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TREINAMENTO DA GINÁSTICA RÍTMICA:

REFLEXÕES ESTÉTICAS

Dra. KARENINE DE OLIVEIRA PORPINO

Professora do Departamento de Educação Física e do Programa de Pós-graduação em

Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Pesquisadora do Grupo de Estudos Corpo e Cultura de Movimento

E-mail: karenine@digizap.com.br

RESUMO


O texto tem como objetivo refletir sobre os componentes estéticos presentes no treina-

mento da ginástica rítmica (GR). Tendo a hermenêutica como método, apresenta refle-

xões a partir de descrições de cenas do vídeo do programa História do esporte, exibido

em junho de 2003 pela ESPN Brasil, cujo teor se remete ao dia-a-dia da equipe brasileira

de GR em treinamento para os Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Tendo como

suporte tais reflexões, discute implicações pedagógicas do ponto de vista estético para o

treinamento da GR no âmbito escolar, advindas do modelo de treinamento de alta

performance e possíveis interfaces entre esses dois contextos, considerando a necessida-

de da crítica e do respeito às especificidades de ambos.

PALAVRAS-CHAVE: Ginástica rítmica; estética; educação física.




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A ginástica rítmica (GR) é um esporte que reconhecidamente marcou sua

história por compartilhar saberes estéticos advindos da arte (música e dança), além

daqueles advindos da pedagogia e da medicina. Fruto do Movimento Ginástico

Europeu, mais especificamente do Movimento do Centro Alemão, a GR teve como

influenciadores e construtores grandes personagens ligados à arte do início do sé-

culo XX (Llobet, [1998?]).

Com o objetivo inicial de educação das mulheres para o desenvolvimento da

graça, da harmonia de formas, da sensibilidade e da delicadeza, a GR transformou-

se, ao longo do século XX, numa modalidade esportiva cuja execução dos movi-

mentos pode ser caracterizada por um complexo nível de dificuldade. Os detalhes

técnicos de grande exigência física e expressiva, sistematizados nas regras oficiais

desse esporte na atualidade, mostra-nos a distância que hoje podemos perceber

entre os objetivos atuais e os objetivos iniciais predominantemente formativos

(Rossete, 1997). No entanto, apesar da caracterização atual da GR, bastante distin-

ta do que se denominou ginástica moderna na primeira metade do século XX,

podemos perceber que o componente estético ainda é bastante presente e interfe-

re decisivamente no reconhecimento desta modalidade no cenário esportivo nacional

e mundial.

É objetivo deste texto refletir sobre esses componentes estéticos presentes

no treinamento da GR, como forma de contribuir para a compreensão desta mo-

dalidade esportiva que se renova a cada dia, reelaborando e dando novos sentidos

a elementos presentes em sua própria história e nos diversos contextos em que

atua.

O texto apresenta-se em duas partes: a primeira toma como referência des-



crições de cenas do vídeo do programa História do esporte, exibido em junho de

2003 pelo canal ESPN Brasil, cujo teor se remete ao dia-a-dia da equipe brasileira

de GR em treinamento para os Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Tomei

para as descrições a serem analisadas algumas cenas que julguei significativas para

discutir os aspectos estéticos presentes no treinamento de alto nível da GR. Tendo

como suporte as reflexões realizadas, a segunda parte discute algumas implicações

pedagógicas do ponto de vista estético para o treinamento da GR no âmbito esco-

lar, advindas do modelo de treinamento de alta performance, bem como algumas

interfaces possíveis entre esses dois contextos.

Nesse percurso, a hermenêutica (Ricoeur, 1976) nos permite olhar em dire-

ção à fonte utilizada para análise como construção cultural cujos sentidos podem

ser resignificados em múltiplas possibilidades, considerando-se a articulação entre

seus conteúdos, seus contextos e a minha interpretação, cuja procedência articula

vivências como ginasta, técnica de GR e professora de educação física.




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Vale considerar inicialmente a compreensão de que a dimensão estética não

é atributo somente da GR ou de outros esportes que reconhecidamente têm algu-

ma relação com a dança, como o nado sincronizado ou a patinação artística, por

exemplo. Acredito que a dimensão estética também pode estar presente em ou-

tros esportes, principalmente se considerarmos a vertente apontada por Lovisolo

(1997) do esporte-espetáculo, cujo objetivo de “impactar nossas emoções, senti-

mentos e sensibilidade” explicita um teor estético que tem sido potencializado pela

mídia nos últimos tempos. No entanto, ao considerar a dimensão estética da GR

neste texto, não estarei considerando somente o espetáculo, o produto, ou seja, o

momento em que as séries (coreografias) são apresentadas em competições, mas

também outras situações do processo de construção do espetáculo (treinamento),

em que os aspectos estéticos são significativos e preponderantes para que o produ-

to se torne espetacular. Nesse contexto, entendo que treinamento é um processo

complexo que abrange várias situações que se articulam, dentre elas: a preparação

física, técnica, tática e psicológica, bem como o momento de participação em com-

petições e momentos posteriores.

DESCRIÇÕES DO TREINAMENTO DA GINÁSTICA RÍTMICA EM PERSPECTIVA

ESTÉTICA


DESCRIÇÃO I 

– O dia de treinamento da equipe brasileira de GR, categoria

conjunto, começa com a aferição do peso. Uma a uma, as ginastas sobem na balan-

ça para conferir se seus corpos aproximam-se ou distanciam-se das metas de peso

previamente definidas. Uma das ginastas confessa que a questão do peso é um

estresse na vida da ginasta, pois elas têm uma meta a ser alcançada, mas nem todas

conseguem, o que implica muitas vezes o desligamento da ginasta da equipe e,

conseqüentemente, da oportunidade de concretizar o sonho de ser campeã. A

assistente técnica da equipe comenta que controlar o peso para atender aos ideais

de corpo das competições internacionais é difícil e que tal dificuldade é um passo

para a desistência de atletas entre 15 e 18 anos. Muitas ginastas já ficaram doentes

pelo rigor do controle do peso. É comum elas se sentirem culpadas por comerem;

comem e querem vomitar. O controle da alimentação é rígido, mas é facilitado pelo

fato de passarem a semana em regime de internato. A alimentação é balanceada

por uma nutricionista, mas há casos em que as ginastas são flagradas escondendo

pizzas dentro dos armários, para satisfazerem o apetite à noite. A boa ginasta, no

entanto, é aquela que tem força de vontade para resistir às tentações e manter o

peso. Para as brasileiras o cuidado com o peso é imprescindível, já que seus corpos

são bastante diferentes dos corpos das européias, comenta outra treinadora da

categoria individual.




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As preocupações com um corpo que atenda aos padrões estéticos necessá-

rios para garantir boas performances é ponto relevante para a escolha e a manuten-

ção de ginastas em equipes que pretendem participar de competições internacio-

nais. Mas que estética é essa? Que corpo é esse?

A estética do corpo que se pretende na GR é uma estética centrada no

modelo de um corpo esguio e longilíneo, padrão internacional de corpo das ginas-

tas de alto nível que têm garantido as medalhas olímpicas. A busca por uma estética

corporal que ao menos se aproxime dos padrões internacionais da modalidade

começa desde a escolha das ginastas para comporem as equipes e se mantém

durante todo o treinamento com o controle regular do peso. A estética corporal

pretendida está atrelada aos movimentos que esse mesmo corpo é capaz de reali-

zar na modalidade e repercute também na possibilidade de manter a elegância, a

graça e a exuberância nas execuções das séries.

Percebemos, nesse caso, uma concepção de estética objetivista que tem

como referência o objeto, um modelo de beleza a ser seguido. Esta é uma referên-

cia de estética que remonta ao ideal clássico apolíneo de beleza (Sánchez Vásquez,

1999). Apolo, deus da medida, da ordem, da proporcionalidade, da simetria, da

harmonia de formas e do equilíbrio, mascara a verdadeira realidade, seu oposto

Dioniso, o desvelador da realidade bruta e devastadora da vida, capaz de promover

a reconciliação do homem com a natureza (Nietzsche, [19—]). O ideal grego

apolíneo de beleza foi retomado posteriormente no Renascimento, transferindo

para o corpo do homem (e não mais dos deuses) a fonte de beleza. Essa concep-

ção estética está presente em várias situações contemporâneas, a exemplo do ideal

de beleza centrado no corpo das ginastas olímpicas. É esse o padrão a ser copiado,

desejado e imitado, mesmo que as condições para tal signifiquem sofrimento ou

negação de estéticas próprias.

DESCRIÇÃO II 

– O conjunto da seleção brasileira de GR tem em média 70

movimentos e é repetido cerca de 200 vezes por treinamento. A repetição é fun-

damental para que o movimento seja realizado com perfeição, comenta a treinado-

ra, que também evidencia a composição da coreografia como uma rica possibilida-

de de mostrar o que cada ginasta tem de bom quanto à qualidade dos movimentos.

A apreciação de vídeos de participações em competições anteriores também pare-

ce ser um momento importante que compõe o treinamento da GR. As ginastas

sentem-se motivadas para os próximos treinos e percebem que os sacrifícios não

são em vão. Para as atletas que competem na categoria individual, a Confederação

Brasileira de Ginástica, representada pela sua presidente, explicita os planos de tra-

zer uma treinadora ucraniana para lapidar os movimentos das brasileiras e para que




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as ginastas aprendam a não errar como as ginastas internacionais. Ainda no local de

treinamento, o narrador, considerando-se leigo, comenta que no momento em

que a coreografia é repetida na íntegra, o ginásio se enche de encanto e é evidente

o desejo de aplaudir. Diante do vídeo da apresentação das atletas brasileiras na

olimpíada de Sidney, ele refere-se à GR como o mais belo dos espetáculos olímpi-

cos, de deixar gente boquiaberta. Um espetáculo “encantador” e “digno das meda-

lhas mais brilhantes”.

Não basta ter um corpo perfeito ou esteticamente apropriado para a moda-

lidade. É preciso submeter esse corpo ao treinamento, para que a ginasta seja capaz

de realizar as proezas mais difíceis e também mais belas. As preocupações estéticas

estão presentes no treinamento da GR desde a escolha das atletas para composi-

ção das equipes, até o momento em que a atleta se apresenta. Tais preocupações

mantêm-se presentes durante as diversas fases do treinamento.

O bom resultado de um treinamento requer uma atenção especial aos fatores

estéticos que estão implícitos na caracterização desta modalidade esportiva. Não

basta, por exemplo, recepcionar um lançamento no tempo e espaço exato e pre-

visto, mas fazê-lo com graça, elegância, beleza. Não basta ser flexível, mas também

saber utilizar-se da própria flexibilidade de forma expressiva, original e exuberante.

O planejamento de um treinamento esportivo engloba vários momentos e exige uma

organização necessária para que os esforços das fases precedentes venham a ser

reconhecidos e suficientes para a obtenção de boas performances nas fases poste-

riores. Como em outros esportes, a preparação física, a técnica e a tática são partes

essenciais do treinamento, e no entanto percebemos que tais componentes no trei-

namento da GR apresentam-se imbuídos de uma dimensão estética que os especi-

fica e os torna peculiares a esta modalidade esportiva.

A preparação física no treinamento da GR, segundo Laffranchi (2001), deve

ser voltada para os próprios movimentos do esporte. Assim, boa parte desse pro-

cesso é realizada a exemplo de uma aula de dança, tendo a barra e o centro como

espaços possíveis para o treinamento das qualidades físicas necessárias, associadas

aos movimentos de técnicos da GR e da dança. A autora também sugere como parte

da preparação física a realização de aulas de balé clássico, como forma de “aprofundar

o aprendizado da técnica do trabalho corporal” (p. 32). O balé tem sido apontado

comumente como técnica de base para a formação das ginastas, mesmo quando há

referências a outros estilos de dança. Fernandez Del Valle ([1996]), ex-técnica da

Equipe Nacional da Espanha e árbitro internacional, aponta-nos a dança contempo-

rânea e as danças características dos diversos países como referências no treinamento

da GR. Comenta sobre uma nova adaptação a novas tendências da dança, a exem-

plo da dança contemporânea, com formas mais arredondadas e soltas, movimen-




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tos de contração e relaxamento e regras menos rígidas. Apesar de citar as danças

populares também como referência capaz de ampliar os sentidos do ritmo, da música

e da capacidade de dançar, contraditoriamente volta a considerar o balé clássico como

técnica de base, apresentando uma série de exercícios de barra, por acreditar que

este é ponto de partida para outros tipos de dança.

No que tange à referência da dança e ao aperfeiçoamento de movimentos

que farão parte das composições das séries, a preparação física traz consigo a busca

pela beleza e elegância dos movimentos, bem como uma harmonia e compatibili-

dade com a música.

Na preparação tática, os componentes estéticos da modalidade também se

mostram como elementos significativos. Dentre os fatores táticos mencionados

por Fernandez Del Valle ([1996?]), destacamos: a combinação e a estética da vesti-

menta, do penteado e da maquiagem; a entrada e saída da ginasta na área de compe-

tição com suavidade, firmeza, beleza e elegância; a renovação e a criação de novos

programas de exercícios; a seleção musical; o desempenho da ginasta na área de

competição com beleza, originalidade e relação de reciprocidade com o aparelho

utilizado (corda, arco, maças, fita ou bola) e a utilização de elementos novos e

originais na coreografia. As preocupações com as vestimentas, os adornos e a mú-

sica, bem como o estilo elegante e a originalidade da coreografia, fazem parte de

uma preocupação geral com a estética e concorrem significativamente para a bele-

za do espetáculo a ser apresentado.

A preparação tática na GR talvez seja o componente que mais difere do

treinamento de outros esportes do ponto de vista estético. Na visão de Laffranchi

(2001), a preparação tática se dá a partir da montagem das coreografias que tentam

aliar originalidade e beleza às qualidades das ginastas e da música dentro dos limites

e orientações impostos pelo regulamento da modalidade.

A composição das séries de conjunto e individuais também carece de uma

visão estética que possibilite articular os movimentos necessários e possíveis de

serem realizados, de forma que, além de garantir as exigências técnicas, também

expressem plasticidade e originalidade. Para compor uma série que encante é pre-

ciso ousar, saber articular possibilidades do movimento criativamente para que o

conjunto possa parecer belo e original para quem o aprecia.

Na GR, a coreografia pode ser entendida como a combinação do movimen-

to da ginasta (considerando os elementos técnicos obrigatórios na regras da moda-

lidade), sua distribuição criativa no espaço destinado a sua execução e a relação

com o ritmo musical (Llobet, [1998?]).

O papel de uma treinadora de GR necessita de qualidades cujas dimensões

estéticas não se conseguem somente com estudo ou dedicação. Concordo com




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Llobet ([1998?]) que a composição de uma coreografia não é uma ação que se

possa aprender somente a partir da leitura de livros, da apreciação de apresenta-

ções teatrais ou de diversos campeonatos, mas é um resultado de muitos fatores,

como análise do espaço, reflexões sobre um tema, avaliação dos meios disponíveis

e do número de pessoas envolvidas. Chamo a atenção para o fato de que a expe-

riência da apreciação crítica, o bom gosto, a sensibilidade e a flexibilidade adaptativa

são de fundamental importância para a criação coreográfica na GR.

Quanto à preparação técnica, compreende-se que, além da obtenção da

maior eficiência do movimento ginástico com o mínimo de esforço, objetiva-se

também o virtuosismo dos movimentos realizados. Aqui, evidencia-se a busca in-

cessante pela perfeição do movimento a partir de infindáveis repetições e corre-

ções detalhadas (Laffranchi, 2001). A fim de ampliar os meios utilizados na prepara-

ção técnica, Fernandez Del Valle ([1996?]) sugere vídeos, fotografias, apresentação

de um modelo ideal de ginasta e expressões orais e escritas. A iniciativa da aprecia-

ção de vídeos e fotografias pelas ginastas também pode ser apontada como mo-

mentos do treinamento nos quais preocupações com a estética estão presentes.

Mesmo para fomentar a idéia da vitória, a apreciação de vídeos não deixa de ser um

momento de formação estética das ginastas, quando, diante da beleza das apresen-

tações de outras equipes, podem se deslumbrar e ao mesmo tempo problematizar

a sua própria experiência.

O período competitivo, que também faz parte do treinamento, talvez seja o

momento no qual essa estética a que nos referimos esteja mais presente e visível.

No momento da apresentação, o esforço realizado durante os treinos cede visibi-

lidade à beleza, à plasticidade e ao encantamento do público. Para o público, a GR

pode se constituir uma rica possibilidade de vivência estética, ou seja, uma experiência

arrebatadora que percorre o corpo, que provoca uma certa “embriaguez” dos sen-

tidos, como diria Nietzsche (19[—]). A precisão nos lançamentos; a expressividade,

a sincronicidade e a relação de reciprocidade entre as ginastas de um conjunto; a

leveza e a plasticidade na realização de movimentos de grande dificuldade parecem

tirar o fôlego de quem aprecia esse espetáculo. O resultado da busca por uma

estética perfeita no treinamento parece realizar-se no momento da apresentação

competitiva, atendendo às prerrogativas de uma concepção de beleza que

“desencoraja qualquer idéia de retoque”, que se dá na reciprocidade entre aquele

que aprecia e o apreciado (Dufrenne, 1998). Tal concepção fenomenológica de

estética nos permite pensar que a busca por essa beleza exuberante é uma das

formas de o homem sentir-se no mundo. Uma apresentação de GR realizada na

sua melhor performance pode nos oferecer esse participar do mundo pelo sentido

da beleza.




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A vivência estética proporcionada por uma série de GR pode fazer vibrar os

corpos dos apreciadores, suscitar incredulidade diante de tamanha exuberância,

sensações de entusiasmo e questões nunca antes pensadas. Eis a estética da GR

também pensada do ponto de vista do apreciador.

DESCRIÇÃO III

 – O treinamento de conjunto da equipe brasileira é tido como

um momento árduo para a ginasta. Além do rígido controle do peso, a repetição

contínua das séries leva à exaustão e à fadiga muscular. O erro, o cansaço, o desâ-

nimo, a fome, os problemas pessoais não são bem vistos pela treinadora, que com

seu olhar minucioso avalia todos os detalhes. Nada deve provocar desânimo ou ser

maior do que a vontade de vencer. Uma das ginastas da categoria conjunto confes-

sa que é difícil, pois o corpo já não vai mais agüentando, com o passar do tempo,

constantemente sente dores no joelho, mas para atingir o objetivo de ir para as

Olimpíadas vale qualquer sacrifício. O psicólogo que acompanha a equipe também

parece sentir-se maravilhado com o resultado do trabalho quando diz que o que as

ginastas fazem é divino. Porém, chama a atenção para a vida infernal que tais meni-

nas levam, vida essa em que a rígida cobrança e a distância da família tornam-se

motivo para a insegurança. O narrador não deixa dúvidas de que uma apresentação

de GR é uma experiência estética significativa. Comenta valer a pena para quem

aprecia, mas coloca em dúvida se vale para a ginasta que troca a juventude pelos

treinos.

O esplendor da vivência estética proporcionada por uma apresentação da

seleção brasileira é sustentada por “uma vida de cão”, como se refere a treinadora

Bárbara Laffranchi, ao falar da vida das suas ginastas. Beleza e sofrimento parecem

manter estreitas relações. A beleza aqui é uma qualidade que se impõe a base de

sacrifícios corporais para adequação a um modelo de performance. O sacrifício é

recompensado pela significativa experiência estética que se concretiza nos momen-

tos das apresentações ou participações competitivas. Aqui está Apolo novamente, a

beleza que mascara a realidade devastadora da vida somente capaz de ser mostra-

da por Dioniso. O prazer de vencer também cumpre o papel de tornar o sacrifício

válido. É o preço de ser campeão, um sonho de muitos, e um prazer de poucos

atletas.


Observa-se, assim, uma relação paradoxal, pois, ao mesmo tempo em que

o sacrifício é justificado pela concretização de uma estética esperada, é na negação

de uma estética de vida que esse sacrifício é realizado. Nos remetemos aqui à

negação de uma “linguagem do gosto” fundada nas vivências estéticas pessoais e

priorização de uma “linguagem da utilidade” que se mostra visível nos processos de

treinamento, cuja utilidade é a vitória (Lovisolo, 1997). É visível, nessa situação, a




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priorização de uma estética pré-concebida, pautada nos ideais de performance in-

ternacionais, e ao mesmo tempo a negação de outras estéticas corporais e vivências

estéticas da própria ginasta, presentes por exemplo em ações cotidianas relativas à

alimentação, ao convívio familiar e às formas de perceber e aceitar o próprio corpo.

Concordo com Melo (2003) que os recordes e as boas performances no

“esporte-rendimento” têm se realizado à custa de visíveis sacrifícios do corpo. Este

é comumente tratado como uma máquina que deve ser moldada para superar

limites e obter vitórias, o que denota uma explícita contradição à visão de que

esporte é sinônimo de saúde. O fato é mais agravante se considerarmos hoje um

“rejuvenescimento” da GR, ou seja, os resultados satisfatórios da modalidade têm

sido obtidos por ginastas cada vez mais jovens (Laffranchi, 2001). Essa situação por

si só denuncia a precocidade do treinamento dessa modalidade esportiva, que

direciona seus processos sistemáticos para obtenção de resultados de performance

ainda na infância. A implantação de “métodos potentes e rápidos” no treinamento,

com vistas a elevar rapidamente o nível de performance de ginastas infantis e juve-

nis, tem obtido êxito, e no entanto tem provocado problemas de saúde, perturba-

ções psíquicas e minimização da “longevidade desportiva”. A autora citada acredita

na necessidade de um treinamento de formação iniciado ainda na infância (5 a 8

anos), de forma que a aplicação das atividades priorizem um caráter lúdico e recrea-

tivo. Somente depois de assimilar as metas dessa fase é que a criança pode passar

para a fase do Treinamento de Desenvolvimento, cujo objetivo é dar continuidade

e aperfeiçoar as bases da fase precedente. Somente após essa meta, a ginasta po-

derá passar para a etapa de Treinamento de Desenvolvimento Avançado, em que

poderá iniciar “o treinamento periodizado de alto rendimento” com ampliação do

tempo de treino, cobrança de resultados e adequação ao “regime de vida desportiva”.

O respeito às fases do treinamento, oferecendo bases iniciais sólidas para as ativida-

des mais complexas, é uma preocupação explícita na proposta apresentada pela

autora, no entanto, a partir dos nove anos, a criança já pode ser considerada apta a

compor o Treinamento de Desenvolvimento Avançado, cujas preocupações com

o alto rendimento precedem a fase do Treinamento de Alta Performance.

Ressalto nessa discussão a necessidade da preparação psicológica, ainda não

mencionada neste texto, como forma de minimizar as seqüelas deixadas pela árdua

disciplina que requer o treinamento da GR em níveis elevados de competição. A

preparação psicológica deve também educar a ginasta para um trabalho que exige

grande vontade de sacrifício e espírito de superação, sendo essas condições im-

prescindíveis para que a ginasta não desanime na medida em que avancem os pro-

cessos de treinamento (Llobet, [1998?]).



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ESPORTE DE ALTA PERFORMANCE E ESCOLA: IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS DO

PONTO DE VISTA ESTÉTICO

Em todo o texto, ressaltei a GR como modalidade esportiva, dando priorida-

de às reflexões de caráter estético relacionadas ao contexto do treinamento de alta

performance. A preocupação em finalizar o texto tomando como referência a edu-

cação física se dá pelo fato de esta comumente manter relações estreitas com o

modelo de treinamento de alto nível na busca da descoberta e da formação de

talentos para as grandes competições. Essa concepção de educação física, denomi-

nada por Kunz (2000) de técnico-desportiva é ainda tida como hegemônica no

contexto escolar, apesar das concepções críticas formuladas e discutidas no Brasil a

partir da década de 1990.

O vínculo com as prerrogativas do esporte de alto nível tem suas raízes com

a esportivização da educação física no Brasil impulsionada pela introdução do Méto-

do Desportivo Generalizado ou Método da Educação Física Desportiva Generali-

zada, na década de 1960, cuja transposição dos códigos e sentidos da instituição

esportiva viriam contrapor-se aos antigos métodos ginásticos. A subordinação da

educação física às referências do esporte olímpico e dos sistemas esportivos nacio-

nais e internacionais ainda se faz presente na escola quando são priorizados os

princípios de rendimento, a vitória nas competições, os modelos de performances

mundiais e a rígida regulamentação, dentre outras características (Coletivo de auto-

res, 1992).

No que se refere aos aspectos estéticos discutidos, considerei alguns pontos

para reflexão em torno do esporte na escola, tendo como base a inadequação dos

modelos do esporte de alta performance nesse contexto. O primeiro deles é a

valorização de uma estética objetivista, centrada no objeto e em um modelo pré-

definido de beleza a ser copiado e almejado acriticamente. Entendemos que a es-

cola é um espaço para a reflexão e vivência de múltiplos referenciais de beleza e de

uma concepção de estética que abarque a reciprocidade entre o sujeito e o objeto,

a coisa percebida e aquele que a percebe, como forma de incluir o sujeito como

parte indispensável nos processos de conhecimento, cuja dimensão estética é parte

integrante e necessária (Porpino, 2003).

O segundo ponto a refletir é sobre a priorização de aspectos normativos e

utilitários em detrimento da valorização de aspectos ligados ao gosto ou à vivência

estética e lúdica, que se dá nas múltiplas possibilidades de escolhas, de interpreta-

ções e criação da beleza. Aqui a situação agrava-se com a possibilidade da iniciação

precoce do treinamento, ou seja, com a antecipação dessa visão normativa e utili-

tária ainda na infância, fase da vida marcada significativamente pela brincadeira. Res-



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salto que a escola não é lugar para os sacrifícios corporais, nem tampouco negação

das subjetividades em prol de altos níveis de performance, visto que o objetivo da

escola não é o de formar campeões, mas de promover uma educação que permita

ao aluno exercer sua cidadania, sua participação política e social de forma crítica,

contextualizada, a partir da utilização de várias linguagens e do uso criativo de várias

fontes de informação como possibilidade de mudar a realidade em que vive (Brasil,

2000). Aqui, mais especificamente no âmbito da educação física, cabe conhecer e

criticar os múltiplos contextos e códigos do esporte, questionando suas regras, suas

condições de existência, seus objetivos e seus atores.

Tendo o cuidado para não transpor experiências entre contextos bastante

distintos, acredito que alguns componentes estéticos presentes no treinamento da

GR aqui descritos podem se constituir referências significativas para a educação

física escolar, desde que a tônica seja discutir, problematizar e contextualizar as refe-

rências estéticas abordadas, e não fomentar a visualização de modelos únicos. Des-

taco aqui a apreciação de vídeos e fotografias, as múltiplas possibilidades de criação

coreográfica e de modelos de vestimenta para apresentação, que na escola podem

tomar uma forma coletiva, as experiências com a dança (não somente com o balé

clássico) como possibilidade de enriquecer as possibilidades expressivas, bem como

a vivência do desafio, da superação de limites e das múltiplas possibilidades lúdicas

de manipulação criativa dos aparelhos de ginástica.

Discutir sobre a GR como um esporte contemporâneo e em ascendência

no Brasil pode ser visto como possibilidade também de refletir sobre concepções

estéticas presentes nos ideais de corpo e de movimento pré-definidos para o trei-

namento de alta performance e os limites que esses referenciais podem represen-

tar para a formação estética.

Para finalizar, percebemos que as relações entre o esporte no âmbito da

escola e o esporte no âmbito do treinamento de alta performance podem tomar

várias nuanças. Considero que a transposição descontextualizada de experiências

de uma situação para outra pode ser desastrosa e indesejável, e no entanto, enten-

demos que o diálogo entre esses dois contextos em que se vivencia a GR pode ser

possível se considerados uma visão crítica e o respeito às especificidades de cada

um deles. Na busca de compreender o esporte, a escola não pode negar nem

desconsiderar o esporte de alta performance como uma das possibilidades de vivência

desta manifestação cultural. Da mesma forma, talvez o esporte de alta performance

precise do referencial do esporte escolar para compreender outras formas de vivência

de si mesmo. Vivências menos sacrificantes e espetaculares, porém mantedoras de

componentes estéticos mais necessários à vida do que à vitória nas competições.



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Rhythmic gymnastics training: aesthetic reflections

ABSTRACT: The text aims to reflect on the aesthetic components present in the training

of Rhythmic Gymnastics. Having the hermeneutics as a method, it presents reflections

based on descriptions of scenes from the videotape of the program História do Esporte,

shown in June of 2003 by ESPN Brazil, which covers the day by day of the Brazilian

Rhythmic Gymnastics team, then training for the Santo Domingo Pan-American Games.

Having such reflections as basis, it discusses, from the aesthetic point of view, the pedagogical

implications for the training of Rhythmic Gymnastics in school generated by the high

performance training model and possible interfaces between the two contexts considering

the needs of critics and the respect to the specificities of both.

KEY-WORDS: Rhythmic gymnastics; aesthetics; physical education.

Entrenamiento de gimnástica rítmica: reflexiones estéticas

RESUMEN: El texto tiene como objetivo reflexionar sobre los componentes estéticos

existentes en el entrenamiento de la Gimnasia Rítmica. Desde un enfoque hermenéutico

se presentan reflexiones a partir de descripciones de escenas de la película del programa

História do esporte exhibido en junio de 2003 por ESPN Brasil. El mismo trata sobre el

día a día del equipo brasileño de GR durante su entrenamiento para los juegos

Panamericanos de Santo Domingo. A partir de este material, se discuten implicaciones

pedagógicas desde un punto de vista estético, relacionado el entrenamiento de la GR con

el ámbito escolar. De esta manera, a partir del modelo de entrenamiento de alto nivel, se

proponen posibles integraciones entre esos dos contextos, considerando una crítica y un

respeto a las especificidades de ambas.

PALABRAS CLAVES: Gimnasia rítmica; estética; educación física.

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Recebido: 1 abr. 2004

Aprovado: 8 jun. 2004

Endereço para correspondência

Karenine de Oliveira Porpino

Rua Pastor Gabino Brelaz, 1419

Bloco C – Apto. 102

Natal-RN


CEP 59087-010



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