Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza


D A ORIENTAÇÃO POLÍTICA E IDEOLÓGICA



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A ORIENTAÇÃO POLÍTICA E IDEOLÓGICA

 

O horizonte filosófico, ideológico e político da AP foi sintetizado 

no  Documento base, aprovado em seu congresso de fundação. Ensejando 

um diálogo entre o pensamento cristão progressista, o existencialismo e o 

marxismo, o Documento base criticava o “socialismo real”, acusando a 

gestação de novas formas de alienação em sua experiência. Advogava a 

existência de caminhos plurais ao socialismo e se definia, sem rigor 

conceitual e estratégico, pela necessidade da revolução socialista. A AP 

preconizava, então, “uma ideologia própria” e o socialismo com 

humanismo. 

Em nenhum de seus diferentes depoimentos, Herbert de Souza 

chega a se deter exaustivamente sobre o Documento base, apesar de ter sido 

um de seus elaboradores. Emite, entretanto, reflexões que permitem 

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 


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balizar sua análise retrospectiva a respeito da formulação que movia a AP 



naquela fase. Em entrevista à revista Teoria e Debate,  compara a mudança 

de perspectiva existente entre o Documento base e o texto do Ideal histórico

elaborado nos tempos da JUC: 

O ‘Ideal Histórico’ [...] é a preliminar do Documento base da 

Ação Popular. Eu diria que ele ficava além do pensamento 

cristão clássico e um passo aquém no debate com o marxismo. 

Fazia a crítica do capitalismo, mas não falava em socialismo. O 

documento-base da AP tenta situar muito mais concretamente 

a questão democrática e da revolução, da política. Foi um passo 

dado quando percebemos que era impossível fazer o tipo de 

política que queríamos dentro da Igreja (SOUZA, 1991, p. 35). 

Salienta a ampliação de perspectivas e o caráter aberto como o 



Documento base incorporava o marxismo, sugerindo o contraste com a 

rigidez do período posterior: 

O documento base não era uma produção da JUC, enquanto 

tal, mas a JUC foi muito atraída por ele. Eu diria que todo 

jucista politizado acabaria na Ação Popular. Exatamente 

porque o documento-base não fazia uma profissão de fé 

ideológica, marxista. Usava o marxismo mas não tinha aquela 

coisa que veio depois, quando você tinha que afirmar que era 

marxista, como um primeiro passo, depois ter que provar que 

era marxista e depois que só nós éramos marxistas (SOUZA, 

1991, p. 35). 

Na entrevista divulgada pelo livro No fio da navalha, Herbert de 

Souza foi questionado sobre o tema da via ao socialismo então preconizada 

pela AP. Suas respostas foram razoavelmente difusas, exigindo intervenção 

dos argüidores para buscar exatidão. De início, afirma que a AP se 

colocava numa posição próxima da terceira via, porque não era capitalista 

nem socialista. Interpelado, ressalta a crítica, contida no Documento base, 

ao socialismo real e, embora ainda tente situar a formulação entre o 

socialismo e o capitalismo, ressalva: “acho que era entre socialismo e 

capitalismo, se bem que nós nos dizíamos socialistas,  de  um  socialismo 

humanista, socialismo democrático eu diria hoje” (SOUZA, 1996, p. 42). 

Por fim, resume: “estávamos no socialismo humanista”. 

A despeito de sua dificuldade de refletir sobre a antiga 

formulação duas décadas depois, inclina-se, como se vê nesta e em outras 

passagens, a ter uma simpatia maior por aquela fase da vida da AP: “No 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

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início, a Ação Popular se diz socialista. Depois ela vai não sei se 



evoluindo ou se perdendo

 

e vira marxista-leninista e depois maoísta. Foi 



uma sucessão de conversões” (SOUZA, 1996, p. 42). 

Herbert de Souza considerava positivas a abertura de perspectivas 

e uma margem de indefinição conceitual. Essas características eram 

vantajosas, por exemplo, na afirmação da AP como movimento 

alternativo ao PCB. A AP estabeleceu alianças com o PCB para a 

conquista da UNE e também na fundação da Confederação Nacional dos 

Trabalhadores Agrícolas (Contag), mas mantinha uma disputa de 

hegemonia. 

Em relação a esse cenário de disputa, Herbert de Souza aponta 

fatores que colaboraram para a ascensão da Ação Popular como força 

política. Um deles era a representatividade social do catolicismo: “Até 

1964, cerca de 90% dos militantes políticos se declararam católicos, ou 

seus pais o eram. É preciso que se compreenda essa ligação, essa 

continuidade, apesar da ruptura com a tradição cristã, processo que 

tomou um cunho político e que se radicalizou” (SOUZA, 1996b, p. 21). 

Outro fator era a linguagem: “O PC esforçava-se sempre por se auto-

afirmar como PC. Mas isso afastava a massa, que estava impregnada de 

pregação anticomunista. Nós dizíamos o que o PC queria dizer mas sem 

usar nenhum slogan” (SOUZA, 1976, p. 75). 

Ressalta o impacto da renovação política ensejada pela AP: 

“como não tínhamos o peso de uma tradição [...], tínhamos mais 

flexibilidade diante da realidade social [...]. Essa flexibilidade, esse sentido 

de iniciativa, essa abertura e sensibilidade para o movimento real, e mais 

esse problema de linguagem vão-nos diferenciar” (SOUZA, 1976, p. 76). 

Em resumo: “A nossa proposta podia ser utópica, inviável ou ingênua, 

mas era sem dúvida a mais bonita, empolgante e radical. Tanto que 

ganhamos o movimento estudantil” (GONTIJO, 1989, p. 61). 




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