Redalyc. Uma análise do ethos cristão medieval a partir da Regra de São Bento, da Regra Pastoral e de o nome da rosa


Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica



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Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica 

Rio de Janeiro: vol. 8, n

o

.3, setembro-dezembro, 2016, p. 452-470. 

 

 



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Eco,  com  O  nome  da  rosa,



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 como  que  embutida  a  problemática  envolvendo  a  Regra 

franciscana. 

Quando procedemos ao estudo sobre as cosmovisões medievais acerca da teoria 

do conhecimento e da fundamentação do poder civil, observamos que uma visão orientada 

pelo platonismo agostiniano tende a sustentar a origem divina do poder e, com variações, 

a existência de um poder uno articulado entre os âmbitos espiritual e temporal.  Tende esta 

visão  a  absorver  a  razão  na  fé  e  na  crença  subjetiva  da  verdade  divina.  O  tomismo 

aristotélico, em linhas gerais, foi importante para uma abertura maior à realidade empírica, 

numa  tentativa  de  equilibrar  a  fé  e  a  razão,  que  deveria  adequar-se  à  coisa  pela  via 

sensitiva. Neste sentido, a visão tomista implica uma concepção de direito em linhas gerais 

dividida entre o direito natural e o direito divino, atenta às construções teóricas mediadas 

por conceitos como direito natural, direito positivo, direito divino e direito das gentes, numa 

tentativa de se pensar e mover dentro de um sistema com racionalidades próprias, o que 

irá desmentir os correligionários da vertente platônico-agostiniana, por exemplo, ao separar 

o fundamento do poder civil do fundamento do poder eclesiástico a partir da diferenciação 

entre direito natural e divino. Mas as experiências cristãs  das Regras têm, por seu turno, 

uma intelecção que, se por um lado ultrapassa os modelos platônico-agostiniano e tomista, 

serve para compreendermos o surgimento, por exemplo, em um período posterior da Idade 

Média, da teoria de Marsílio de Pádua, segundo a qual a lei é feita pelo povo e a eleição do 

príncipe  é  exercida  pelo  povo,  em  nome  da  soberania  popular  ou,  ao  menos,  de  uma 

determinada  comunidade.

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 Algo  que  não  indica  uma  relação  direta  no  sentido  de  um 



deslocamento da organização monacal e regrada para o âmbito do poder civil, mas que, 

por outro lado, pode indicar movimentos de secularização e deslocamentos de conceitos e 

ideias por vias que restam ainda ser examinadas e compreendidas. Isto porque, se por um 

lado,  o  fundamento  das  regras  aqui  estudadas  não  seja  a  comunidade  em  si,  ou  o  que 

entenderíamos hoje por vontade popular, mas uma inspiração transcendente e divina, por 

outro,  a  manutenção  dessa  vida  regrada  depende  diretamente  de  um  trabalho  muito 

comezinho e cotidiano que compreende todos os aspectos da vida comunal, algo que indica 

                                                           

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 Eco, Umberto (1986). O nome da rosa. Rio de Janeiro: Record. 



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 E aqui não podemos ignorar o diálogo entre a obra de Marsílio de Pádua e a de Guilherme de Ockham. A 

influência  do  nominalismo  sobre  a  obra  de  Francisco  de  Vitoria  e,  consequentemente,  sobre  a  Escola  de 

Salamanca,  será  importante  para  o  estudo  da  escolástica  barroca  ou  tardia.  Consta  que  Ockham  leu  o 



Defensor pacis, texto que traz as teses de Marsílio. Contudo, Ockham não foi um partidário fiel da teoria de 

Marsílio. Ghisalberti observa que “também Ockham, em um primeiro momento, não ousou refutar a tese da 

origem divina imediata do poder civil”. Cf. Ghisalberti, Alessandro (1997). Guilherme de Ockham. Tradução 

de Luís A. De Boni. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 267-286. 



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