

se refere a algum estoico em especial, mas à escola do Pórtico, a Stoá



2

. Destarte, percebe-se 

que ele possui uma preocupação maior com os primeiros estoicos: Zenão, Cleantes, Crisipo e 

os  médios  estoicos:  Panécio  e  Possidônio.  Explica-se  seu  afastamento  dos  assim 

denominados  estoicos  imperiais  por  estes  possuírem  preocupações  voltadas  mais  para  o 

contexto  moral  e social do que seus  antecessores, que elaboraram  uma refinada e complexa 

lógica, assim como uma física e uma moral. Esses primeiros estoicos possuem principalmente 

a  compreensão  de  que  a  filosofia  deve  ser  pensada  enquanto  sistema.  Não  queremos  dizer 

com  isso  que  Deleuze  não  tenha  conhecido  com  propriedade  os  estoicos  imperiais,  antes 

pretendemos sublinhar que a sua preocupação estava estritamente relacionada à montagem de 

uma ontologia do ser que subvertesse a tradição e tal preocupação manteve-o mais próximo 

dos primeiros estoicos, já que estes tinham como meta a elaboração de um sistema que não 

apenas  buscava  uma  síntese  acerca  do  cosmos,  mas  principalmente  pensavam  essa  síntese 

fora  dos  ditames  da  filosofia  platônica-aristotélica

3

.  Por  fim,  Deleuze  não  se  atém  aos 



elementos da dialética e da retórica estoicas, sua análise recai sobre as contribuições destes na 

formulação de uma lógica propositiva e não predicativa, esta última, é o aporte de Aristóteles 

para o acabamento da metafísica representacional. 

Afirma  Deleuze,  no  início  de  Différence  et  répétition,  que  cabe  à  filosofia 

moderna  “ultrapassar”  a  alternativa  histórico-eterno,  temporal-intemporal,  particular 

                                                

2

 Citamos aqui Alain Beaulieu (2007, p. 43-44) que sintetiza a presença do estoicismo na filosofia deleuziana: 



“O  encontro  com  o  pensamento  estoico,  longe  de  ser  um  ‘contratempo’,  constitui  um  dos  principais  fios 

condutores do itinerário de Deleuze que vai muito mais além do que sua admiração pela teoria dos incorporais. 

Os  estoicos  não  jogam  somente  no  centro  de  Lógica  do  sentido,  mas  encontramos  também  muitas  referências 

explícitas  da  doutrina  do  Pórtico  nos  livros  de  Deleuze.  Um  bom  número  de  elementos  que  permanecem 

implícitos  confirmam  o  estoicismo  de  Deleuze.  Três  das  primeiras  monografias  deleuzianas  se  dedicam,  em 

diversos graus, a tradição estoica (Nietzsche, Kant, Spinoza). Seria também possível mostrar que outras quatro 

monografias também vinculam Deleuze com o estoicismo. O modelo da indução empirista (Hume), a teoria dos 

signos (Proust), a concepção da infinita divisão da matéria ou das misturas corpóreas (Bergson) e o pensamento 

do acontecimento (Leibniz) podem, com efeito, inscrever-se na continuidade do pensamento estoico. Assim, o 

interesse  de  Deleuze  pelos  Estoicos  irrompe  com  Lógica  do  sentido,  porém  o  intento  para  devolver  à  vida  o 

estoicismo está omnipresente em seus trabalhos.” 

3

  Segundo  Deleuze  a  postura  estoica  não  apenas  contesta  a  filosofia  platônica  e  aristotélica,  mas  praticamente 



toda  a  tradição  anterior  a  ela,  ao  desenvolver  uma  série  de  problemas  e  posturas  filosóficas  que  alteram  a 

“conversão” platônica e a “subversão” pré-socrática, o que Deleuze chama de “perversão”, ou seja, uma arte das 

superfícies. Cf., Gilles Deleuze, Logique du sens, p.157-158. 






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