Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza


O  GOLPE MILITAR E SEU SIGNIFICADO



Baixar 274.67 Kb.
Pdf preview
Página8/17
Encontro25.04.2021
Tamanho274.67 Kb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   17
O

 GOLPE MILITAR E SEU SIGNIFICADO

 

A Ação Popular experimentou um rápido processo de expansão. 

Entre as organizações de esquerda fundadas no início da década de 1960 

como alternativa ao PCB, era a que tinha maior audiência de massas 

(GORENDER, 1987). Todavia, sua ascensão foi interrompida pelo golpe 

militar de 1964, como de resto aconteceu com os movimentos políticos 

que marcaram a conjuntura dos primeiros anos daquela década. Às 

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 


172  

Dias


 

 

organizações de esquerda impôs-se a amarga tarefa de entender as razões 



do insucesso político e seu significado. A partir de então, a AP seguiria o 

caminho que culminaria em sua adesão ao marxismo-leninismo.  

Em seus depoimentos, Herbert de Souza consolidou uma análise 

sobre o significado do golpe de 1964 que segue uma linha oposta ao 

caminho percorrido pela Ação Popular. Por um lado, sua narrativa 

contém uma identificação com os processos então interrompidos e, por 

outro, faz críticas às opções que viriam a ser feitas no interior de sua 

organização.    

O sentido de fratura, promovido pela ruptura institucional vivida 

pelo país, pôde  ser percebido imediatamente: “quem viveu aquilo, quem 

entendeu e estava ali presente, não pode esquecer aquilo nunca. Era como 

se um pedação de história que eu tinha vivido tivesse sido cortado, posto 

fora. Agora é diferente. Minha perspectiva de futuro, meus amigos, meus 

hábitos, inclusive meu passado, tudo mudou” (SOUZA, 1976, p. 78).   

Naquele momento, entretanto, o sentido último dos 

acontecimentos não podia ser entendido na devida profundidade. Essa 

dificuldade não decorria apenas da complexidade dos fatos, correspondia 

ao próprio fazer-se da organização, cuja flexibilidade combinava-se com 

grande dose de voluntarismo.  Herbert de Souza observa que 

O movimento prevalecia sobre o entendimento. [...] Para nós 

da AP era muito difícil entender, na conjuntura tumultuada do 

momento, na ação e nas novas chances que se abriam para 

fazer política, que você devia parar para fazer uma análise e ter 

um entendimento mais profundo do que era aquilo tudo. Isso 

só vai ser possível com o movimento reflexivo posterior 

(SOUZA, 1976, p. 76).  

Com a mediação desse movimento reflexivo posterior, comenta o 

corte sobre as perspectivas de desenvolvimento nacional: “Estou 

convencido de que até (1963) um processo revolucionário era possível no 

Brasil. Possivelmente não o socialismo. Mas uma democracia mais 

avançada era possível. E um desenvolvimento econômico mais 

nacionalista” (SOUZA, 1976, p. 76). 

A respeito das perspectivas da AP, avaliou: “Fomos tragados por 

uma dinâmica que nos levava na direção de um partido de massas. Não 

fosse o golpe de 1964, talvez esse tivesse sido o destino da Ação Popular, 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

173


 

 

com seus quadros, seus militantes e uma força de sustentação popular” 



(SOUZA, 1996b, p. 27) 

Percebe-se, nessas reflexões, o peso dos impasses vividos no 

período da ditadura militar e, sobretudo, a influência de sua experiência 

de exílio no Chile, quando redescobriu a política de massas abortada pela 

ditadura militar brasileira. É o que se lê nesta passagem, extraída de um 

de seus últimos depoimentos: 

Aquela época foi uma das mais ricas do Brasil em termos de 

experiência política, somente comparável ao período de 1972-

1973 no Chile. Acreditávamos que algo de novo poderia surgir. 

Vivíamos num clima de permanente ação e tensão em que nos 

sentíamos atores participantes, bem ao contrário do que iria se 

passar após o golpe, em que só poderíamos ser espectadores ou 

vítimas (SOUZA, 1996b, p.27).  

O centro de gravidade da análise de Herbert de Souza sobre o 

significado do golpe militar de 1964, verificado no primeiro depoimento e 

reiterado nos posteriores, é sua identificação com os processos 

interrompidos e com suas possibilidades de desenvolvimento. Torna-se 

crítico das redefinições vividas pela esquerda em geral e pela AP em 

particular. Por isso, tende a exaltar, a despeito da imprecisão e de certa 

ingenuidade, a inventividade daquele momento, em detrimento das certezas 

do marxismo-leninismo que a AP abraçaria na conjuntura posterior.   

Nota-se, em suas falas, o uso deliberado do subjuntivo, como 

exemplifica a frase “não fosse o golpe de 1964”. Essa reflexão não deve 

ser entendida como manifestação do que se convencionou chamar de 

“nostalgia do não vivido”. Não se trata de uma tentativa de volta ao 

passado. As reflexões de Herbert de Souza estão a “detectar [...] as 

virtualidades não realizadas, a história que poderia ter ocorrido tivessem 

sido outras as circunstâncias”, como  escreveu, analisando um tema 

correlato, Marco Aurélio Garcia (1990, p. 19). 

Não obstante a avaliação construída no movimento reflexivo 

posterior, Herbert de Souza viveria as tensões das sucessivas conversões 

experimentadas pela AP. Foi com o olhar de quem tinha vivido essas 

conversões que comentou criticamente a fase iniciada com a instauração 

da ditadura.  

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 

1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   17


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal