Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza



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A

 OPÇÃO PELA LUTA ARMADA

 

Em seus depoimentos, Herbert de Souza detalha sua participação 

na conjuntura imediatamente posterior ao golpe de 1964, em uma 

narrativa em que são resgatadas e entrelaçadas as transformações em sua 

vida pessoal e da AP. Revela que, logo depois do golpe de Estado, exilou-

se no Uruguai, juntamente com outros dois líderes da AP, Aldo Arantes e 

Jair Ferreira de Sá. No vizinho país, encontrou expressivas lideranças do 

movimento popular. 

Formaram-se, conforme seu relato, duas correntes entre os 

exilados. A primeira era próxima do ex-presidente João Goulart. A 

segunda, entre as quais os apistas se incluíam, ficou próxima de Leonel 

Brizola. Principalmente entre os últimos, vicejaram idéias de uma 

reconquista. Herbert de Souza afirma que chegou a ser incumbido, em 

1965, de uma missão para estabelecer a relação Cuba-Brizola, a fim de 

obter apoio material e logístico (GONTIJO, 1989).  Em sua avaliação, 

havia uma grande ilusão. “Era como se não se tivesse aceito a realidade, se 

tentasse espichá-la para além das suas fronteiras” (SOUZA, 1976, p. 79). 

Foi então que começou a entender o que ocorrera. “Era como se 

estivesse digerindo pela segunda vez. No fim de um ano, todo o esquema 

se desmistificou, e começamos a adquirir nossa dimensão política real. 

Não temos nada que fazer aqui, onde temos que fazer alguma coisa é no 

Brasil” (SOUZA, 1976, p. 80). Em entrevista do início da década de 1990, 

retoma o tema, detalha alguns aspectos e demonstra que, apesar dos 

impasses, sedimentara-se a adesão à idéia da luta armada: 

Nessa época nós víamos que as coisas não iam bem com a 

Ação Popular. As informações que tínhamos eram de que tudo 

estava desmobilizado. Aí decidimos voltar, para propor à AP a 

guerrilha. Viemos para São Paulo, retomamos a direção da 

Ação Popular e foi aí que se decidiu que o caminho da 

revolução era o da luta armada (SOUZA, 1991, p. 36). 

Embora os depoimentos investigados não contenham referências 

diretas à sua elaboração, a primeira revisão teórica importante a que 

procedeu a AP foi condensada no documento Resolução política, aprovado 

em 1965, em reunião nacional extraordinária. Herbert de Souza integrou 

o Comando Nacional eleito nessa reunião (OLIVEIRA JR., 2000). 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

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Preservou-se, na Resolução política, parte essencial do edifício 

conceitual do Documento base, especialmente os aspectos que abordavam o 

socialismo como humanismo e as críticas ao socialismo real, mas 

efetivou-se uma redefinição da estratégia. Criticando a imprecisão da 

elaboração anterior

5

, a grande mudança foi a adesão explícita ao objetivo 



de conquistar o poder pela via insurrecional e o desenvolvimento da 

formulação da estratégia da Revolução Socialista da Libertação Nacional, 

conceito que sofria influência das revoluções cubana e chinesa.  

No primeiro momento, teria prevalecido o que Herbert de Souza 

chama de “fase  debrayrista”, influenciada pela teoria do foco 

revolucionário. Ressalva, porém, que havia uma contradição: “A gente 

defendia a luta armada, mas continuávamos uma luta política. Estávamos 

assim na propaganda do foco, não na execução do foco [...]. A Ação 

Popular, na verdade, nunca colocou em funcionamento a sua pregação de 

luta armada. Fez algumas ações que não poderiam ser classificadas de luta 

armada” (GONTIJO, 1989, p. 94). Cita dois exemplos dessas ações. O 

primeiro foi um assalto a banco no interior da Bahia. O segundo, mais 

delicado, foi um mal-sucedido atentado no aeroporto Guararapes, cujo 

alvo era o general Costa e Silva, que percorria o país arregimentando 

forças para suceder Castelo Branco na Presidência da República.  

O processo de redefinição política afunilou-se em 1967, com a 

convocação do Debate Teórico e Ideológico, que promoveu um debate 

organizado sobre o marxismo. Nessa conjuntura, a AP programou o 

envio de delegações para Cuba e China. A delegação para Cuba foi 

sustada, pois Herbert de Souza representou a AP em um congresso da 

Organização Latino-americana de Solidariedade - OLAS, constituída com 

o objetivo de articular a revolução no continente.  

Influenciadas pelos paradigmas das revoluções cubana e chinesa, 

duas correntes polarizaram o processo do Debate Teórico e Ideológico. 

A “corrente 1”, adepta da linha chinesa e da compreensão de que o 

maoísmo constituía a terceira etapa do marxismo, defendia a revolução 

nacional democrática, a partir do pressuposto de que o Brasil era um país 

semicolonial e semifeudal. Compreendia que existira um partido de 

vanguarda no Brasil e que era necessária a sua reconstrução. A luta 

armada deveria ser realizada por intermédio da guerra popular 

 

5

   No Documento base, a referência à luta armada era vaga: "a história não registra quebra de 



estruturas sem violência gerada por essas mesmas estruturas, que produzem, em última 

análise, essa  conseqüência".  

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 


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prolongada, tendo como arena principal o campo. Seguindo práticas da 



revolução cultural chinesa, defendia, também, a proletarização da 

militância da AP, que deveria ser reeducada por intermédio de sua 

integração na  produção. 

A “corrente 2” preconizava a revolução imediatamente socialista, 

entendendo que a sociedade brasileira era capitalista. Recusava a idéia de 

que o maoísmo constituía uma nova etapa do marxismo e defendia que 

nunca existira um partido de vanguarda no Brasil e que era preciso 

construí-lo. Em 1968, a disputa teve um desenlace traumático. Ganhou a 

disputa a linha chinesa e promoveu-se a exclusão dos membros da 

segunda corrente, cujos líderes vieram a formar, em 1969, o PRT - 

Partido Revolucionário dos Trabalhadores. Disputas à parte, a Ação 

Popular converteu-se, definitivamente, em uma organização marxista. 

Herbert de Souza revela aspectos do cotidiano de sua crise com o 

cristianismo e de sua opção pelo maoísmo. Se a Ação Popular viveu um 

processo de ruptura com o  cristianismo e de  adesão formal ao 

marxismo-leninismo, afirma que sua crise pessoal de fé, iniciada antes 

mesmo do golpe de 1964, foi mais psicanalítica do que teológica. Um 

psicanalista que o clinicava infundiu-lhe uma crise com a figura de Cristo, 

cuja imagem era citada como ambígua, pois “era cabeludo como uma 

mulher” e se “vestia como mulher”. 

O que cai mesmo não é minha sexualidade, mas a minha 

religião. Eu tinha que romper com aquilo. A minha 

identificação com o Cristo, que era absolutamente neurótica, 

tinha que ser rompida. E ele fez isso através da ameaça do 

homossexualismo. Era uma coisa que eu morria de medo 

(SOUZA, 1996, p. 73). 

Se essa insólita dimensão de sua crise de fé não era representativa 

do coletivo, Herbert de Souza formula instigante análise do fenômeno de 

conversão ao marxismo-leninismo, no leito mais amplo de sua 

organização. A principal característica de sua interpretação demarca a 

processualidade do avanço do marxismo na experiência da AP e sua 

complexa relação com o passado cristão da maioria de sua militância.  

Salienta, por exemplo, que o marxismo já avançara bastante na 

encruzilhada de 1964 e estabelece uma distinção com o que ocorreria na 

conjuntura posterior: “eu diria que em 64, por aí, na Ação Popular nós 

nos considerávamos marxistas. Quando a gente passa a se dizer marxista-

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

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leninista aí começa outra etapa, porque marxismo-leninismo é diferente 



de marxismo” (SOUZA, 1996, p. 78).  

No contexto da redefinição ideológica da AP, Herbert de Souza 

permaneceu em Cuba por onze meses, por conta do congresso da OLAS. 

Com a indefinição dos destinos dessa organização, decorrente da morte 

de Ernesto Guevara, retornou ao Brasil. A AP estava dividida entre a 

linha maoísta e a linha cubana. Na escala que fazia em Santiago, recebeu 

uma delegação dos defensores da linha maoísta (GONTIJO, 1989), à qual 

veio a aderir. 

Com visão retrospectiva, critica a forma de recepção da influência 

da revolução cubana e o que se convencionou chamar de “teoria do foco 

revolucionário”: 

A nossa visão era muito esquemática e eu diria que 

profundamente equivocada. Nós achávamos que devíamos 

fazer a luta armada por intermédio da guerrilha, criando um 

foco, que geraria conflito, e este conflito jogaria a ditadura 

contra nós, mas a revelaria à sociedade. Esta, sob o impacto da 

revelação, iria nos apoiar e se rebelar. Boa parte das teorias 

guerrilheiras da época trabalhava com a hipótese de um período 

de guerrilha e, logo depois, um período de greve geral e 

insurreição, que era o modelo cubano (SOUZA, 1991, p. 36). 

As razões da adesão ao maoísmo foram assim descritas, sem 

dispensar pitadas de ironia: 

Logo depois eu me converti ao maoísmo. Porque eu já tinha 

lido Mao no Uruguai, um livro sobre a contradição, os escritos 

militares, tudo eu já tinha lido. E o maoísmo caiu melhor na 

minha estrutura de inspiração cristã. Um católico praticante 

fervoroso pode virar um maoísta numa questão de segundos, 

porque você tem Deus, que é o Mao, tem o camarada que é o 

chefe, você tem a revolução que é inexorável. [...]. Tem a Bíblia 

vermelha, que é pequenininha e fácil de ler. Bom, aí eu me 

converti no meio do caminho, voltando, eu já estava dizendo: 

entre esses e aqueles, eu fico com esses (SOUZA, 1996, p. 83). 

Minuciosamente, analisou: 

Nós viemos de uma tradição cristã. Então tinha que haver uma 

fase de transição, com certa solução de compromisso se 

estabelecendo. Negar hoje o valor disso dizendo simplesmente 

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 


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que até então éramos um grupo pequeno-burguês cristão e que 

depois viramos marxistas, por volta de 1967, é pura idiotice. É 

não entender que nós éramos uma resultante de um processo 

com profundas raízes sociais encontradas no Brasil.  Há que 

entender essa ligação, essa continuidade, essas rupturas de uma 

tradição cristã, que toma depois  um aspecto político, se 

radicaliza na política. Então tanto as virtudes como as graves 

deficiências estão vinculadas a esse processo. Ao chegarmos a 

adotar o maoísmo como uma religião em 1968-1969, tínhamos 

uma base pra isso. Por que fomos nós e não os outros grupos? 

Nós saímos da Ação Católica e outros não. Depois de Cristo, 

deu-se o vazio, mas o maoísmo chegou e o  camarada Mao 

pegou de novo a bandeira (SOUZA, 1976,  p. 72). 

Em conclusão: 

Quando o maoísmo, na versão idealista e voluntarista da 

pequena burguesia do Brasil, absorve a AP, é essa mística que 

lhe vai servir de base, como um reencontro histórico, com uma 

base já existente. Essa idéia de missão, de testemunho, de 

compromisso radical com uma causa e com a idéia de uma 

revolução (SOUZA,  1976, p. 71). 

Como já observara na transição entre a “gestalt cristã” e a AP, 

Herbert de Souza interpreta a adesão ao maoísmo pela permanência de 

atitude religiosa, traduzida, por exemplo, por uma ética militante análoga. 

A proletarização da militância, que preconizava “o trabalhar com o povo

viver com e como o povo”, era um ponto comum. Deve-se ressalvar, 

porém, que a “corrente 2” da AP, que rejeitava a metodologia da 

“proletarização”

6

, também tinha líderes com passado católico, como 



Vinicius Caldeira Brandt, e até mesmo um clérigo, o padre Alípio Freitas. 

Em suma, nem todos os que aderiram ao maoísmo eram cristãos

7

 e nem 


todos os militantes com passado cristão aderiram ao maoísmo.   

Não havia, assim, uma relação direta de causa e efeito entre a 

opção pelo maoísmo e a origem cristã, mas a interpretação é  instigante, 

na medida em que procura identificar que a nova opção tinha raízes em 

uma cultura anterior. Não havia uma descontinuidade absoluta. O caso da 

 

6



   A “corrente 2” desqualificava esse horizonte como “perspectiva individualista do auto-

aperfeiçoamento, empirismo” etc. 

7

   Por motivações e traduções próprias, correntes de origem marxistas aproximaram-se do 



maoísmo, como o PC do B e sua dissidência, a Ala Vermelha.  

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

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AP não foi isolado, saliente-se. Em outros países, houve transição 



semelhante da esquerda católica ao maoísmo.  De qualquer forma, a 

analogia entre a religião e a práxis das organizações revolucionárias, tal 

como elaborada por Herbert de Souza, pode ser estendida também às 

outras vertentes do marxismo-leninismo  de  sua  geração,  nas  quais  ele 

identificava um sentido missionário e messiânico. 

Por causa de sua opção pelo maoísmo da “corrente 1”, foi 

interpelado sobre seu posicionamento a respeito da exclusão dos líderes 

da  “corrente 2”,  na conclusão do Debate Teórico e Ideológico. 

Respondeu: 

Eu aderi ao grupo maoísta. Só havia duas alternativas: ou aderia 

a tudo o que ele fazia, que era uma espécie de guerra santa, um 

negócio de um furor ideológico incrível, ou então eu tinha que 

sair  da  AP.  Sair  da  Ação  Popular naquelas circunstâncias era 

como pedir para alguém sair de seu próprio corpo. Porque eu 

era fundador. Só depois, em 71, é que eu elaborei a idéia de sair 

(SOUZA, 1991, p. 37). 

Desenvolveu, em seus depoimentos, uma visão muito ácida sobre 

os desdobramentos políticos da conjuntura. De forma irônica, definiu 

nestes termos a decisão de proceder ao enfrentamento armado, de resto 

comum às posições em que a AP se dividiu, naquela correlação de forças: 

Então, o que nós fizemos foi tomar uma varinha e cutucar o 

leão. Só que, quando ele deu o urro, você estava dentro da jaula 

com ele, sem arma e sem chicote, e o leão era bem bravo. [...] 

Essa movimentação foi proposta em fins de 66 e 67 e em 68 já 

era uma realidade, mas em 68 não éramos só nós, já existia um 

movimento de massas. E, em 1969, o leão, que já tinha dado 

uns gritos, não só deu o grito como comeu pessoal. Eu 

consegui escapar. Quer dizer, saí de perto, mas continuei 

provocando o leão (SOUZA, 1976, p. 81).   




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