Redalyc. Patrimônio histórico cultural e turismo no carnaval de Caravelas: Axé versus Samba



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Caderno Virtual de Turismo

E-ISSN: 

1677-6976

caderno@ivt-rj.net

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Brasil

Magalhães Batista, Cláudio; Ávila, Marco Aurélio



Patrimônio histórico cultural e turismo no carnaval de Caravelas: Axé versus Samba

Caderno Virtual de Turismo, vol. 6, núm. 2, 2006, pp. 1-10

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Río de Janeiro, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=115416203001

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Patrimônio histórico cultural e turismo no carnaval de Caravelas: Axé versus Samba

Cláudio Magalhães Batista e Marco Aurélio Ávila

Caderno Virtual de Turismo

ISSN: 1677-6976

Vol. 6, N° 2 (2006)

Resumo

O artigo discute a cultura e o turismo no Carnaval de Caravelas, Extremo Sul da Bahia,



como expressão de manifestações já consolidadas pelo cânone carnavalesco do axé e do

samba. A junção destas feições promove um carnaval tipicamente diferente de outras

localidades da Bahia. Objetiva refletir sobre a interface do Axé, oriundo de Salvador, e do

samba, proveniente do Rio de Janeiro, no carnaval caravelense.

Palavras-chave: Axé, Carnaval, Patrimônio histórico-cultural, Samba, Turismo.

Abstract


This article suggests the culture and tourism of Caravela's Carnival, in the extreme south of

the state of Bahia, as a consolidated expression of the manifestation by carnival's cânone of

axé and samba. By mixing up these aspects, Caravelas makes a carnival typically different

of those from other places of Bahia. Te objective is to reflect about the interface of the axé

from Salvador and the samba, from Rio de Janeiro in the Caravela's carnival.

Key-words: Axé, Carnival, Patrimony historical-cultural, Samba,Tourism.

Patrimônio histórico cultural e turismo no carnaval

de Caravelas: Axé versus Samba

Cláudio Magalhães Batista (bacau10@yahoo.com.br)* e

Marco Aurélio Ávila (marco@ativanet.com.br)**

www.ivt -rj.net

Laboratório de Tecnologia e

Desenvolvimento Social

LTDS



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Cláudio Magalhães Batista e Marco Aurélio Ávila

Caderno Virtual de Turismo

ISSN: 1677-6976

Vol. 6, N° 2 (2006)

Introdução

O Samba e o Axé são duas vertentes

que representam as duas cidades brasileiras

que melhor expressam esses ritmos: Rio de

Janeiro e Salvador. O carnaval se destaca

como uma festa eminentemente popular

que busca salientar as manifestações

culturais existentes em uma comunidade. A

cidade de Caravelas, localizada no Extremo

Sul da Bahia, procura otimizar o seu potencial

turístico, através do carnaval onde se

destacam estas duas formas de expressão

carnavalesca. Esta interface que vem

caracterizando o carnaval de Caravelas, o

torna cada vez mais procurado, em função

desta diferenciação. Este caráter identitário,

fez com que o carnaval seja analisado neste

artigo como um atrativo do Patrimônio

Histórico-Cultural desta cidade.

O carnaval vem passando por várias

mudanças ao longo da história, estando

intimamente ligado à vida social e política

do momento histórico. Para elaboração deste

artigo foram adotadas as pesquisas

bibliográfica e documental e os dados foram

obtidos, em livros, jornais, revistas,

documentos fornecidos pela Secretaria de

Educação e Cultura, bem como a

participação do pesquisador in loco nos

carnavais na cidade.

Do "carne-vale" aos dias atuais.

O vocábulo carnaval tem sua origem

na expressão latina "carne-vale" que significa

"adeus à carne", expressão que se consolidou

com a instituição da Quaresma, 40 dias de

penitência e de jejum criado pela Igreja

Católica na Idade Média. A relação do

carnaval com a Igreja Católica é evidente,

visto que, sem a Quaresma não haveria

carnaval, já que este significa os três dias

precedentes à quarta-feira de cinzas, que

são dedicados à liberdade, diversões e folias.

(FERREIRA, 1989)

Durante a Idade Média, o carnaval

Filósofo e Mestrando em Cultura e Turismo



UESC&UFBA, com o projeto de pesquisa:

Carnaval em Caravelas: Um link entre o

Extremo Sul da Bahia e o Rio de Janeiro/Axé X

Samba. Turma 2005-2007, e-mail:

bacau10@yahoo.com.br

Dr. Em Turismo e Desenvolvimento



Sustentável (ULPGC- Universidade de Lãs

Palmas Gran Canárias-Espanha), professor

Visitante do Mestrado em Cultura e Turismo

UESC, e-mail: marco@ativanet.com.br

se populariza tomando diferentes formatos

que vão influenciar os carnavais que

conhecemos hoje. Em sua origem, os

costumes das brincadeiras estavam

associados às festas pagãs, para afugentar

os espíritos dos mortos que rondavam

naquele período do ano.

A luta que se trava entre o carnaval e

a Quaresma é bastante visível,

principalmente representada pela fartura e

escassez, sobre esse aspecto Ferreira (2004,

p.32-33) destaca que:

... por volta do século XII, ouviremos

falar, pela primeira vez, de uma

curiosa batalha que colocaria em

campos opostos dois lutadores

incansáveis de um lado o gordo e

bonachão Senhor Carnaval e do

outro a magra e triste Dona

Quaresma. Estes dois personagens,

representados em peças teatrais,

contos e poemas humorísticos, se

enfrentariam ano após ano, durante

séculos, marcando a luta entre a

fartura e a escassez característica do

período do adeus à carne. Sua

disputa era um verdadeiro símbolo do

significado associado às festas do

carne vale que começavam a se

organizar na Idade Média.

Percebe-se que o carnaval é cheio de

símbolos e significados, esta característica

permeará toda sua história, principalmente

no que diz respeito aos exageros, tolerados

nos dias de festa em contraposição ao jejum

da Quaresma. No carnaval é evidente que

os símbolos são enaltecidos, Burke (1989,

p.210) afirma que: "Havia três temas principais

no Carnaval, reais e simbólicos: comida, sexo

e violência". A comida devido à carne que

compõe a palavra carnaval; o sexo, pois é

a "carnalidade", representa o prazer sexual;

e a violência era evidente porque era

permitido o insulto a quem quer que seja,

provocando alguns excessos, comuns até os

dias atuais no carnaval brasileiro.

Durante a Idade Moderna, período em



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que aconteceram as grandes descobertas,

surgem vários movimentos, como a Expansão

Marítima, as Grandes Invenções, e dentre

eles se destaca o Renascimento, que mudou

a estrutura do mundo e de sua concepção;

na expressão carnavalesca não ocorre de

forma diferente. O carnaval nesse período

ganha um certo "glamour" nas grandes festas

e bailes dos mascarados.  A cidade que se

destaca como sendo a grande

incentivadora deste carnaval é Veneza na

Itália, onde a festa adquire maior destaque

nos bailes fechados que são freqüentados

pela alta sociedade, destaca-se também o

carnaval de rua e suas impressões de alegria,

descontração a todos que participam desse

universo de magia e de prazer.

Em Veneza, devido ao fluxo de

visitantes, os bailes e óperas refletem o

esplendor da nobreza que domina a cidade,

os grupos de mascarados perambulavam

pelas ruas e vias aquáticas do centro. Os

grandes Bailes Venezianos influenciam turistas

até hoje pela sua pujança e sofisticação,

bem como, os passeios de gôndola pelas vias

aquáticas, tudo isso faz parte do imaginário

das pessoas que ao se remeterem a Veneza

desejam reviver tempos gloriosos de épocas

marcadas pelo luxo.

Na Idade Moderna, o carnaval era

representado como inversão de valores e se

opunha a toda vida cotidiana.

O carnaval não se opunha apenas à

Quaresma, mas também a vida

cotidiana, não só aos quarentas dias

que começavam na Quarta-Feira de

Cinzas, mas também ao resto do ano.

O carnaval era uma representação

do "mundo virado de cabeça pra

baixo", tema favorito na cultura

popular dos inícios da Europa

moderna (BURKE, 1989, p.212).

Durante o Iluminismo, as representações

teatrais tomavam forma de proporções

gigantescas devidos aos figurinos elaborados

que serviam de inspiração para as diversões

carnavalescas da elite européia no século

XVII. Na França, o próprio Rei Luís XIV

incentivava a disseminação de bailes nos

grandes salões reais.

 O poder e a fama de Luís XIV, o

chamado Rei Sol, modelo de monarca

copiado em todo o Ocidente, acabou

por fazer com que esse estilo de

festividade fosse cada vez mais

imitado por praticamente todos os

poderosos da Europa. Esse tipo de

espetáculo sofisticado, mais próximo

de uma representação teatral do que

de algo que possa ser chamado

verdadeiramente de festa

carnavalesca, fez com que as

comemorações oficiais se tornassem

cada vez mais ritualizadas (FERREIRA,

2004, p.45-46).

Ainda com o espírito do carnaval,

onde tudo é permitido, ressaltando as

diferenças existentes entre o povo e os

poderosos, que são visivelmente percebidos

em todo o cotidiano, no momento

carnavalesco por ser um momento

específico, essas diferenças são apresentadas

de forma exacerbada com humor e crítica.

Em Roma, o carnaval toma a

característica de uma festa de rua, o

destaque é a diversidade de personagens

que convivem numa espécie de festa

idealizadora que iria povoar o imaginário dos

carnavais ao redor do mundo. É na cidade

de Roma que se origina o costume de lançar

pequenas bolinhas coloridas de gesso ou de

confeitos de açúcar, chamados de confetti,

hoje popularizado nas festas carnavalescas

em todos os lugares.

A Revolução Francesa representou um

marco de transformações nos âmbitos

econômico, político e social. Os ideais de

Liberdade, Igualdade e Fraternidade

influenciaram também a cultura, e o

carnaval será a personificação destas

influências na sociedade. Esses ideais serão

transpostos ao carnaval, já que a festa




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propicia essa liberdade de expressão,

"igualdade" de classes sociais e

confraternização.

A França instalaria mudanças que iriam

consolidar as bases do carnaval

contemporâneo como hoje conhecemos.

Destacou-se como a mais importante e

elegante da sociedade ocidental e servia

de modelo para as folias de outros centros

urbanos do mundo.

No Brasil, a festa carnavalesca teve

influências tanto da França, que de certa

forma manteve-se como sendo hegemônica

na forma de fazer carnaval, mas foi

influenciada também por Portugal, onde

havia o entrudo, Nascimento (2003, p.30)

destaca esta festa que:

Envolvia como principal divertimento

às pessoas lançarem esferas

contendo água perfumada -

conhecidas como limõezinhos – e

farinha uma nas outras. Tal

comportamento da população em

geral, mesmo sendo praticado, por

vezes, também pela elite, era

repreendido pela polícia, que

considerava o costume violento e

causador de conseqüências

prejudiciais à saúde e à ordem.

O entrudo passou por uma repressão,

pois a polícia tinha o papel de impor limites

aos excessos cometidos pelos foliões que não

poupavam ninguém, pobres, ricos, negros e

brancos. O Rio de Janeiro foi o lugar propício

para a disseminação do entrudo. Cunha

(2001, p.54) destaca que:

São muitas as descrições do jogo no

Ro de Janeiro, em outras províncias

do Império ou menos em Portugal. As

narrativas, em geral, atêm-se à sua

parte mais visível, que era o costume

de molhar e sujar-se uns aos outros

com limões ou laranjinhas de cera

recheados com água perfumada,

com recurso a seringas, gamelas,

bisnagas, até banheiras – todo e

qualquer recipiente que pudesse

comportar água a ser arremessada.

Incluía também, em determinadas

situações, o uso de polvilho,

“vermelhão”, tintas, farinhas, ovos e

mesmo lama, piche e líquidos fétidos,

entre os quais urina ou “águas-

servidas” .

Ao longo do tempo, o carnaval toma

novas feições, sendo adaptado ao jeito

próprio de cada localidade. O entrudo

também foi adaptado às formas brasileiras,

sendo difundido nos carnavais de Porto

Alegre, Florianópolis, Salvador, Fortaleza,

Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em Recife, o carnaval toma a feição

dos frevos e grupos de cordões. Em São Paulo

incorpora o samba e faz as apresentações

de escolas de samba. Em todos os cantos do

Brasil as expressões são diversas na forma de

fazer o carnaval e incorpora-se novas

maneiras de brincar o período carnavalesco.

 A festa popular caracterizou-se pela

liberdade. Tem a simbolização peculiar das

contradições rico versus pobre; branco versus

negro; santa versus puta; além da dualidade

do sagrado e do profano, sendo uma festa

de inversões de papéis (DA MATTA, 1997).

Hoje, no carnaval tudo é permitido aos

foliões, pois possuem um caráter de extrema

liberdade nas brincadeiras. Considerando

sua dimensão grandiosa, não é uma festa

que possua uma forma específica, é a mistura

dos festejos das elites e festejos populares,

tendo espaço neste momento de todas as

manifestações. É um movimento sem dono,

posto que é de todos.

Observa-se que no Brasil, país que já

foi chamado por Jorge Amado, em seu

primeiro romance por "O País do Carnaval",

toma para si esse título e o mesmo é

incorporado por todo o seu povo que brinca

e festeja de forma peculiar a sua festa maior.

Neste contexto diversificado, o carnaval

brasileiro tem na atualidade destaque nas

cidades do Rio de Janeiro com o samba e




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de Salvador com o axé, que serão

abordadas no próximo tópico.

Samba e Axé: duas vertentes em

questão.


O samba vem do vocábulo: semba =

umbigada (dialeto luanda). Duas correntes

disputam a paternidade do ritmo que é

conhecido como nacional, a Bahia e o Rio

de Janeiro. Alguns afirmam que o samba

nasceu na Bahia e foi trazido pelos negros

para o Rio de Janeiro. As controvérsias são

inúmeras, porém o fato é que as duas

vertentes acabam por concordar num

ponto crucial, que o ritmo seria filho legítimo

do espaço urbano do Rio de Janeiro, que

ficou conhecido como "berço do samba",

lugar onde o samba surgiu e foi criado.

(FERREIRA, 2004).

No Rio de Janeiro, surge um tipo de

carnaval muito peculiar, que hoje é

conhecido mundialmente devido ao desfile

das Escolas de Samba, onde grupos são

criados a partir de características próprias

como; localidade geográfica e classe social,

tendo sua base nos  "morros" e "favelas"

cariocas. Utiliza-se do samba e das alegorias

para interpretar um enredo e o desfile ocorre

no espaço que hoje é intitulado de

Sambódromo, onde a festa toma

proporções gigantescas. As Escolas de

Samba apresentam um espetáculo de luxo

apreciado por uma multidão, projetando a

cidade internacionalmente.

No carnaval carioca, as escolas de

samba e os blocos exaltam a mistura de

povos que formam a nação brasileira. A

organização de uma escola de samba em

desfile no Carnaval reflete todo um trabalho

árduo de uma equipe de profissionais, que

organizam durante o ano todo a

preparação da festa.

Para a festa carnavalesca o trabalho

dos componentes das escolas de samba,

gente humilde dos morros, foi de suma

importância para reafirmar a vocação do

samba, como elemento que iria propagar o

carnaval para todos os cantos do Brasil e do

mundo.


A comunidade se envolve com a

confecção dos carros alegóricos, das

fantasias, e principalmente das alegorias, que

são ensaiadas diversas vezes, com o intuito

de apresentar uma boa performance para

a sua Escola de Samba no Sambódromo. Os

principais elementos que compõem uma

Escola de Samba são: O carnavalesco,

figura central na elaboração do enredo; os

figurinistas, os arranjadores, os músicos, os

arquitetos, os sonoplastas e vários profissionais

de diversas áreas.

O carnaval da Bahia, mais

especificamente em Salvador, é um

excelente exemplo da construção de uma

identidade organizada através da ligação

de uma festa "recente" com manifestações

"ancestrais". Percebe-se que a festa baiana

tem o caráter popular e africano

estabelecendo uma identidade particular

diferenciando-se daquela do Rio de Janeiro.

No carnaval da Bahia na década de

80, nasce o "Axé", que é divulgado em todos

os meios de comunicação e se populariza

através do trio elétrico, carros potentes com

som de  qualidade e altos decibéis_

inventado por dois músicos, Dodô e Osmar,

que aproveitaram um velho automóvel,

apelidado de Fobica, e instalaram nele um

sistema de som, ligado a bateria do carro,

capaz de amplificar os acordes da guitarra

e do violão elétrico (FERREIRA, 2004).

Atualmente, os trios elétricos são

verdadeiros "palcos sobre rodas", que vem

crescendo a potência sonora, tornando-se

símbolo principal do carnaval baiano, e que

traz no caso específico de Salvador milhões

de pessoas a este festejo.




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A palavra axé, presente no

candomblé, significa força mística, uma

energia vital vinda dos orixás. Porém, aqui

vem designar um movimento musical

originado em Salvador, que começa com a

explosão da música "Fricote" composta por

Paulinho Camafeu e interpretada por Luiz

Caldas. Esse ritmo se expande em 1985,

difundindo-se em todo o Brasil. Em 1992, a

cantora baiana, Daniela Mercury desponta

no cenário nacional com a canção "Canto

da Cidade". Em uma apresentação no vão

do MASP, em São Paulo, a cantora reúne 20

mil pessoas projetando o Axé para o país e

porque não dizer para o mundo. A partir da

projeção de Daniela Mercury vão surgindo

novos grupos, e um deles usando letras e

coreografias sensuais que vira fenômeno em

1995, o grupo "É o tchan".

Hoje, o Axé tem vários representantes

dentro deste movimento musical, que vem

crescendo a cada ano e lançando sucessos

musicais temáticos em cada carnaval, bem

como cantores novos. Com o tempo, a Bahia

acabou se tornando um dos maiores centros

de produção musical. A música baiana se

revela constantemente dentro do carnaval,

que se configurou como o principal núcleo

de motivação dessa produção, renovando-

se a cada ano e fazendo parte da

identidade local. Desta forma, a Bahia passou

a ser comumente interpretada dentro de um

eixo temático que envolve principalmente

a comunidade afro, a música e o carnaval.

Carnaval em Caravelas: Axé versus

Samba


A cidade de Caravelas localiza-se no

Extremo Sul da Bahia, a 886 km de Salvador

na Costa das Baleias. A região tem muita

influência de povos advindos do Rio de

Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e São

Paulo, refletindo em alguns aspectos de sua

formação e construção identitária. Esta

miscigenação reflete de forma substantiva

na maneira de agir, na culinária, no modo

de falar, e também no modo de celebrar

suas festas.

A cidade preserva as tradições dos

antigos moradores como é o caso da festa

religiosa de Santo Antonio, onde acontece a

luta entre cristãos e mouros, tradição essa,

de origem portuguesa que possui elementos

da modernidade como das transformações

dos grupos de carnaval, que a cada ano

vão se incrementando através de coloridos

"abadás" e dos trios elétricos cada vez mais

sofisticados. É o espaço da tradição e do

novo que vão se afunilando e tomando

novas configurações e representações na

comunidade.

O Carnaval dos Caravelenses

apresenta uma característica peculiar no

que se refere  a composição da festa,

agregando valores do modo de fazer

carnaval de duas regiões: Salvador (Axé) e

Rio de Janeiro (Samba). Embora houvesse

outras manifestações do carnaval

anteriormente, pretende-se focalizar a

atenção a estas duas formas diferentes de

expressão, que são as que melhor

representam o carnaval de Caravelas.

Esta concepção atual do carnaval

teve sua origem em 1959 com um jovem

chamado Odilon Lopes, que teve a idéia

de criar uma escola de Samba chamada

"Irmãos Portela". Hoje, esta escola é o

diferencial do carnaval caravelense, sendo

expressão do samba no Extremo Sul da

Bahia. Mais tarde, no ano de 1975 chega à

cidade o primeiro trio elétrico o "Clodonave",

depois o "Carenagem", e em seguida o

"Kitongo 2001". Estes trios popularizam a festa,

caracterizando e fortalecendo o Axé.

A cada ano o Axé manifesta-se através

de novos ritmos e arranjos. Como em outras

regiões da Bahia, o Axé se faz presente,

entretanto Caravelas destaca-se em relação

a outros carnavais de outras localidades, pois




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a interface  existente entre o samba e o axé

é uma realidade vivida pelos caravelenses,

de forma que nem um nem o outro estilo

musical se sobressai.

A música que embala o carnaval é um

ícone para demonstrar de forma dramática

da vida política, dos valores sociais, dos

papéis sexuais, do poder, do ciúme, da

boemia da malandragem e outros. Através

dela é representada a vida cotidiana,

cantada em versos e prosa por todos e fixada

no inconsciente coletivo da sociedade.

Como afirma Damatta (1993, p.62) "A música

popular e, em particular, a música de

carnaval seriam 'leituras' específicas da

sociedade brasileira por ela mesma".

Todo brasileiro conhece a expressão

"música de carnaval", trata-se de um gênero

de música composta especificamente para

o carnaval, embora possa ser tocado em

qualquer época do ano ou em qualquer

situação. E a Bahia com seus artistas, é uma

terra que cria arranjos e músicas tipicamente

carnavalescas, mesmo que faça sucesso em

outros momentos nas rádios e televisão.

Ao lado deste padrão de

participação, sabe-se que a "música

de carnaval" é para ser cantada e

"brincada" jamais para ser somente

ouvida. Aliás, vale lembrar que uma

das características mais marcantes

da música popular em oposição à

erudita é o fato de que a primeira é

feita para deflagrar algum tipo de

ação, ao passo que a segunda jamais

é acompanhada, mais somente

ouvida (DAMATTA, 1993, p.68).

O Axé é uma indústria fonográfica

cultural, que a cada ano emerge do cenário

baiano diversas bandas e músicas, com o

seu estilo próprio de raízes afro e também

excêntrico com misturas de ritmos e gingados

que é a marca registrada da Bahia porque

não falar de uma cultura híbrida (CANCLINI,

2003).

O termo híbrido se refere à mistura de



hábitos, crenças, costumes e formas de

pensamentos de várias sociedades, com

diferenças étnicas, com produtos de diversas

tecnologias e dos processos sociais modernos

e pós-modernos. Portanto, o Axé se torna uma

cultura designada de híbrida.

Em Caravelas, nota-se que o carnaval

é o evento de participação popular onde

envolve Axé e o Samba e quem sabe os

dois. A interface entre estes estilos faz com

que a música tocada seja vivida, cantada

e brincada por toda a sociedade na festa.

Carnaval: Patrimônio Cultural e

atrativo turístico de Caravelas?

A cidade de Caravelas possui várias

manifestações culturais que fazem parte da

comunidade local e que representam o

movimento cultural existente nesta cidade,

como por   exemplo: a luta de mouros e

cristãos, a festa religiosa de Santo Antonio, os

grupos folclóricos, e especialmente, a Escola

de Samba e o Axé que são as marcas maiores

do seu carnaval. Essas formas de criações e

demonstrações artísticas fazem parte do

patrimônio histórico cultural da cidade.

A cidade não conta com uma lei de

tombamento dos bens culturais, porém os

mesmos possuem um valor para os residentes

da ordem histórica, social, cultural e acima

de tudo afetiva. Faz-se necessária à

preservação destes bens materiais e

também os imateriais,  que constituem na

representação dos residentes um bem

histórico-cultural e também uma

possibilidade de atrativo turístico para a

localidade.

Entre os atrativos culturais de

Caravelas, destacam-se a Igreja Matriz de

Santo Antonio, de estilo barroco colonial

português e a Igreja de Santa Efigênia, com

imagens sacras em estilo barroco (português

e espanhol) dos séculos XVII e XVIII. Os

casarões da cidade, principalmente da rua



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Barão do Rio Branco, casas térreas em estilo

neoclássico _ arte nouveau _ são de meados

do século XIX, com fachadas e azulejos de

Macau na África.

O carnaval torna-se assim um bem

imaterial da cidade, que faz parte do turismo

cultural, onde as pessoas ao fazerem parte

desta manifestação artística, buscam se

identificar com a diversidade cultural desta

localidade. Esta manifestação se enquadra

na definição de patrimônio cultural, que está

na Constituição Federal Brasileira de 1988,

principalmente no Artigo 216 que trata da

cultura: "inclui os bens materiais e imateriais

como as formas de expressão, os modos de

criar, fazer e viver, as criações científicas,

artísticas e tecnológicas, obras, objetos,

documentos, edificações e às manifestações

artístico-culturais".

Observa-se, que o poder político nem

sempre está preocupado com a

preservação dos bens históricos e culturais.

Na realidade, a "preocupação" do Estado

em preservar o patrimônio histórico está muito

mais ligada aos interesses econômicos e de

legitimação do próprio Estado, ao investir em

grandes obras de recuperação e

revitalização do patrimônio histórico.

 Por cultura, entendemos todo poder

de criação, Azevedo (2002, p.134) define

como : "A força maior, mais abrangente,

geradora de patrimônio(s), elemento

subjacente ao turismo. Força que envolve o

pensar, o sentir, o fazer, o viver enfim.

Representa, portanto, o código mais

profundo que revela a feição singular de um

povo, ou seja, sua identidade".

Como Caravelas possui um diferencial

na forma de fazer Carnaval, caracterizada

pela presença marcante dessas duas feições

do Samba e do Axé, propõe-se preservar essa

característica como sendo um atrativo

turístico da cidade, que compõe um bem

imaterial do Patrimônio Cultural da

localidade.

Segundo Durham (apud Pellegrini Filho,

1997, p.92), "o homem é um animal que

constitui, através de sistemas simbólicos um

ambiente artificial no qual vive e o qual está

continuamente transformado. A cultura é,

propriamente, esse movimento de criação,

transmissão e reformulação desse ambiente

artificial".

A cultura como fator importante para

o turismo não deve ser dependente deste,

onde só é valorizada em virtude do

desenvolvimento turístico, porque se assim o

for, ela vem a reboque do turismo, não tendo

a importância que lhe é devida.

A relação entre cultura e turismo é de

fato uma realidade, pois não dá para

separar, devido à utilização da formatação

turística e cultural em produto, porém se faz

necessário não valorizar tanto um em

detrimento do outro. Deve-se valorizar a

importância tanto da cultura quanto do

turismo, nem a cultura deve vir à reboque

do turismo, nem o turismo à reboque da

cultura, mas contar com espaços

privilegiados entre as manifestações culturais

e os bens turísticos,  porque são elementos

balizadores do desenvolvimento local.

Nesta produção e criação de bens

culturais, o carnaval se destaca em

aglomerar todos os tipos de manifestações

culturais de grupos que resistem as

intempéries do tempo e preservam as suas

raízes e lutam para manterem esse espaço

de vitrine cultural, que é o carnaval.

Segundo Pellegrini Filho (1997, p.90-91):

A noção moderna de patrimônio

cultural não se restringe à

arquitetura, a despeito da

indiscutível presença das edificações

como um ponto alto da realização

humana. De modo que o significado

de patrimônio cultural é muito amplo,

incluindo outros produtos do sentir,

do pensar e do agir humanos -

inscrições de povos pré-históricos

(geralmente feitas em cavernas mas

também em locais a céu aberto),




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Patrimônio histórico cultural e turismo no carnaval de Caravelas: Axé versus Samba

Cláudio Magalhães Batista e Marco Aurélio Ávila

Caderno Virtual de Turismo

ISSN: 1677-6976

Vol. 6, N° 2 (2006)

sítios arqueológicos e objetos neles

pesquisados, esculturas, pinturas,

textos escritos (feitos à mão, às vezes

exemplares únicos, ou impressos e

portanto de reprodução mecânica

mas que podem assumir importância

especial), variadas peças de valor

etnológico, arquivos e coleções

bibliográficos, desenhos de sentido

artístico ou científico, peças

significativas para o estudo da

ergologia de um povo ou de uma

época, e assim por diante; tudo

somado no que se pode denominar o

meio ambiente artificial.

Em Caravelas a Escola de Samba

"Irmãos Portela" faz parte do Patrimônio

Cultural da cidade, pois foi construído pelos

moradores e está em constante construção

envolvendo o passado, o presente e o futuro,

e por possuir essa característica, o carnaval

se torna diferente e se apresenta como

elemento desencadeador do turismo

cultural.

Embora em Caravelas, a cultura tenha

seu espaço determinado em relação à

manifestação que não está atrelada ao

turismo, existe uma certa interdependência,

isso é notada principalmente no período do

carnaval, onde a cultura se aproveita do

turismo e o turismo, por sua vez, se apropria

da cultura para melhor viabilidade tanto

econômica, social e cultural.

Tal é a importância da cultura, que o

turismo se desenvolve a partir destas

expressões culturais e para ilustrar salientamos

o que Azevedo (2002, p.134)  afirma:

Turismo, por natureza essência,

implica a busca de diferenças.

Diferenças traçadas pela cultura e

pelo patrimônio. Ao representar um

dos veículos mais importantes de

divulgação cultural, o turismo emerge,

ele próprio, como instrumento de

reafirmação de cultura(s) e de

patrimônio singulares.

O turismo tem por característica

divulgar a cultura local e desenvolver de

forma sustentável economicamente a

comunidade. No caso de Caravelas, o

turismo é essencial para a divulgação de

cultura, não só carnavalesca, mas neste

caso especificamente desenvolver a busca

de um turismo cultural e de envolvimento

local, que não afaste a população.

No turismo, um fator importante que

deve ser observado é a questão da

sustentabilidade, onde precisa ser

implantada com urgência, pois, constitui a

mola propulsora para o desenvolvimento

regular para as futuras gerações e não só

momentâneo.

O carnaval constitui um importante

evento que proporciona empregos

temporários e imediatos, desde o

churrasquinho na esquina, as barracas de

acarajé, até as rivalidades entre as

cervejarias e telefonia, contudo esses

empregos são passageiros, aí reside todo o

desafio da sustentabilidade. Para isso, é

necessária políticas públicas, parcerias entre

empresas públicas e privadas com o intuito

de fomentar e de atrair também outros

eventos para a cidade, conseqüentemente,

divulgar a cidade e seus bens naturais e

culturais otimizando um fluxo cada vez maior

de turistas com o intuito de fortalecer a

economia local.

Considerações finais

Refletir sobre o Carnaval é sempre

desafiante, pois não se encontram muitas

referências enfatizando o enfoque do

carnaval e, principalmente, deste aspecto

da cidade de Caravelas com feições

particulares da forma de fazer carnaval.

Entende-se, na contemporaneidade,

como patrimônio histórico e cultural, além da

arquitetura, também os produtos do sentir,

do pensar e do agir humanos. Certamente o

Carnaval apresenta-se como parte do

patrimônio cultural desta localidade e que

carrega em si um apelo eminentemente




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Patrimônio histórico cultural e turismo no carnaval de Caravelas: Axé versus Samba

Cláudio Magalhães Batista e Marco Aurélio Ávila

Caderno Virtual de Turismo

ISSN: 1677-6976

Vol. 6, N° 2 (2006)

turístico, pois o turismo de Caravelas cresce

graças a essas manifestações culturais e no

caso específico no Carnaval, porém até o

exato momento ele não é protegido

legalmente como patrimônio cultural da

cidade.


Cultura e turismo estão intimamente

ligados, pois de uma forma ou de outra, um

necessita do outro para formatar e

apresentar o seu bem tangível (monumentos,

prédios históricos como as Igrejas) e intangível

(expressões artística-culturais, intelectuais,

festas, cultos religiosos).

O turismo que se destaca em

Caravelas é peculiar devido à interface do

Axé versus Samba, no Carnaval. O turismo

cultural tem a preocupação de preservar

um carnaval com múltiplas manifestações

dentro do mesmo e possui um potencial

turístico a ser explorado mais de forma

planejada e sustentável, visando sempre o

bem da população.

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República Federativa do Brasil. Artigo 216.

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